domingo, 27 de fevereiro de 2011

Egito: revolução 2.0

Por Robert Darnton, do New York Review of Books (22.02.2011) | Tradução: Coletivo VilaVudu
 

O problema atormentou todos os artigos e todas as matérias de televisão sobre Egito, Tunísia e outros países da Região, cujas massas revoltaram-se: o que é uma revolução?

Nos anos 1970, essa era pergunta sempre repetida nos cursos sobre revoluções comparadas. Agora, passando os olhos em minhas velhas notas de aula, não posso deixar de sentir um percurso: Inglaterra, 1640; França, 1789; Rússia, 1917… e Egito, 2011?

No século 18, usava-se a expressão “emoções populares”, para falar de agitações de rua e levantes. E outra, “ruídos públicos”, para designar ideias que circulavam pelas redes sociais, de boca em boca
Não me atrevo a falar do futuro dos eventos em curso no Egito ao longo das três semanas passadas, mas acho justo perguntar se as informações que chegam agora a cada segundo, por todos os meios de comunicação, do tuíter às televisões, teriam alguma relação com os modelos clássicos de revolução.

Ou se o Egito não nos estará ensinando a esquecer aqueles modelos e abrir os olhos para um outro tipo de levante jamais imaginado, nas muitas variedades de nossa velha ciência política?

Do ponto de vista dos anos 1970, a França produziu a mãe de todas as revoluções nos anos 1780; e assistimos a todas as fases prototípicas da experiência francesa: o colapso da velha ordem; um período de reconstituição constitucional; a radicalização, o terror, a reação e uma ditadura militar. Se os eventos no Egito descrevem-se por esse padrão, mal chegaram à fase um, e têm muito chão pela frente. Mas por que teriam de ser descritos por esse modelo?

Nada conteve o avanço do movimento desde o primeiro protesto, dia 25 de janeiro, quando Wael Ghonim, 30 anos, executivo da Google, mostrou o rosto horrivelmente mutilado de Khaled Said, vítima da brutalidade policial, na página facebook que criara: “Todos Somos Khaled Said” [orig. “We Are All Khaled Said” [2]].   Do facebook às emoções viscerais por youtube, a mensagem viajou pelo mundo. E então, logo depois do início das manifestações, Ghonim desapareceu
Talvez, como diziam alguns historiadores, o modelo manifeste uma dialética mais profunda, que se pode detectar em todos os grandes levantes. Outros contra-argumentavam, citando elementos que só se viam em cada determinado levante, como liderança incompetente, falta de capacidade para antecipar consequências e a mais pura contingência.

Os elementos da contingência com certeza pesaram muito em 1789. Se Luís XVI tivesse feito concessões a tempo, aos revolucionários, ou se os tivesse reprimido com decisão, as coisas talvez tivessem tomado outro rumo. Nesse sentido, sim, talvez se possa dizer que houve algo de Luís XVI em Mubarak.

E quanto a outros princípios da ciência política que tanto se evocavam? A “curva J”, por exemplo [ver, sobre isso, http://pt.wikipedia.org/wiki/Curva_J], que descreveria uma reação coletiva a melhoria de curto prazo na economia, depois de um período de estagnação? Ou a “revolução das expectativas crescentes”, na qual reformas super racionadas deflagrariam esperanças irrealizáveis? O caráter supercentralizado da administração do Estado, que levaria à atrofia da vida civil fora do centro e tornava vulnerável a capital? O nível de frustração da burguesia, os “intelectuais alienados”, a elite dividida, as reformas mal projetadas e, claro, o preço do pão?

