quarta-feira, 30 de março de 2011

Cordeiros em peles de lobos

Um primeiro ponto importante para entender os acontecimentos do Egito é dado por Antonio Negri e Michael Hardt. Eles afirmam que não há como entender o que aconteceu lá como uma repetição do passado, como uma comuna de Paris, por exemplo, ou como a revolução socialista de 1917. Trata-se de outra coisa, com certeza.

Eles lembram que a revolta se deu predominantemente através de redes sociais e parecem enxergar sob a trama um bom exemplo da nova organização social, se é que se pode chamar assim, que se estabelece não mais como povo, mas como multidão. Creio que o que eles dizem é interessante e importante para se levar em conta.

Um dos significados da palavra “inteligência” está relacionado à “compreensão da natureza das coisas e do significado dos fatos”, segundo o dicionário do Houaiss. E são as pessoas inteligentes que estão envolvidas nos conflitos, segundo Negri e Hardt. Essas que se utilizam de ferramentas que demandam razoável inteligência e não pouca iniciação tecnológica, capazes de utilizar esses recursos para manifestar aquilo que a multidão tem de mais característico, a expressão comum através da diversidade. Movimentos como esse, assim como outros mais antigos, como a contracultura dos anos 1960, são, parece claro, movimentos já relacionados à multidão, não mais ao povo.

Visto por esse lado, realmente pode ser algo novo. Simplesmente porque a história é outra e a ordem social mudou de configuração, mas o poder parece mais estruturado do que nunca, o que significa reconhecer que se manterá a ordem dos acontecimentos por muito tempo ainda. O poder é estruturado e, assim, é estruturante, dizia Bourdieu, e se conseguiu contemporaneamente gerar um domínio e um controle tão mais eficazes e cruéis do que os existentes na disciplina da Era Moderna, em boa parte graças à revolta da multidão contra a tal modernidade sólida de Bauman, pode estar mostrando que sua máquina de guerra tem muita munição.

Um dos fatores a ser levado em conta é a interpretação dos meios de comunicação, a cobertura “isenta e objetiva” dos fatos. Ali se percebe claramente que o Ocidente não aprendeu, nem sequer deseja aprender, que a realidade não é, nem nunca será, correspondente aos conceitos que formalizamos em relação a ela. Se nas ruas do Egito sobrou inteligência, esta faltou nos jornais, revistas, televisões, rádios e sítios noticiosos. Como sustentáculo ideológico do poder, o jornalismo continua confundindo o objeto e a sua representação. Isso não pode ser à toa. Forma uma cadeia significante que produz associações diretas de signos relacionados a um texto prévio. E isso não é bom para a inteligência. Não é bom para a sua inteligência.

Nesses acontecimentos, que já vitimaram o ex-ditador de plantão egípcio, cabe se tirar uma mais uma lição sobre a ordem sociopolítica da contemporaneidade. Não é algo como a revolução francesa, é uma revolta articulada e desarticulada com a mesma força. A impressão é a de que alguém ligou a força e pôs a revolta para funcionar, desligando o interruptor na sequência. Assim já ocorreu em outros locais do mundo, em Seattle e Buenos Aires, por exemplo, assim como em Paris, há mais de quarenta anos. Consta que Lacan já havia alertado aos manifestantes que o que eles buscavam não era mais do que a um senhor, como na definição da rebeldia feita por Erich Fromm.

Pode haver, aí, efetivamente, uma manifestação que Negri e Hardt conseguem tocar com seu conceito de Multidão. Trata-se, tudo indica, de uma emblemática manifestação da expressão comum através da diversidade, algo que se dá por momentos, mas que se desarticula posteriormente quando se entende que se a diversidade se render ao comum deixa de existir. Embora o que tenha havido, sempre, não tenha sido, nunca, diversidade, mas uma expressão dela, um discurso sobre ela. E uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Não lembro se foi Jameson ou Featherstone que definiu muito bem a desordem pós-moderna como bastante ordeira. E a ordem que jaz sob os cacos de sentido, sabe Beatriz Sarlo muito bem, é a do mercado.

A mim parece que, como disse, o poder macropolítico mantém sua força de ação cada vez mais potente na esfera micropolítica. Assim, pode-se livrar de um ditador antiquado e substituí-lo por um novo em folha, que conte dessa vez com o apoio dos votos. Isso já aconteceu antes. A estrutura do poder parece se manter forte e controla, com boa margem de sucesso, governos de esquerda, como no Brasil. Esses governos conseguem um maior equilíbrio social entre as camadas médias e baixas a um largo custo daquelas, deixando intocado o grande capital. Trata-se de uma ação irrefutável que sugere o fato de que ao poder do capital é mais proveitoso, hoje, contar com governos que despertem a simpatia da população, notadamente da população que se contava como excluída há pouco mais de dez anos.

Pode-se perceber, então, que há uma novidade não apenas na revolta egípcia, mas em todos os movimentos sociais que se organizam contemporaneamente. Eles parecem feitos por gente inteligente, são tratados com muito pouca inteligência e são ligados e desligados com rapidez. Não possuem lideranças, a não ser as que eclodem instantaneamente do anonimato para mergulhar nele em seguida. Parece haver a necessidade de supor que acima da multidão parece estar se estabelecendo um espírito de rebanho, aquele que Nietzsche odiava. Talvez seja o caso de supor que esses movimentos são formados bisonhamente por cordeiros em peles de lobos. A imagem perfeita do que tem sido a maioria de nós nestes tempos.

terça-feira, 29 de março de 2011

Andarilho


Sempre gostei de caminhar. No Rio de Janeiro, onde nasci, me acostumei a andar muito desde a adolescência. Gostava do mar, adorava “pegar” ondas de peito, atividade que era conhecida como “pegar jacaré” até algum tempo atrás, e costumava ir até o posto 5, local no qual havia uma formação interessante de ondas, graças às obras do aterro de Copacabana, na década de 70, que formaram o que chamávamos de “baixinho”. Naquele local havia uma espécie de afundamento do solo que, por algum motivo, facilitava a formação de ondas altas que eram, apesar do tamanho, adequadas para essa prática esportiva. Ia até lá praticamente todos os dias e fazia uma longa caminhada, de aproximadamente 3 quilômetros, na qual eu ia pensando, pensando, pensando.

Continuei a caminhar durante o resto da vida, até hoje. Para mim, andar é uma atividade bastante proveitosa. Além de saudável fisicamente, como atestam os médicos, faz bem ao espírito. Possibilita um arejamento, um frescor para a alma. Mesmo quando se anda de forma apressada, suando e olhando para o relógio, vale a pena.

Enquanto caminhamos, todo o corpo se movimenta e o cérebro parece funcionar livremente. Se você prestar atenção, ele te dá acesso a toda a multidão que nos habita. Por isso, gosto das caminhadas longas. Elas permitem que muitos desses personagens que trago dentro de mim acabem encontrando espaço para se expressar. Geralmente, eu os convoco para uma grande assembleia. Coloco em questão um tema que me angustia e fico a ouvir as diversas vozes. Pura esquizoanálise, diria Guattari.

É surpreendente como podemos descobrir, nesses momentos, a diversidade de opiniões que temos sobre determinado assunto. E o curioso é que não costuma haver consenso. A conclusão, depois de ouvir o maior número possível de vozes, é nossa. Apenas a nós cabe pôr ordem na casa e deliberar acerca do que fazer. Nesse momento, é possível descobrir que esse tal “eu” serve para alguma: coordenar as discussões e escolher qual partido tomar. O “eu” parece realmente ser um mediador, como Freud já dizia há quase cem anos.

Já viu um motorista nato andar a pé? Não se transforma jamais em um pedestre. É um motorista sem carro, desajeitado, atônito, sempre cansado, desconfortável. Entrar em um ônibus é algo como uma desonra nauseante.

Eu, por mim, deixei de dirigir há mais de 20 anos. Definitivamente, não consigo gostar da ideia de prestar atenção na pista. Dirigir é claramente entrar no fluxo da máquina e se condicionar às suas leis. Não gosto disso. Sou um espécime em extinção. Alguém precisa fundar uma ONG para me defender.

Sou um andarilho, pedestre nato e hereditário, e aconselho que você tenha seus momentos caminhantes também, se é que já não os têm. Não é necessário um tênis branquinho com meias até os tornozelos e uma bermuda. Pode ser de qualquer jeito, a qualquer hora possível. Você vai ver que vale a pena ser um pedestre, mesmo sabendo que não tem vez nas cidades.

