domingo, 6 de fevereiro de 2011

Introdução à Filosofia

A Escola de Atenas, de Rafael
O professor Manuel García Morente escreveu um interessante livro de introdução à Filosofia. Confesso que, no início de minha vida acadêmica, foi uma referência e li várias vezes esse livro, sempre recorrendo a partes que me interessavam em determinado momento. Agora, retomo-o e apresento aqui um breve resumo dos primeiros passos do texto de Morente, versando sobre uma definição geral e uma localização histórica da Filosofia Ocidental.

Filosofia, como sabemos, significa, etimologicamente, “amor à sabedoria”, logo filósofo é todo aquele que ama o conhecimento e se dedica a estudar para apreendê-lo e também para refletir sobre as formas de apreendê-lo. A identificação da filosofia com esse amor acabou por resultar que o próprio significado da palavra passa a ser identificado com a própria sabedoria.

Uma questão inicial a ser posta é a que dispõe sobre o conhecimento ser algo aprendido naturalmente ou pelo empenho. É claro que a filosofia depende da procura do conhecimento, pois não se pode classificar o filósofo como alguém que simplesmente recebe inatamente o saber. Se não o procura, não o tem. O conhecimento inato, por exemplo, Platão chamava de “doxa”, isto é, a “opinião” (paradoxo é a opinião que se afasta da opinião corrente, segundo Morente), ao qual opunha o saber filosófico.

A filosofia dita antiga é aquela que herdamos das cidades gregas, notadamente Atenas, Mileto e Eléia. Mais adiante, pretendo expor as noções dos mais importantes filósofos gregos, incluindo os chamado pré-socráticos, mas, por hora, pretendo tratar de temas gerais.

A filosofia grega começou em Mileto, com Tales, mas tanto ele como Heráclito, Demócrito e outros, se ocupavam em descrições físicas, procurando definir a matéria fundamental que formava as coisas. Sócrates, que nada deixou escrito para a posteridade, e Platão, seu discípulo, são considerados, junto com Aristóteles, os pioneiros do pensamento filosófico pelo motivo de que formularam um método de conhecimento filosófico.

Se a sabedoria necessita ser procurada, é necessário que se estabeleça um método para essa busca. Sócrates falava em maiêutica, ou seja descobrir ideias, parir ideias, uma técnica de prospecção filosófica que consistia em elaborar perguntas para que o sujeito pudesse ir descobrindo as ideias verdadeiras.

Platão elaborou o método dialético, que descende da maiêutica socrática e trabalha com o mesmo princípio. Parte-se de uma noção para negá-la e depurá-la até chegar à ideia pura e verdadeira, a sabedoria autêntica. Trata-se de uma discussão ou autodiscussão, um diálogo no qual se supõe que uma coisa é de tal modo e se discute até que se extraia a sua verdade. Platão trabalhava com a divisão entre mundo das ideias e mundo das coisas, sendo que este era composto de imagens corrompidas daquele. Ao resultado final do método dialético, Platão chama de episteme, algo próximo do que conhecemos historicamente como “ciência”.

Aristóteles segue o caminho de Platão, mas diverge dele em um princípio fundamental. Ele não trabalhava com a noção de ideias puras e compreendia a filosofia como o conjunto de conhecimentos humanos. Ele objetiva, assim, formular um conhecimento humano e não entende que esse conhecimento esteja para além do mundo em que vivemos. Ele está aqui e depende de nossa capacidade de desvendamento para ser formulado.

Aristóteles divide basicamente a filosofia em quatro temas:

1.    a lógica;

2.    a física;

3.    a metafísica;

4.    a ética.

A lógica tratava dos meios de adquirir o conhecimento, segundo Morente: “os métodos do pensamento humano para chegar a conhecer ou as diversas maneiras de que se vale para alcançar conhecimento do ser das coisas”.

A física designava o saber sobre todas as coisas do mundo, incluindo a alma humana. Assim, a psicologia era parte da física.

A metafísica tinha como objeto o ser enquanto ser. A investigação levava em conta o sentido da existência de determinada coisa “em si”.

A ética estudava os conhecimentos sobre as atividades humanas, aquilo que escapa à física, pois é obra humana. A arte e a política, por exemplo, eram objetos da ética, subdivisões desta.


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Sobre Aristóteles e Platão, é interessante ler o texto do professor Sandro Zanon, abaixo. A pintura a que ele se refere é a que ilustra o texto. Aqui, ao lado, Platão e Aristóteles, num detalhe da pintura. Para acessar o blog de Zanon, clique aqui.

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Aristóteles x Platão

A Escola de Atenas (Scuola di Atenas no original) é uma das mais famosas pinturas do renascentista italiano Rafael (Raffaello Sanzio 1483-1520) e representa a Academia de Platão. Foi pintada entre 1509 e 1510 na Stanza della Segnatura sob encomenda do Vaticano. A obra é um afresco em que aparecem ao centro Platão e Aristóteles. Platão segura o Timeu e aponta para o alto, para o etéreo, o abstrato, sendo assim identificado com o ideal, o mundo inteligível, alcançado apenas com o intelecto. Aristóteles, seu jovem discípulo (era 44 anos mais novo que o mestre), segura a Ética e tem a mão na horizontal, representando o terrestre, o mundo sensível.

Para Marcos Bagno, com o gesto é como se Aristóteles dissesse: "Baixa a bola, Mestre, vamos cuidar primeiro do que está acontecendo aqui e agora!" (Bagno, Gramática: passado, presente e futuro. Curitiba:Aymará, 2009. p. 77).

A imagem tem sido muitas vezes vista como uma perfeita encarnação do espírito da Alta Renascença. Em A Escola de Atenas, Rafael pintou os maiores estudiosos antigos como se fossem amigos que discutiam e desenvolviam as formas de pensar e de refletir a filosofia em si.

Aristóteles foi um discípulo muito querido de Platão. Dizem que quando Aristóteles não comparecia a alguma aula, Platão costumava dizer: "A sabedoria está ausente".

Mas Aristóteles era um discípulo rebelde, no bom sentido da palavra. Dizem as más línguas que Aristóteles teria afirmado: "Sou amigo de Platão, porém sou mais amigo da verdade". Se ele disse realmente essas palavras não temos certeza, mas o fato é que seu pensamento filosófico se contrapôs abertamente, em aspectos fundamentais, ao de Platão.

Esses dois grandes sábios podem ser considerados os fundadores de uma dicotomia de perspectivas filosóficas que norteou todo o futuro do pensamento e da ciência ocidental, até os dias de hoje.

4 comentários:

  1. vejo em sites e blogs a satisfação dos internautas em serem os primeiros a postarem um comentário, seja em qual tipo de informação for. triste fico em ser o primeiro a postar neste ótimo artigo. denota-se o interesse das pessoas em certos assuntos cumulado com o acesso a tais conteúdos no Brasil. o povo consome o que é ofertado, parabéns por servir tal iguaria cultural.

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  2. Feliz iniciativa amigo. Me ajudou bastante. Aguardo uma visita sua também. Obrigado.

    http://wwwblogdemo-danicio.blogspot.com.br/2013/04/sobre-erudicao-e-os-eruditos-arthur.html



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    1. Obrigado Danicio, já estou indo até seu blog. Bom saber que, aparentemente, temos os mesmos objetivos: propor a reflexão e o desenvolvimento do pensamento.

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