Mas uma repórter da praça Tahrir citou frase que ouviu de um dos revolucionários: “Quero meu frango frito do Kentucky!” Foi o que bastou para gerar rumores, plantados pelos mubarakistas, de que as manifestações estariam sendo manipuladas por potências estrangeiras, que subornavam manifestantes para que permanecessem na praça
Google & Revolução?
Dito francamente, minhas velhas anotações de estudos e conferências pouco me ajudaram a entender as notícias do dia. Tentei ainda ajudar a encaminhar meus alunos na direção certa, insistindo que Maria Antonieta jamais disse “Então, que comam brioches”. Mas uma repórter da praça Tahrir citou frase que ouviu de um dos revolucionários: “Quero meu frango frito do Kentucky!” Foi o que bastou para gerar rumores, plantados pelos mubarakistas, de que as manifestações estariam sendo manipuladas por potências estrangeiras, que subornavam manifestantes para que permanecessem na praça. Fato é que aquele dito também mostrava que os manifestantes não haviam perdido o senso de humor.

Revolução com um toque de riso? Robespierre algum dia riu?   Por cinco dias, no auge da revolução do Egito, o velho regime lutou para salvar-se, bloqueando completamente o acesso à internet. Os revolucionários reagiram, fazendo correr mensagens de boca a boca, pelas redes humanas.

Quanto a isso, acho que não houve novidade em relação ao que se viu em Paris em 1789, quando as redes de comunicação oral foram crucialmente importantes. Assim como a tomada da Bastilha começou, dia 12 de julho de 1789, quando Camille Desmoulins subiu numa mesa, posta no jardim do Palais-Royal, e gritou que a multidão avançasse para o Hôtel des Invalides, assim os manifestantes no Cairo avançaram para a praça Tahrir e a ocuparam, convocando grupos para reuniões em pontos centrais da cidade, dos quais partiram em marcha, em massa.

Chamaram-me especialmente a atenção, ao meu olho estrangeiro, as cenas em que se viam muitos telefones e câmeras digitais: as pessoas filmavam ao mesmo tempo em que tentavam escapar da pancadaria dos mercenários montados em dromedários pró-Mubarak. Militantes habituados ao ativismo de internet marcavam o ritmo das manifestações, usando os mais atualizados instrumentos de comunicação.

Os elementos da contingência com certeza pesaram muito em 1789. Se Luís XVI tivesse feito concessões a tempo, aos revolucionários, ou se os tivesse reprimido com decisão, as coisas talvez tivessem tomado outro rumo. Nesse sentido, sim, talvez se possa dizer que houve algo de Luís XVI em Mubarak
Tá rindo de que, Hillary?
Nada conteve o avanço do movimento desde o primeiro protesto, dia 25 de janeiro, quando Wael Ghonim, 30 anos, executivo da Google, mostrou o rosto horrivelmente mutilado de Khaled Said, vítima da brutalidade policial, na página facebook que criara: “Todos Somos Khaled Said” [orig. “We Are All Khaled Said” [2]].   Do facebook às emoções viscerais por youtube, a mensagem viajou pelo mundo. E então, logo depois do início das manifestações, Ghonim desapareceu.

Dia 27 de janeiro, enviou mensagem preocupada, pelo tuíter (“Rezo pelo #Egypt. Preocupado. Governo planeja crime de guerra contra o povo. Estamos prontos para morrer #jan25” [em http://twitter.com/ghonim/status/30748650980249600 , aqui traduzido]. Depois, desapareceu. Passou 12 dias de olhos vendados, no que deve ter sido uma câmara de tortura. Quando foi libertado, viu-se repentinamente à luz do dia, sendo entrevistado pela única rede independente de televisão que havia no Egito. Quando lhe disseram que havia centenas de pessoas espancadas até a morte nas ruas, Ghonim desmoronou, e afastou-se das câmeras chorando convulsivamente.

O gesto e o pranto, imediatamente disseminados por youtube e tuíter, galvanizaram o Egito. O pranto de Ghonin, visivelmente sincero, não encenado, deu novo ânimo aos protestos, em momento em que começavam a amainar. Nunca, antes, alguém conseguira tão rapidamente e tão vigorosamente, furar a muralha eletrônica que separava os egípcios e qualquer informação confiável. Foi cena high-tech de alta autenticidade, um grito do coração que penetrou até o fundo e agitou o puro artifício de nossa “era da informação”.