Jornalismo antidemocrático

Os jornalistas "pigs" odeiam a democracia, mas juram defendê-la
Certa vez, acompanhei, como assessor de imprensa, um cliente a uma emissora de televisão para uma entrevista em um telejornal vespertino. O que o levava até lá não era nada agradável, mas problemas com pagamento de pessoal contratado, segundo ele, ilegalmente por seu antecessor. Tratava-se de um secretário de Estado.

Em tese, o jornalismo existe para coletar, investigar, analisar e transmitir informações, seja ao chamado grande público, seja a segmentos deste. Deve fazer isso objetivando a formação da consciência, pois é fundamental na democracia apenas pelo fato de fornecer, a cada cidadão, dados e informações seguras e detalhadas sobre o que acontece na sociedade.

Num caso como o do meu cliente, a abordagem deveria ter priorizado a análise objetiva dos fatos, para que a sociedade pudesse ouvir, refletir, formar uma opinião e agir conforme as informações recebidas. Isso significa dizer que a ética determinaria que o telejornal se dirigisse ao intelecto do telespectador, para prestigiá-lo e reforçá-lo.

Não foi isso, porém, o que vi acontecer. Para começar, teatralmente, foram convidados para participar, não no estúdio, mas na portaria da emissora, três funcionários que não recebiam seus salários há meses. Até aí, tudo bem, seria o espaço do contraditório a pôr em xeque as explicações oficiais do secretário. Imaginemos que ele dissesse que o pagamento ou parte dele já tinha sido feito. Havia ali três pessoas para afirmar o contrário.

Mas eu disse que havia uma intenção teatral. A matéria foi aberta com reportagens sobre problemas nos serviços oferecidos pela secretaria de meu cliente, com tom apenas crítico. Nenhum espaço para refletir sobre o porquê dos problemas apontados, nem muito menos para dizer se as situações problemáticas eram determinantes nos serviços governamentais ou se havia pontos positivos a ser realçados. Não. Apenas o caos, as ruínas, a peste, a tragédia total e completa.

O jornalista que estava com os funcionários veio em seguida e somente passou a palavra para os três de modo a que pudessem se colocar mais ainda como vítimas, como impotentes perante o mau Estado buscando salvação nos braços da heroína imprensa. No palco, o bem, o mal e as vítimas deste procurando se agarrar àquele.

Havia um script predeterminado do qual nenhum ator poderia escapar. Algo como um triângulo edípico, determinante e inapelável. Durante toda a entrevista, o secretário foi posto contra a parede como representante de poderes malévolos, os funcionários foram induzidos a se lamuriar como vítimas desses poderes e os jornalistas a agir como heróis que estavam do lado dos fracos e oprimidos. Em um dado momento, inclusive, para garantir o tom emocional e acusatório, uma das entrevistadoras perguntou se o secretário, o vilão, não estaria envergonhado com a situação.

É preciso pensar que entrevistas ou matérias como essa são desnecessárias e mesmo depõem contra a função do jornalismo numa democracia, exposta anteriormente. O tom moralista e o modo como esse jornalismo infantiliza aquele que chama de cidadão é, isso sim, vergonhoso. Ainda mais pelo motivo de que isso não acontece por imperícia ou imprevidência dos jornalistas, dos editores que os comandam ou dos dirigentes dos veículos de comunicação. Não há inabilidade aí.

Há, isso sim, uma clara intenção deliberada de informar de modo pobre, de manter a consciência refém da emoção, descartando quase todo conteúdo racional. Para a imprensa, ironicamente, não parece haver interesse de que o cidadão pense, que reflita e forme uma opinião autônoma sobre o que acontece a sua volta. Há, em vez disso, a intenção de prender a atenção pelo sensacional, pelo emocional, pelo não racional. Em outros termos, há o propósito de obnubilar a capacidade de discernimento. E isso não é prestar um serviço democrático.

sábado, 26 de março de 2011

Hegemonia e Império

Por José Luís Fiori

O passeio de fim de semana da família Obama ao Brasil passaria à história como um acontecimento turístico carioca e uma gentileza internacional, se não tivesse coincidido com o desastre nuclear do Japão, e com o início do bombardeio aéreo da Líbia. Em particular, porque a decisão dos EUA, de atacarem o país norte-africano, foi tomada no território brasileiro, um pouco antes do jantar festivo que o Itamaraty ofereceu à delegação norte-americana. Esta decisão, sobretudo, serviu para relembrar aos mais apressados que os EUA seguem sendo a única potência mundial com “direito” de decidir – onde e quando quiser – e com capacidade de fazer intervenções militares imediatas, em qualquer conflito, ao redor do mundo. Uma lembrança oportuna, porque tornou-se lugar comum, na imprensa e na academia – à direita e à esquerda – falar do declínio do poder americano, enquanto se acumulam as evidências no sentido contrário.

Depois de 1991, e em particular depois do fim da URSS, a Europa deixou de ser o centro de gravidade do sistema internacional, que passou para o outro lado do Atlântico. E ao mesmo tempo, os EUA transformaram-se na “cabeça” de um novo tipo de “poder global”. Um império que não é colonial, não tem estrutura formal, e que possui fronteiras flexíveis, que são definidas em cada caso, em última instancia, pelo poder naval e financeiro dos EUA.

E desde o início do século XXI, os EUA estão enfrentando as contradições, os problemas, e as trepidações produzidas por esta transição e esta mudança de status: da condição de uma “potencia hegemônica”, restrita ao mundo capitalista, até a década de 1980, para a condição de “potência imperial global”. Hoje, é impossível prever como será administrado este novo tipo de Império, no futuro. Porque ele segue sendo nacional e terá que conviver, ao mesmo tempo, com cerca de outros duzentos estados que são ou se consideram soberanos. E além disto, porque dentro deste sistema, a expansão do poder americano é a principal responsável pela multiplicação dos seus concorrentes, na luta pelas hegemonias regionais, dentro do sistema mundial.

O que está se assistindo, neste momento, é uma mudança na administração do poder global dos EUA. Este processo está em pleno curso, mas será longo e complicado, envolvendo divisões e lutas dentro e fora da sociedade e do establishment norte-americano
Nova geo-economia internacional intensifica competição entre EUA e China, e deu início a “corrida imperialista”, cada vez mais intensa na África e na América do Sul

O que está se assistindo, neste momento, é uma mudança na administração do poder global dos EUA. Este processo está em pleno curso, mas será longo e complicado, envolvendo divisões e lutas dentro e fora da sociedade e do establishment norte-americano. Mesmo assim, o mais provável é que ao final deste processo, os EUA  adotem uma posição cada vez mais distante e “arbitral” com relação aos seus antigos sócios, e em todas as regiões geopolíticas do mundo. Estimulando as divisões internas e os “equilíbrios regionais” de poder, jogando os seus próprios aliados uns contra os outros, e só intervindo diretamente em última instancia, segundo o modelo clássico do Império Britânico.

Este novo tipo de poder imperial dos EUA não exclui a possibilidade de guerras, ou de fracassos militares localizados, como no Iraque ou Afeganistão, nem a possibilidade de crises financeiras, como a de 2008. Estas crises financeiras não deverão alterar a hierarquia econômica internacional, enquanto o governo e os capitais americanos puderem repassar os seus custos para as demais potências econômicas do sistema. E as guerras ou fracassos militares localizado seguirão sem importância enquanto não ameaçarem a supremacia naval dos EUA em todos os oceanos e mares do mundo, e enquanto não escalarem na direção de uma “guerra hegemônica” capaz de atingir a supremacia militar norte-americana.

De qualquer forma, é óbvio que este novo poder imperial não é absoluto nem será eterno. Como já foi dito, sua expansão contínua cria e fortalece poderes concorrentes, e desestabiliza e destrói os “equilíbrios” e as instituições, criadas pelos próprios EUA,  estimulando a formação de  “coalizões de poder” regionais que acabarão desmembrando aos poucos o seu poder imperial, como aconteceu com o Império Romano.

Por outro lado, a nova engenharia econômica mundial deslocou o centro da acumulação capitalista e transformou a China numa economia com poder de gravitação quase equivalente ao dos Estados Unidos. Esta nova geo-economia internacional intensifica a competição capitalista, e já deu início a uma “corrida imperialista”, cada vez mais intensa na África e na América do Sul, aumentando a possibilidade e o número dos conflitos localizados entre as Grandes Potências. Além disso, o poder imperial americano deverá enfrentar uma perda de legitimidade crônica dentro dos EUA, porque a diversidade e a complexidade nacional, étnica e civilizatória do seu império, é absolutamente incompatível com a defesa e a preservação de qualquer tipo ou sistema de valores universais – ao contrário do que sonha uma boa parte da sociedade norte-americana.

De qualquer maneira, o passeio da família Obama aos trópicos, e a retórica simpática e amena do presidente americano serviram para demonstrar como funciona na prática, o “tratamento entre iguais”, quando um deles é um Império.

http://www.outraspalavras.net/2011/03/24/hegemonia-e-imperio/

quinta-feira, 24 de março de 2011

Agora, a revolta é morro acima

Embora vista-se de humanidade por cinismo, a ordem imperial depende da guerra e da dominação direta. Não mais hesitará em rugir seus canhões

Por Bruno Cava, do Outras Palavras e Universidade Nômade

Obama estava distante e cansado. Pronunciava as falas maquinalmente. Parecia cumprir a agenda em Brasília como um burocrata aborrecido, vagamente interessado pelos assuntos em pauta. Nem Lula compareceu para conferir maior vibração à vinda do presidente americano. Num certo momento, um assessor lhe confidenciou algo ao pé-do-ouvido, e Barack respondeu: “proceed”.

A cabeça de Obama estava longe. Daqui, ordenou a Operação Alvorada da Odisséia. Os EUA estão à frente da intervenção militar na Líbia. Articularam seus aliados no Conselho de Segurança da ONU, Reino Unido e França, para aprovar a Resolução 1.973. Muito mais do que estabelecer uma zona restrita de vôo sobre o território líbio (que por si só já infringe a soberania e é casus belli no direito internacional), como vem sendo noticiado, a medida autoriza amplamente a “adotar todas as medidas necessárias (…) para proteger civis e populações civis sob a ameaça de ataques na Líbia, inclusive Benghazi, porém excluindo a ocupação militar de território.”

Obama aderiu ao discurso de guerra & democracia, a espinha dorsal da ordem imperial a que ele mesmo, desde o dia um da campanha, se propunha a construir uma alternativa
Obama está acuado. Enfrenta crescente descontentamento nas bases mais tradicionais do Partido Democrata, bem como no movimento jovem que, com as redes sociais, o elegeu. Entrementes, a oposição unificada ao redor da pauta ultraconservadora do Tea Party se fortalece a cada dia. Neocons e fundamentalistas cristãos pressionam Barack pela direita, ao mesmo tempo que irrompeu nas ocupações de Madison (Wisconsin) uma nova esquerda, insatisfeita com as hesitações e retrocessos do governo Obama.

O senador democrata John Kerry (membro do comitê de relações exteriores do senado) requereu a ação militar. Usou argumentos humanitários, como nas intervenções do governo Clinton nos anos 1990, em Kosovo e Somália. Parte da esquerda mundial segue na mesma linha dos direitos humanos.

Por sua vez, os neocons republicanos igualmente clamaram pela intervenção, mas tomaram como exemplo as ações militares do governo Bush, no Iraque e no Afeganistão. Em suma, é preciso reafirmar a liderança norte-americana na propagação dos valores ocidentais, e garantir a segurança de seu território diante da escuridão terrorista.

Se o argumento republicano é simplesmente nefasto e fanático, o dos democratas e parte da esquerda mundial deve ser acolhido com um grão de sal. Achar que uma intervenção ocidental, por si só, possa resolver a guerra civil e trazer a democracia à Líbia ignora a recente experiência no Iraque, que por sinal não serve de exemplo para ninguém e, por isso mesmo, não vem sendo citada por nenhum dos movimentos rebeldes pelo mundo árabe. Ademais, de que democracia se está falando? a pacificação significa exatamente que tipo de poder soberano para disciplinar os árabes?

Acuado pela incapacidade de compor politicamente uma saída para a governamentalidade em crise, o presidente americano foi empurrado a um dilema amargo. Viu-se compelido a incorrer no mau hábito americano de intervir militarmente num país estrangeiro. E agir como um senhor da guerra, precisamente o que ele prometera não fazer. Na noite do dia 19, os Estados Unidos comunicaram oficialmente que estão à frente das forças intervencionistas.

Ou seja, Obama aderiu ao discurso de guerra & democracia, a espinha dorsal da ordem imperial a que ele mesmo, desde o dia um da campanha, se propunha a construir uma alternativa. Some a manutenção do campo de Guantánamo e os fracassos no Iraque e Afeganistão, que a Líbia tem tudo para ser a pá de cal de seu projeto político. Esse governo frustrado completa o ciclo e retorna à estaca zero.

Fogos cobrem toda a Líbia de Gaddafi.

Apesar de não agir à moda John Wayne, como o antecessor, e ter conseguido negociar as abstenções de Rússia e China ante a Resolução 1.973, o presidente deu o proceed para uma aventura militar de larga escala. As repercussões de curto e longo prazo não reúnem nenhum consenso entre analistas. Na iminência de o ditador reconquistar Benghazi, num triunfo que seria a glória para o regime ditatorial, Barack sabia que a ação militar teria contornos bem mais largos do que uma mera ajuda ao estropiado exército popular do leste.

Não à toa, no dia 19, as primeiras missões interventivas não tenham se realizado com o patrulhamento dos céus líbios. Logo de início, a força aérea francesa tratou de atacar veículos terrestres, enquanto a marinha americana disparou 110 Tomahawks em direção à costa africana. Esses mísseis de cruzeiro atingem alvos a até 2.500 km, com 450 kg de carga explosiva plástica, capaz de pulverizar edificações inteiras. Na noite do dia 19 para 20, bombardeiros furtivos B-2 investiram por toda a região sob controle das tropas de Gaddafi. Foram alvejados estações de radar, bases aeronáuticas, pistas de pouso, baterias antiaéreas, palácios, estradas e pontes.

É curioso como, durante as últimas semanas, tanto se debateu sobre a aplicação de uma zona restrita de vôo, mas o único objeto voador abatido até agora tenha sido o solitário caça Mig-23 em poder dos revolucionários. A rede Al-Jazeera informou que o piloto não sobreviveu à ejeção, realizada à altura baixa demais. A aeronave foi derrubada sobre Benghazi, coincidentemente no dia dos raids da aviação francesa e em circunstâncias que não serão aclaradas tão cedo.

Além desse aviador rebelde, a TV estatal Líbia, duvidosa quanto boa parte da imprensa ocidental, noticiou cerca de 50 mortos na conta dos bombardeios ocidentais dos dias 19 e 20.  Como resultado, o primeiro esboço de oposição, por parte da China, Rússia e Liga Árabe, que declararam em termos similares que a intervenção foi longe demais.

Para a contra-insurgência liderada por Muammar Gaddafi, a intervenção estrangeira parece ter unificado de vez as regiões sob seu domínio. Não se constatam mais apenas esquadrões mercenários e alguns poucos grupos leais agitando a bandeira verde vigente. As imagens mostram também milhares de líbios entusiasmados pró-Gaddafi, num número até então inédito
Com o novo cenário, a batalha por Benghazi findou inconclusa. As tropas de Gaddafi se refugiaram nas áreas próximas. Os rebeldes fortificados na capital da insurgência comemoraram os bombardeios, mas não deixaram de reclamar que veio tarde demais. As derrotas dos últimos dias enfraqueceram-nos demasiado. No dia seguinte, noutra cidade ocupada pelos insurgentes, mais a oeste, Misurata, o exército governista acirrou o assédio com tanques e blindados.

Gaddafi perde e ganha com a intervenção.

Para a contra-insurgência liderada por Muammar Gaddafi, a intervenção estrangeira parece ter unificado de vez as regiões sob seu domínio. Não se constatam mais apenas esquadrões mercenários e alguns poucos grupos leais agitando a bandeira verde vigente. As imagens mostram também milhares de líbios entusiasmados pró-Gaddafi, num número até então inédito.

Esses defensores do ditador se propõem inclusive a atuar como escudo humano, junto a potenciais alvos. No quartel-general em Trípoli, por exemplo, o New York Times relata um cinturão humano com “centenas de simpatizantes, inclusive mulheres e crianças”. Isto indica que Gaddafi conta com respaldo popular além do previsto originalmente pelo ocidente, e certamente mais do que mercenários e o núcleo duro do regime.

Resta saber como o ataque estrangeiro polarizará a população. Aqueles refratários à idéia de um protetorado ocidental, aos moldes do Iraque pós-Saddam, tendem a alinhar-se à ditadura de Gaddafi. Esse efeito pode intensificar em função da destruição causada pelos bombardeios e das baixas civis (os eufêmicos “danos colaterais”). Se a participação de mercenários em suas fileiras vinha depondo contra o nacionalismo proclamado pelo clã Gaddafi, agora, com os rebeldes abertamente aliados à ordem imperial, o ditador tem tudo para se firmar como o guardião de uma Líbia livre diante da “dominação imperialista”.