No século 18, usava-se a expressão “emoções populares”, para falar de agitações de rua e levantes. E outra, “ruídos públicos”, para designar ideias que circulavam pelas redes sociais, de boca em boca.

Relendo anotações amareladas daquelas aulas, não vejo modelo antigo, que os egípcios tenham usado. Mas os tuiteiros na praça Tahrir carregam ecos do passado mais distante, e meu coração segue com eles.
 

Notas da Tradução:

[1] Para saber quem é, se não souber, clique http://history.fas.harvard.edu/people/faculty/documents/darnton-cv.pdf. É autor de um dos livros mais interessantes que jamais chegou às nossas mãos e lemos, cá na Vila Vudu, em todos os tempos: O Iluminismo como negócio. História da publicação da Enciclopédia, na Europa. Sobre o livro, ver http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=10649. É autor, também, de outro estudo totalmente sensacional: Poetry and the Police: Communication Networks in Eighteenth-Century Paris, 2010, sem tradução no Brasil. Além de vários outros estudos históricos, também totalmente sensacionais, dentre os quais, por exemplo O Grande Massacre De Gatos e Outros Episódios da Historia Cultural Francesa (1988). É historiador, especialista em história da França no século 18 (NTs, que pode ser muito melhorada).

[2] Ocorreu-nos, nas conversas para essa tradução, que André Malraux, dia 19/12/1964, quando da transferência para o Panthéon, das cinzas (pressupostas, porque o cadáver não foi jamais identificado com certeza absoluta) de Jean Moulin, herói da resistência francesa morto sob tortura, pronunciou um famosíssimo discurso, conhecido como “Le visage de la France”. No discurso, Malreaux disse: “Juventude, pensa nesse homem como se acariciasses o seu pobre rosto destroçado do último dia. Naquele dia, aquele era o rosto da França (…)”. “Todos Somos Khaled Said”, com imagens do rosto de um morto torturado, se não é, bem poderia ser um eco histórico revolucionário de “Aquele é o rosto da França”, de Malraux (NTs).

http://www.outraspalavras.net/2011/02/26/egito-revolucao-2-0/

As ondas do poder e os ciclos da moeda

Por José Luis Fiori

“The time has come for a new economic policy for the United States. Accordingly, I have directed the Secretary of the Treasury to suspend temporarily the convertibility of the American dollar…”

Discurso de Richard Nixon, 15/8/1971


Na história do sistema capitalista, só existiram duas moedas internacionais: a Libra e o Dólar. E só se pode falar da existência de três sistemas monetários globais: o “padrão ouro”, que ruiu na década de 1930; o “padrão dólar”, que terminou em 1971; e o “padrão dólar-flexível”, que nasceu na década de 1970 e está passando por uma turbulência, neste início do Século XXI. Os dois primeiros sistemas apoiaram-se numa relação fixa entre a Libra e o Dólar, e uma base metálica comum, o ouro; mas o terceiro sistema, o “dólar-flexível”, não tem nenhum tipo de padrão metálico de referencia, apoiando-se apenas no poder dos EUA de definir o valor da sua moeda nacional/internacional, e dos seus títulos da dívida pública.

No dia 15 de agosto de 1971, o presidente Richard Nixon decretou o fim da conversibilidade do dólar em ouro, estabelecida em Bretton Woods, em 1944, num discurso à Nação em que defendeu a necessidade de um novo sistema monetário internacional
Apesar de certa imprecisão histórica, pode-se dizer que o “padrão ouro” nasceu depois da vitória inglesa nas guerras bonapartistas, e junto com a supremacia econômica britânica, na América e na Índia. Por sua vez, o “padrão dólar” só se impõe a todo mundo capitalista, depois da vitória americana na II Guerra Mundial. O “sistema dólar-flexível”, entretanto, nasceu de forma diferente, de uma decisão unilateral e “pacífica”, tomada pelo governo americano. EUA. No dia 15 de agosto de 1971, o presidente Richard Nixon decretou o fim da conversibilidade do dólar em ouro, estabelecida em Bretton Woods, em 1944, num discurso à Nação em que defendeu a necessidade de um novo sistema monetário internacional.