Afinal, a rede Telesur não estava tão enganada quando alertava que os pés do colosso não eram tão de barro assim. De subestimado ditador chanchada, Gaddafi passou a ser visto como um estrategista respeitável que não deve mais ser subestimado. Hugo Chávez, o único chefe de estado a apoiar abertamente o ditador, brincou: “Que loucura?…. a loucura é imperial!”

Os revolucionários líbios, de fato, pediram a intervenção. Estavam sendo cabalmente derrotados depois que o ditador reorganizou suas forças. Mais por lei da sobrevivência que programa político, pois até então nenhum impulso revolucionário seguia nessa direção ocidentalizante. Caso Gaddafi tivesse reconquistado Benghazi e o restante do território, como acreditavam os analistas ele faria inevitavelmente, haveria uma caça às bruxas aos rebeldes e seus simpatizantes, “casa por casa” nas palavras dele. A revolução teria de reorganizar-se como guerrilha, em árdua jornada, porém autônoma.

Não se pode esquecer da al-Qaeda. Ausente no discurso e nas lutas da revolução árabe, que já atravessam 19 países da região, a intervenção ocidental pode pavimentar o caminho para sua penetração no país. O fundamentalismo islâmico da al-Qaeda há tempos faz tabelinha com o fundamentalismo cristão dos neocons, um se alimentando politicamente do outro. No Afeganistão, uma década de ocupação americana não foi capaz de debelar a rede de militantes radicais, que segue enraizada pelo país. Pode ser mais uma pasquinada, mas Gaddafi prometeu estender o tapete a qualquer grupo interessado em organizar atentados contra o ocidente.

Império enquadra a revolução.

A intervenção embaralhou as cartas da revolução árabe. Quebrou o seu encanto. Passou o momento romântico e febricitante, que na Praça Tahrir condensava seu devir revolucionário. Enganou-se quem avaliava que a atmosfera geopolítica dos anos 2000 e seu discurso guerra & democracia estava superada com a eleição de Obama e a falência do neoliberalismo.

Se, na Líbia, o império assumiu a missão de derrubar Gaddafi, não hesitou em sustentar o ditador egípcio Hosni Mubarak até onde pôde, e se engaja por uma “transição ordeira” que, na prática, significa neutralizar a revolução.

Simultaneamente, mantém o fluxo de apoio político, armas e recursos às monarquias tirânicas e aliadas na Arábia e no Bahrein, onde a revolução é recebida à bala e poucos têm falado em “desastre humanitário”. Neste último protetorado imperial, a Praça Pérola foi demolida, para não servir como símbolo tal qual Tahrir.

Enquanto isso, no miserável e semiagrário (e sem petróleo) Iêmen, onde 50 pessoas foram assassinadas nos protestos de rua da última semana, limita-se a declarações esparsas de condenação moral, sequer cogitando de ação concreta contra o ditador sanguinário.

Cinicamente, vestida de humanidade e altos princípios, a ordem imperial continua operando no capitalismo mais perverso, o que depende da guerra e da dominação direta. Os senhores da contrarrevolução não mais hesitarão em rugir seus canhões: o mais barulhento dos argumentos. Daqui por diante, a revolução é morro acima.

http://ponto.outraspalavras.net/2011/03/20/imperio-enquadra-revolucao/

segunda-feira, 21 de março de 2011

Apelo à inteligência

(Texto escrito em 2007, publicado no Observatório da Imprensa e no Overmundo - links no final)
 

Lemos, todos os dias, sobre a violência urbana e o crime organizado, notadamente nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. As matérias são densas e relatam os horrores e atrocidades cometidas por criminosos organizados. Os editoriais exaltados acusam o poder público de inoperância e há articulistas que fazem as duas coisas, além de conclamar os cidadãos para o apoio a medidas repressivas mais eficazes. Uma das propostas que ganha unanimidade entre todas as vozes é a do aprimoramento da inteligência policial. Para todos, faltam investimentos no aprimoramento do serviço de inteligência da polícia.

Há, porém, os que lembram das atrocidades a que é submetida a população pobre. Há também os que referem que o poder público realmente falha, mas por somente estar presente nas comunidades pobres apenas com sua força policial, não oferecendo educação, saúde ou perspectivas de melhoria das condições de vida. E há os que lembram que, assim, mais medidas repressivas só tendem a piorar o quadro. Não podemos esquecer os simplórios para os quais a solução é exterminar todos os bandidos – e, em 2004, tive informações de fonte confiável de que alguns militares chegaram a esboçar uma operação para o assassinato de um bom número de “lideranças do tráfico” – ou, na margem oposta, os que insistem em considerar pessoas que incendeiam pessoas como singelas “vítimas da sociedade”. Todos, com certeza, não se oporão ao argumento de que a segurança pública carece de um serviço de inteligência, nem muito menos o autor deste texto. Mas, há algumas ponderações a fazer.

Não adianta apontar o traficante de drogas das favelas e periferias, ou tais e quais milícias disto ou daquilo, como responsáveis ou culpados pela tragédia. Eles estão apenas seguindo os “bons exemplos” dados por quem “se deu bem” na vida
Uma guerra secular

As condições para a formação do chamado banditismo urbano e suas quadrilhas estão dadas e não há qualquer sinal de que sejam minoradas ou refeitas. Isso não vem de agora, ou de uma ou duas décadas atrás, conforme às vezes se tenta dizer. Temos que levar em consideração muito tempo de discriminação e de criação das feras que incendeiam ônibus com gente dentro. Os jornais falam em “guerra” e, com um pouco de pesquisa e um mínimo de bom senso, podemos entender que há uma guerra posta há pelo menos algumas centenas de anos. Guerra que se acirrou nos últimos cem anos. Não exatamente a guerra de que os jornais falam, que opõe bandidos e “cidadãos de bem”, os tais “bons” silenciosos de que tanto se fala. No máximo se fala de um estágio dela.

A guerra original, o conflito que serve hoje de pano de fundo para as atrocidades é exatamente a dos “cidadãos de bem” contra os pobres. A história do Rio de Janeiro, por exemplo, é ilustrativa e estudá-la pode ser muito útil para entender o porquê de tanto banditismo e tanto desprezo pela vida demonstrado pelos “terroristas” cariocas. A adesão ao crime por parte de uma parte dos moradores de favelas e periferias, tem lá sua lógica e só um parvo não percebe isso e exige mais repressão. Essas pessoas estão apenas mostrando que aprenderam bem uma determinada lição. Acima de tudo, não são vítimas inocentes.

No entanto, esse é apenas um dos vetores do problema. Não o esgota. Saber que os “cidadãos de bem” ajudaram a alimentar o ódio dos que hoje se tornaram bandidos é fundamental, mas não basta. Como alguns lembram, há pelo menos cem anos os pobres, principalmente os de pele escura, são tratados como animais, só recebem atenção do estado através dos cassetetes e das armas da polícia. Devem, para escapar das bordoadas e tiros, ficar quietos, não circular em “áreas nobres” e aceitar os magros vencimentos oferecidos por empresas e casas de família, além de muita humilhação. Uma boa forma de entender como os “bons silenciosos” tratam essa gente é ver como são as tais “dependências de empregada” dos apartamentos da zona sul carioca, como lembra Hélio Santos: um cubículo no qual mal se pode entrar e que dá vista para o tanque e a máquina de lavar. Essa gente deveria saber qual é o seu lugar. De alguma forma, uma das mensagens transmitidas pelos bandidos – e não ver isso é burrice ou má-fé – é de que esse lugar não mais lhes satisfaz. Mas, isso ainda não é o mais importante.

Falta inteligência, assim, para descobrir que a sociedade ocidental, cada vez mais dominada pelos interesses das grandes empresas, é uma sociedade que insufla o crime, premia o criminoso e incentiva todo e qualquer mortal que pretenda entrar no seu jogo a descartar qualquer consideração pelo semelhante, tudo em nome do ganho, da vitória, do lucro
Outro nome para “quadrilha”

Um bom caminho para pensar com radicalidade a questão é assistir ao filme “The Corporation”, assinado por Mark Achbar, Jennifer Abbott e Joel Bakan, de 2004, e inspirado no livro de Joel Bakan intitulado “The Corporation: the pathological pursuit of profit and power”, do mesmo ano. Trata-se de uma produção que se dedica a mostrar o óbvio: o que hoje se chama “corporação”, ou “grande empresa”, no português coloquial, é uma entidade que se assemelha demasiadamente ao que os “bons”, quando não estão silenciosos, chamam de “quadrilha”.

Entender isso é muito útil para desvendar o problema da violência urbana. Simplesmente porque se pode compreender que o que está acontecendo hoje é a vitória da lógica corporativa, que serviu de inspiração para transformar uma entidade criada para, especificamente, proteger detentos de outros detentos e da truculência de carcereiros, o famigerado Comando Vermelho, em uma lucrativa empresa criminosa. Basta ver, no filme, a utilíssima definição do categoria mórbida psiquiátrica intitulada Distúrbio de Comportamento, vulgo Psicopatia, para esclarecer as coisas e perceber que se enquadrar nessa definição não é apenas apanágio de traficantes ou bandidos diversos.

Em linhas gerais, o psicopata se caracteriza por: a) insensibilidade em relação aos sentimentos de outrem; b) incapacidade de manter relações duradouras; c) insensibilidade em relação à segurança de outras pessoas; d) hábito de mentir e atribuir a outros a responsabilidade por seus maus atos; e) incapacidade de experimentar culpa; f) inaptidão para se conformar a normas sociais e à legalidade. Pois o filme demonstra, de forma direta e simples, o que podemos perceber no “mundo real”: a corporação, a empresa, se enquadra, em suas práticas, em todas essas características. E, da mesma forma, os governos que agem conforme seus ditames.

A sociedade das corporações, a sociedade que cada vez mais segue o padrão de comportamento psicopático demonstrado pelas grandes empresas, não pode ser muito diferente do que é. Podemos, por exemplo, perguntar: qual a diferença entre quem dá um tiro ou incendeia um ônibus com gente dentro e quem envenena o ambiente ou organismos ou quem lesa populações inteiras obtendo favores de governos corruptos? É claro que há diferença. Quem leva o tiro ou é queimado vivo morre muito mais rápido. Da mesma forma, como lembrou Wright-Mills, a diferença entre o ladrão pobre e o ladrão rico é que aquele exerce seu ofício com violência e obtém ganhos parcos, mas imediatos, enquanto este faz tudo suavemente e a longo prazo, obtendo ganhos bem maiores. Há, assim, uma grande identidade entre o que os jornais chamam de quadrilhas e o que costumamos chamar de corporações, assim como há uma inequívoca semelhança entre o que os psiquiatras chamam de psicopatia e o que alguns chamam “mentalidade empresarial”.

A sociedade das corporações, a sociedade que cada vez mais segue o padrão de comportamento psicopático demonstrado pelas grandes empresas, não pode ser muito diferente do que é
Falta inteligência, assim, para descobrir que a sociedade ocidental, cada vez mais dominada pelos interesses das grandes empresas, é uma sociedade que insufla o crime, premia o criminoso e incentiva todo e qualquer mortal que pretenda entrar no seu jogo a descartar qualquer consideração pelo semelhante, tudo em nome do ganho, da vitória, do lucro. Não pode dar noutra coisa... E, convenhamos, a inteligência policial, como a conhecemos, não pode fazer muito nesse caso. A não ser que passe a voltar suas atenções para longe das favelas e periferias. Até quando se vai fingir não saber que o mercado financeiro é um dos maiores interessados no tráfico de drogas, pois esse “negócio” movimenta aproximadamente US$ 500bi/ano? Adivinhe onde circula boa parte dessa grana?

Apenas seguindo “bons exemplos”

Podemos dizer que não há muito como negar esses fatos. Não há como esquecer disso se a intenção for realmente entender a dita “violência urbana”. A dita grande imprensa, por sua suposta posição de poder destacado de interesses diretamente políticos e por seu suposto compromisso como serviço público, deveria ter um papel importante na função de decodificar a complexidade do quadro e permitir a formação de uma consciência cidadã. No entanto, essa posição e esse compromisso são, como dito, apenas supostos. A imprensa de maior circulação e, por conseguinte, de maior peso na formação da consciência, é formada e alimentada por grandes empresas. E, assim, não consegue ver, ou não quer ver, que não há saídas viáveis para o grave problema da criminalidade, a não ser que se refaça a lógica predominante em nossa sociedade: a lógica psicopática, a lógica do desrespeito ao outro, a lógica corporativa. E se essa tarefa já seria difícil com a participação da grande imprensa, imagine sem ela.

Infelizmente, tem nos restado a trágica posição de assistir às atrocidades dos bandidos e dos “líderes corporativos” sendo exibida como show nos telejornais. Para sair desse impasse, é fundamental deixar de lado os lugares comuns e aprofundar a discussão. Não adianta apontar o traficante de drogas das favelas e periferias, ou tais e quais milícias disto ou daquilo, como responsáveis ou culpados pela tragédia. Eles estão apenas seguindo os “bons exemplos” dados por quem “se deu bem” na vida. Mesmo que para “se dar bem” seja necessário lesar seja lá quem quer que seja. Essa é a regra do jogo, o jogo proposto pela mentalidade empresarial e aceito por quase todos nesta sociedade, incluindo os tais “cidadãos de bem” a quem a imprensa exorta à indignação. Falta inteligência, principalmente para descobrir aonde dirigir a indignação.

Uma polícia inteligente, nos mostra gente interada no assunto como o francês Dominique Monjardet, Lawrence Sherman, do Crime Control Institute dos Estados Unidos e o nosso conterrâneo Luiz Eduardo Soares, seria aquela que caminharia na direção do núcleo da organização criminosa. Utilizando uma metáfora médica, teria como foco atacar ostensivamente o núcleo canceroso do chamado crime organizado, que descobria os líderes de modo a ter provas consistentes para incriminá-los. Cortado o mal pela raiz, as metástases perderiam força e a atividade criminosa definharia. Que tal levar isso a sério e enviar a Força de Segurança Nacional para endereços mais nobres do que os encontráveis em qualquer favela ou periferia? Fica, aqui, um apelo à inteligência.

http://www.overmundo.com.br/overblog/apelo-a-inteligencia

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=417JDB014

sexta-feira, 18 de março de 2011

McDonald´s: A propaganda que encobre a exploração

Para fugir de uma multa milionária por não oferecer condições básicas de trabalho a seus funcionários, McDonald's firma acordo com o Ministério Público para financiar propaganda contra o trabalho infantil

15/03/2011

Michelle Amaral, da Reportagem - Brasil de Fato
 

“Uma vez eu estava com uma bandeja cheia de lanches prontos para serem entregues e escorreguei. Quando ia caindo no chão, meu coordenador viu, segurou a bandeja, me deixou cair e disse: 'primeiro o rendimento, depois o funcionário'”, conta Kelly, que trabalhou na rede de restaurantes fast food McDonald´s por cinco meses.

“Lá você não pode ficar parado, se sentar leva bronca”, relata Lúcio, de 16 anos, que há 4 meses trabalha em uma das lojas da rede na cidade de São Paulo. “Você não tem tempo nem para beber água direito”, completa José, de 17 anos. “Uma vez eu queimei a mão, falei para a fiscal e ela disse para eu continuar trabalhando”, lembra o adolescente. Maria, de 16 anos, ainda afirma que, apesar da intensa jornada de trabalho nos restaurantes, recebe apenas R$ 2,38 por hora trabalhada.

Os relatos acima retratam o dia-a-dia dos funcionários do McDonald´s. Assédio moral, falta de comunicação de acidentes de trabalho, ausência de condições mínimas de conforto para os trabalhadores, extensão da jornada de trabalho além do permitido por lei e fornecimento de alimentação inadequada são algumas das irregularidades apontadas por trabalhadores da maior rede de fast food do mundo.

Somente no Brasil, o McDonald´s tem mais de 600 lojas e emprega 34 mil funcionários, em sua maioria jovens de 16 a 24 anos.

Assédio moral, falta de comunicação de acidentes de trabalho, ausência de condições mínimas de conforto para os trabalhadores, extensão da jornada de trabalho além do permitido por lei e fornecimento de alimentação inadequada são algumas das irregularidades apontadas por trabalhadores da maior rede de fast food do mundo
“Quando se é adolescente, você vê as coisas acontecerem, mas não vê como assédio moral, nem nada do tipo. Mas humilhações são constantes. Já fui puxada pela orelha por uma gerente por demorar em um atendimento”, completa Kelly.

As relações de trabalho impostas pelo McDonald´s são objetos de estudo de muitos pesquisadores. Do mesmo modo, pelas irregularidades recorrentes, a rede de fast food é alvo de diversas denúncias na Justiça do Trabalho.

Em São Paulo, o Sindicato dos Trabalhadores em Hotéis e Restaurantes de São Paulo (Sinthoresp), ao longo dos anos, tem denunciado as más condições a que são submetidos os funcionários do McDonald´s.

Recentemente, resultou em uma punição ao McDonald´s uma denúncia feita há quinze anos pelo sindicato ao Ministério Público do Trabalho (MPT) da 2ª Região, em São Paulo. Trata-se de um acordo que, além de exigir o cumprimento de adequações trabalhistas, estabelece o pagamento de uma multa de R$ 13,2 milhões.

Desse valor, a rede de fast food deve destinar R$ 11,7 milhões ao financiamento de publicidade contra o trabalho infantil e à divulgação dos direitos da criança e do adolescente durante os próximos nove anos. Além disso, a rede deve doar R$ 1,5 milhão para o Instituto de Medicina Física e Reabilitação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). O compromisso foi firmado em outubro de 2010 e passou a valer em janeiro deste ano.

As investigações realizadas pelo MPT a partir da denúncia do Sinthoresp confirmaram as seguintes irregularidades: não emissão dos Comunicados de Acidente de Trabalho (CAT); falta de efetividade na Comissão Interna de Prevenção de Acidentes; licenças sanitárias e de funcionamento vencidas ou sem prazo de validade, prorrogação da jornada de trabalho além das duas horas extras diárias permitidas por lei, ausência do período mínimo de 11 horas de descanso entre duas jornadas e o cumprimento de toda a jornada de trabalho em pé, sem um local para repouso.

O MPT também apontou irregularidades na alimentação fornecida aos trabalhadores: apesar de oferecer um cardápio com variadas opções, o laudo da prefeitura de São Paulo reprovou as refeições baseadas exclusivamente em produtos da própria empresa por não atender às necessidades nutricionais diárias. Em relação à alimentação, o McDonald´s chegou a ser condenado, em outubro de 2010, pela Justiça do Rio Grande do Sul a indenizar em R$ 30 mil um ex-gerente que, após trabalhar 12 anos e se alimentar diariamente com os lanches fornecidos pela rede de fast food, engordou 30 quilos.

 
Processo

Segundo o advogado do Sinthoresp, Rodrigo Rodrigues, a denúncia feita em 1995 referia-se “aos maus tratos que sofriam os funcionários do McDonald's devido às várias reclamações deles aqui no nosso sindicato”.

O advogado do Sinthoresp relata que o MPT chegou a realizar uma consulta pública com todos os envolvidos no caso. Após isso, ajuizou uma ação civil pública em março de 2007. Em 2008, houve a assinatura de um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) que estipulava prazos para o cumprimento das adequações.

Ao comprovar que as exigências não estavam sendo cumpridas, o MPT ameaçou aplicar uma multa milionária à rede. Para fugir da punição, o McDonald's firmou esse novo acordo em outubro de 2010.

De acordo com a procuradora do trabalho Adélia Augusto Domingues, o MPT está em processo de tratativas com a rede de fast food para a implementação de todas as adequações necessárias. “O processo terá o acompanhamento do Ministério Público do Trabalho em todas as etapas, até que as adequações sejam completamente realizadas”, afirma Domingues.

A procuradora acredita que o acordo firmado com a rede beneficiará os funcionários. “Esses ajustes são positivos e importantíssimos para os empregados da empresa, que na maioria são adolescentes que requerem, sem dúvida, cuidados especiais, em razão de encontrarem-se na fase do processo de desenvolvimento físico, mental e social”, defende.

A reportagem procurou o McDonald's que, através de sua assessoria de imprensa, encaminhou um comunicado no qual afirma que os termos do acordo se alinham com a cultura da empresa de respeitar as leis do país e contribuir ativamente nas comunidades onde atua. “Acreditamos também que campanhas educativas e a doação do equipamento médico, como consta do acordo, poderão beneficiar a sociedade como um todo”, diz o informe.

 
A rede

De acordo com dados do site do McDonald's, no ano de 2009 a rede estava presente em 118 países e possuía 31 mil lojas onde trabalhavam 1,6 milhão de funcionários. A sede mundial da McDonald's Corporation fica nos Estados Unidos e, nos demais países do mundo, a rede opera por meio de franquias.

O McDonald's chegou ao Brasil em 1979 e, desde 2007, a Arcos Dourados é a franqueadora do McDonald's no país e na América Latina. A Arcos Dourados tem como sócios os fundos Gávea Investimentos, do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, o DLJ South America Partners, fundo ligado ao Credit Suisse, e o Capital International, do The Capital Group Companies. O lucro da rede de fast foods no Brasil em 2009, conforme informações do site, foi de R$ 3,45 bilhões. Já em 2010, em todo o mundo, o McDonald´s obteve lucro de 4,95 bilhões de dólares.

*Os nomes dos funcionários citados na matéria são fictícios.

 
PARA ENTENDER

Franquia é um sistema comercial em que o detentor de uma marca cede a uma outra empresa o direito de uso de sua marca ou patente, infraestrutura e direito de distribuição de produtos e serviços.

 

Outros processos contra o McDonald's


Discriminação em processo seletivo

Em janeiro de 2010, o Ministério Público do Trabalho da Paraíba iniciou uma investigação contra a rede de fast food por discriminação em um processo seletivo. O McDonald´s publicou um anúncio de vagas de emprego em que determinava que os candidatos deveriam ter entre 18 e 22 anos. De acordo com o artigo 7º da Constituição Federal de 1988, é proibido utilizar como critério de admissão sexo, idade, cor ou estado civil. Esses critérios são considerados discriminatórios, pois ferem o princípio de igualdade nas relações de trabalho.


Não garantia de alimentação saudável a seus funcionários

O McDonald´s foi condenado, em outubro de 2010, pela Justiça do Rio Grande do Sul a indenizar em R$ 30 mil um ex-gerente que, após trabalhar 12 anos e se alimentar diariamente com os lanches fornecidos pela rede de fast food, engordou 30kg. Já em 2009, em Riberão Preto (SP), o 15º Tribunal Regional do Trabalho condenou o McDonald's a pagar ao ex-funcionário Rafael Luiz uma indenização de R$ 2 mil, correspondentes ao valor de cestas básicas durante cerca de dois anos – período em que ele trabalhou na rede de fast food. O juiz Ricardo de Plato, que emitiu a sentença, afirmou que é de “conhecimento público e notório” que a ingestão diária dos lanches da rede, “ em substituição a uma das principais refeições do dia, por um longo período de tempo, é prejudicial” à saúde.


Falta de higiene e cuidados no preparo dos alimentos

Em 2006, no Texas (EUA), uma família abriu um processo contra uma das lojas franqueadas da rede de restaurantes fast food por ter encontrado um rato morto em uma salada comprada no local.

http://www.brasildefato.com.br/node/5872

Fala Xenófanes

Segundo Xenófanes, que viveu há mais de 2500 anos, se os bois e cavalos tivessem mãos e, assim, pudessem pintar ou esculpir, certamente pintariam figuras de deuses semelhantes a bois e cavalos, respectivamente, é claro. E disse mais: acusou Homero e Hesíodo de atribuírem aos deuses, aquilo que entre os homens era vergonhoso: o roubo, o adultério e as fraudes recíprocas.

Foi um satírico da antiguidade, nasceu em Cólofon, mas saiu de lá aos 25 anos e começou a perambular. Como se pode notar, era absolutamente avesso à imagem antropomórfica dos deuses e cria num deus único que era puro pensamento e que agia apenas por essa via. Descrição, aliás, algo semelhante à que Swedenborg traça em relação à vida celestial, no seu clássico e assombroso “O céu e o inferno”.

Em um de seus textos, criticava o enaltecimento aos atletas vencedores de provas nas olimpíadas. Segundo ele, o saber era mais importante e o homem sábio valia muito mais do que o que extraía do físico a sua valoração. Imagine se vivesse hoje, quando um reles atleta consegue muito maior riqueza do que um acadêmico. E se conhecesse, então, a cultura da mídia, com suas celebridades.

É preciso rever os antigos. Eles têm muito a nos dizer.

sábado, 12 de março de 2011

Sobre a criação de filhos

Criar filhos é preparar a semente do amanhã, dizem alguns por aí, é plantar para o futuro. Mas, para que a empreitada tenha sucesso, é fundamental saber que esse futuro, que já foi o da Nação, agora é do Mercado. Isso significa dizer que antes os pais deveriam preparar cidadãos ou até mesmo soldados, em certos casos. Agora, deve formar empresários e bons consumidores. Em outras palavras, é preciso produzir indivíduos sempre de olho na carteira dos outros e suficientemente simplórios para acreditar que a felicidade pode ser comprada num shopping.

Cada pai e mãe cria seu filho como imagina ser uma pessoa perfeita, há quem garanta. Isso quando o pai e a mãe moram juntos. Há casos em que somente um dos genitores é dedicado à criação dessa perfeição, enquanto o outro assume o papel de deseducá-los, de quinze em quinze dias. Geralmente as crianças educadas e deseducadas dessa maneira tornam-se adultos perfeitamente malcriados.

Há famílias grandes, nas quais os filhos são criados com inegável espírito de grupo. As crianças criadas assim geralmente falam com sotaque italiano e gesticulam excessivamente. Quando obtêm sucesso na vida, tornam-se jogadores de futebol destinados a perder para o Brasil nas finais de Copa do Mundo ou empresários do ramo de massas. Há exceções significativas, principalmente quando as famílias se unem e começam a negociar no mercado negro. Aí, forma-se uma nova grande família cujos filhos são personagens dos filmes policiais americanos.

Os casais que têm filhos únicos costumam criar tiranos, é costume afirmar. Isso é uma mentira deslavada e um preconceito ignominioso. O simples fato de Hitler não ter sido filho único já deveria bastar para desmentir esse absurdo. Só porque as crianças criadas sem irmãos se tornam pessoas egocêntricas, mandonas e narcisistas, além de intratáveis e cheias de vontades estranhas que insistem em impor aos que as circundam, não significa que sejam tiranas. Ou então todos os habitantes das modernas sociedades ocidentais seriam filhos únicos.

As surras estão legalmente banidas do receituário moderno para criar filhos. Uma simples palmada na mão pode ser punida com uma visita à delegacia do menor. Se for filmada, vai virar matéria de telejornal por uma semana. Se for uma babá a espancadora, pode haver linchamento. Só a polícia pode baixar o sarrafo em qualquer um, mais ninguém. É que a porrada policial é reconhecidamente educativa para todos os filhos e, às vezes, mesmo para os pais. No entanto, mesmo a polícia precisa segurar a mão em alguns casos. Se resolver educar o rebento de pais ilustres, pode se complicar. Nesses casos, segundo a lógica, o corretivo legal deseduca.

Os filhos de pais ilustres, aliás, são sempre muito bem educados. Tanto é assim que resolvem assumir para si a tarefa nobre de transmitir essa educação a filhos de famílias não tão ilustres, que não tiveram tão boa formação. Geralmente usam métodos enérgicos e, se preciso, em nome da boa etiqueta e de elevados princípios, chegam, didaticamente, a pôr fogo em mal-educados que insistem, por pura falta de educação, em dormir na rua.


O importante a saber quando se quer criar filhos é que, na prática, não há teoria que dê conta. Trata-se, acima de tudo, de uma tarefa que exige muita sensibilidade e noções de artes marciais, principalmente quando o filho quer comprar crack. Nesses casos, é educativo ter sempre por perto uma arma carregada. Aliás, mais que educativo, é condição sine qua non para que a educação tenha continuidade com a sobrevivência do educador.

O fato é que criar filhos não é fácil. Se fosse, não haveria tantos especialistas para ensinar os pais a fazer isso. Aliás, o problema dos especialistas é que costumam tornar a tarefa mais difícil, principalmente quando contrariam os pais.

O pior de tudo é quando os pais são especialistas. Soube que uma amiga de um amigo, PHD em alguma coisa, resolveu aplicar seus conhecimentos teórico-técnicos de ponta para educar seu querido filho. O resultado foi que ele, para pôr em prática a curiosidade científica herdada, jogou o cãozinho de estimação pela janela para descobrir o que acontece quando se faz isso. Se sua digníssima mãe o tivesse criado de forma menos especializada, ele certamente saberia o que aconteceria antes de pular depois do cachorrinho.

Se você está preparado para a missão de criar um filho ou mais, pode pôr em prática tudo o que aprendeu com seus pais. Isso não falha. Você pode frequentar anos de análise, fazer curso de preparação de pais ou seguir os conselhos do pediatra, não adianta. Jamais aplique os conhecimentos que você obteve na faculdade. O que dá certo mesmo é o que você aprendeu quando foi educado no seio de sua família. Pelo menos, você terá a quem culpar se tudo der errado.

Tudo indica que, realmente, criar filhos não é moleza. Mas, pense bem, comparado ao esforço que se faz para gerá-los, até parece fácil. Ao contrário do que se diz, pôr crianças no mundo é extremamente difícil, bem mais do que educá-los. A operação de produção de filhos é complexa e envolve etapas trabalhosas, como o flerte, a conquista, o namoro, às vezes o noivado e, em muitos casos, o convívio.

O flerte exige boa aparência, que demanda horas de cabeleireiro, gastos em vestuário e a capacidade de saber puxar uma boa conversa. A conquista costuma requerer elevados gastos com alcoolização e com o motel, além de muita paciência e obstinação. Para o namoro, é preciso lidar com os amigos e a família do(a) parceiro(a) e é nesse momento que você começa a descobrir o que significa a palavra “casamento”, que sempre vem acompanhado da palavra “sogra”.

O noivado é dispensável, mas quando acontece gera expectativas que muitas vezes desmoronam já na noite de núpcias. O convívio inclui visitas à tal sogra, agora já bem conhecida e definida, incompatibilidade de gênios e, não raro, termina com visitas ao juiz e divisão de bens. Isso quando não se recebe visitas inoportunas da polícia, nos casos em que o quebra-quebra conjugal atinge níveis insuportáveis de poluição sonora e palavrório de baixo calão.

Em resumo, o casamento costuma ser empolgante nas cinco primeiras noites, enfadonho nos meses seguintes e insuportável no tempo restante. Aí, graças aos céus, vêm os filhos, para ajudar a passar o tempo e proporcionar divertidas visitas ao Zoológico nos finais de semana. Depois de tanto esforço e sofrimento, educá-los pode até ser uma reconfortante distração. No mínimo, você pode conseguir um bom gozo sádico ao instruí-los a passar por tudo o que você passou. Boa sorte.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Verde

Voo solitário

Ocaso

Coisas do blog do Miro - sobre o caso não muito secreto de Serra e Marina

quarta-feira, 9 de março de 2011
WikiLeaks: a promiscuidade do PIG

Reproduzo artigo de Conceição Oliveira, publicado no blog Maria Flô:

Os leitores que se derem ao trabalho de ler este telegrama identificado com o número 24 [abaixo], possivelmente chegarão às seguintes conclusões:

1) Serra e sua vaidade sem limites fizeram o maior estrago ao seu partido. Aécio também.

2) O PSDB é um partido de surdos. É impressionante como seus políticos permitiram que o ‘desejo’ falasse mais alto que a política nua e crua. E mesmo com Aécio dizendo com todas as letras que não aceitaria ser vice de Serra, eles persistiram na idéia.

3) Chamar Merval e Mainardi de jornalistas é afronta a qualquer jornalista. O nível de submissão desses dois não tem exemplo até o momento, a não ser que encontremos um cablegate que narre reunião entre tio Reio ou Noblablá com Serra e sua trupe, ai a gente mede o nível de fidelidade canina desses ‘colonistas’ da Veja e de O Globo.

4) A promiscuidade existente entre estes ‘colonistas’ e o PSDB é gritante. Mainardi escrevia suas colunas ditadas por Serra!

5) Como no telegrama anterior a subserviência dos ‘colonistas’ da mídia velha à política dos EUA também não tem limites. Pergunto: qual o interesse de Mainardi e Merval encontrarem-se com representantes do governo dos EUA? Volto a insistir: Obama, assine Caras, você economizará um bom dindim e ficará melhor informado.

6) A quem Marina Silva serviu nesta eleição. As análises da militância petista estavam corretas.

*****

Trechos do documento vazado pelo WikiLeaks

24) CABLEGATE DE HEARNE
246840/ 2/2/2010 19:13/ 10RIODEJANEIRO32/ Consulate Rio De Janeiro/ NCLASSIFIED//FOR OFFICIAL USE ONLY
Excertos dos itens “não classificados/para uso exclusivamente oficial” do telegrama 10RIODEJANEIRO32.

A íntegra do telegrama não está disponível.

ASSUNTO: Ideias sobre possíveis candidatos a vice-presidente para José Serra

RESUMO. 1. (SBU) Observadores políticos e atores do PSDB no país entendem que há possibilidade de candidato do PSDB à presidência (na dianteira, nas pesquisas de intenção de voto) convidar a candidata Marina Silva, do Partido Verde, para sua chapa, como vice-presidente. Embora pareça pouco provável, nesse ponto, que Marina Silva aceite esse papel, muitos creem que, pelo menos, ela apoiará Serra num eventual segundo turno contra a candidata do PT Dilma Rousseff. Apesar de a hipótese Marina não estar descartada, analistas do PSDB veem, como cenário mais provável, que o governador de Minas Gerais, Aecio Neves (PSDB) venha a completar a chapa com Serra, como candidato à vice-presidência, apesar de Neves já ter declarado publicamente que concorrerá ao Senado. Mas, com a vantagem de Serra encolhendo nas pesquisas recentes, ressurge a especulação de que Serra possa renunciar a favor de Neves como candidato do PSDB. Até aqui, Serra é o candidato mais provável, e muitos dos nossos interlocutores declararam que uma chapa Serra-Neves seria o melhor caminho para Serra enfrentar com chances de sucesso os esforços do presidente para traduzir sua popularidade pessoal em votos para Dilma Rousseff, na sucessão. FIM DO RESUMO.

NO RIO, ANALISTAS DISCUTEM ALTERNATIVAS PARA A VICE-PRESIDÊNCIA

2. (SBU) Em almoço privado dia 12 de janeiro, o importante colunista político da revista Veja Diogo Mainardi disse ao cônsul dos EUA no Rio de Janeiro que a recente coluna [de Mainardi] na qual propõe o nome de Marina Silva como vice-presidente na chapa de Serra foi baseada em conversa entre Serra e Mainardi, na qual Serra dissera que Marina Silva seria a “companheira de chapa de seus sonhos”.

Naquela conversa com Mainardi, Serra expôs as mesmas vantagens que, depois, Mainardi listou em sua coluna: a história de vida de Marina e as impecáveis credenciais de militante da esquerda, que contrabalançariam a atração pessoal que Lula exerce sobre os pobres no Brasil, e poriam Dilma Rouseff (PT) em desvanagem na esquerda, ao mesmo tempo em que ajudariam Serra a superar o peso da associação com o governo de Fernando Henrique Cardoso que Dilma espera usar como ponto de lança de ataque em sua campanha. Apesar disso, Mainardi não acredita que Marina associe-se a Serra, porque está interessada em fixar sua própria credibilidade, concorrendo, ela mesma, à presidência. Mas Mainardi disse que crê – como também Serra – que Marina Silva pode bem vir a apoiar Serra num eventual segundo turno contra Dilma.

3. (SBU) Em plano mais realista, Mainardi disse ao cônsul que o governador de Minas Gerais Aecio Neves dissera a Mainardi, no início desse mês, que Neves permanecia “completamente aberto” à possibilidade de concorrer como candidato a vice, na chapa de José Serra. (Nota: Dia 17/12/2009, Neves declarou oficialmente encerrada a discussão sobre sua pré-candidatura à presidência e mostrou interessem em concorrer como vice-presidente [referido em outro telegrama. FIM DA NOTA).

Apesar das declarações públicas de que concorrerá ao Senado, Mainardi disse que Neves planeja esperar um cenário no qual o PSDB, talvez à altura do mês de março, convide Neves para compor a chapa, com vistas a aumentar a chance do partido contra Dilma. As ambições pessoais de Neves e seu desejo, intimamente ligado àquelas ambições, de não atrapalhar o PSDB nas próximas eleições, levariam Neves a compor a chapa, ao lado de Serra – na opinião de Mainardi.

É a mesma opinião de Merval Pereira, colunista do jornal O Globo, o maior do Rio de Janeiro, que se reuniu com o Cônsul dia 21/1. Pereira disse ao cônsul que tivera uma conversa com Neves na véspera, na qual Neves dissera estar “firmemente comprometido” a ajudar Serra fosse como fosse, inclusive como vice-presidente, na mesma chapa.

Na opinião de Merval Pereira, uma chapa Serra-Neves venceria. Pereira disse também acreditar que não só Neves aceitará a vice-presidente de Serra, mas, também, que Marina Silva também apoiaria Serra num eventual segundo turno (...).

http://altamiroborges.blogspot.com/2011/03/wikileaks-promiscuidade-do-pig.html?spref=tw


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quarta-feira, 9 de março de 2011
WikiLeaks: Marina era a aposta de Serra
Reproduzo artigo de Miguel do Rosário, publicado no blog Gonzum:

Mensagens do consulado do Rio de Janeiro vazadas pelo Wikileaks revelam que Serra apostava em Marina Silva, do PV, como seu grande trunfo para vencer Dilma Rousseff nas eleições de outubro de 2010. O cônsul americano informa ter mantido produtivo bate-papo com o colunista da Veja, Diogo Mainardi, que lhe contou acerca de uma conversa dele com o então governador de São Paulo, José Serra.

Diz o cônsul, logo no sumário de nota vazada, de fevereiro de 2010: “Observadores políticos e representantes partidários argumentam que há possibilidade do provável candidato do PSDB, José Serra, pedir à candidata do Partido Verde, Marina Silva, para ser a sua vice. Enquanto parece improvável que Marina Silva aceite tal papel, a maioria acredita que ela iria, no mínimo, apoiar José Serra no pleito.”

As mensagens da embaixada americana revelam que os representantes diplomáticos dos Estados Unidos monitoravam muito atentamente o desenrolar dos acontecimentos políticos e partidários no Brasil, e seus interlocutores são representantes do tucanato e colunistas da Veja e do Globo.

A nota em questão relata um almoço do cônsul com o “proeminente colunista político da Veja, Diogo Mainardi [que] contou-lhe que sua recente coluna em que propunha aliança entre Serra e Marina nas eleições havia sido fruto de uma conversa entre Mainardi e Serra, na qual o tucano havia dito que ‘Marina era seu vice dos sonhos’. Serra expressou, na conversa com Mainardi, os mesmos argumentos que este usou em seu artigo, que a biografia de Marina Silva e suas credenciais esquerdistas ajudariam a reduzir o impacto do carisma de Lula sobre os mais pobres e deixar Dilma em desvantagem junto ao eleitorado de esquerda, ao mesmo tempo em que minimizaria a associação de Serra ao governo de Fernando Henrique, que Lula/Dilma esperavam usar na campanha.”

Passada as eleições, vemos que, de fato, Marina ajudou Serra, embora não da maneira completa que ele esperava, mas simplesmente dividindo o eleitorado de Dilma Rousseff. Animal político astuto que é, o tucano sabia que a verde era talvez a única maneira de roubar votos do eleitorado lulista/dilmista. Quantas articulações e promessas e ofertas não devem ter sido feitas para tentar seduzir Marina?

Mainardi e Serra, relata o cônsul, acreditavam que Marina fosse apoiar o PSDB.

O colunista não achava que Marina aceitasse o papel de vice, mas que daria apoio ao tucano no segundo turno. Mainardi, que como sempre não acertou uma, diz ainda que, uma hipótese mais realista era Aécio Neves aceitar a vaga de vice de José Serra.

Outro interlocutor do cônsul é o colunista do Globo, Merval Pereira, com quem ele manteve uma conversa no dia 21 de janeiro. Merval diz ao cônsul que conversou com Aécio Neves e que o mineiro afirmou estar “disposto a tudo” para ajudar Serra, inclusive ser vice. Eh cônsul bem articulado, héin? Eh turminha unida! Merval Pereira, Mainardi, Serra, Aécio e diplomatas norte-americanos, lutando juntos por um Brasil mais justo!

Merval Pereira, agora um Imortal da filosofia, disse ao cônsul que “não só acreditava que Aécio Neves toparia ser vice de Serra, como Marina Silva também o apoiaria na disputa”. Ô maravilha de cenário!

Os americanos, no entanto, não são tão bobos quanto Merval. Os diplomatas consultaram outras fontes, não tão otimistas (pro lado do Serra) quanto os colunistas da grande mídia. Falaram com Rodrigo Maia, por exemplo, que naturalmente não achava nada maravilhoso uma chapa puro-sangue do PSDB, nem apreciava tanto uma aliança triunfal com Marina Silva. O próprio cônsul faz observações semelhantes.

O cônsul conversa ainda com os tucanos Otávio Leite (RJ), Antonio Carlos Mendes (SP), Clovis Carvalho, e Marcelo Itagiba. Troca também umas ideias com o senador Agripino Maia. Ao cabo, vê-se que o serviço diplomático americano obtém um conjunto de informações bastante razoável, embora se restrinja a dialogar com as forças de oposição.

http://altamiroborges.blogspot.com/2011/03/wikileaks-marina-era-o-trunfo-de-serra.html?spref=tw