No mesmo discurso, Richard Nixon explicou aos “países amigos” que havia terminado a época dos “desenvolvimentos a convite”, patrocinados pelos EUA, e responsável pelo sucesso de algumas economias nacionais que agora estavam competindo com a própria economia norte-americana. Por isto, Richard Nixon apelava aos governos amigos para que colaborassem com a desvalorização do Dólar e o restabelecimento do equilíbrio econômico mundial. Alemanha, Japão e França aceitaram a imposição americana e valorizaram suas moedas, aceitando o Smithsoninan Agreement, que vigorou durante 14 meses. Depois disto, a história se complicou, e os EUA tiveram que apelar – no final dos anos 70 – para um política agressiva de valorização unilateral do dólar, que provocou uma recessão e um ajuste radical da economia mundial, que tomou toda a década de 1980. Mas apesar dos seus efeitos negativos sobre o “resto do mundo”, é possível dizer que o novo sistema “dólar-flexível” foi um sucesso do ponto de vista dos grandes interesses econômicos americanos, públicos e privados, durante pelo menos 25 anos..

Depois disto, a história se complicou, e os EUA tiveram que apelar – no final dos anos 70 – para um política agressiva de valorização unilateral do dólar, que provocou uma recessão e um ajuste radical da economia mundial, que tomou toda a década de 1980
Esta história econômica é bastante conhecida, mas em geral não se inclui, na explicação do sucesso dos EUA, outras coisas que se passaram no mesmo ano de 1971. Para começar, no mês de maio de 1971, os EUA e a URSS anunciaram o início de negociações com vistas a um acordo de limitação dos seus sistemas balísticos, e sobre vários tópicos de interesse comercial. Negociações que culminaram com a reunião de cúpula realizada em Moscou, um ano depois, quando os presidentes Richard Nixon e Leonid Breshnev assinaram o primeiro Tratado de Controle de Armamentos, SALT I, e vários outros acordos comerciais que marcam o início da détente, entre EUA e URSS, vigente durante toda a década de 1970.

Por outro lado, no mesmo mês de maio de 1971, o governo americano respondeu positivamente à proposta feita pelo primeiro-ministro chinês, Chou En-lai, de iniciar negociações visando uma reunião de cúpula entre os presidentes dos EUA e da China. Os passos que foram dados em seguida pelos dois governos mudaram a face do mundo, começando pela visita secreta de Henry Kissinger à Pequim, em julho de 1971, e culminando com a reunião entre os presidentes Richard Nixon e Mao Tsé-Tung, realizada em fevereiro de 1972. Na época, Henry Kissinger escreveu uma nota para o presidente Nixon, dizendo: “estabelecemos a base para você e Mao virarem uma página da história. O processo que iniciamos agora enviará ondas supersônicas por todo o mundo…”. E de fato, a relação entre EUA e China que nasceu naquele momento revolucionou a história mundial.

O que em geral não se reconhece, entretanto, é a importância que tiveram as novas relações dos EUA, com a URSS e com a China, para ampliar o espaço monetário do dólar, fora do sistema capitalista, e impor a nova política monetária dos EUA aos seus aliados do mundo capitalista
O que em geral não se reconhece, entretanto, é a importância que tiveram as novas relações dos EUA, com a URSS e com a China, para ampliar o espaço monetário do dólar, fora do sistema capitalista, e impor a nova política monetária dos EUA aos seus aliados do mundo capitalista. Uma boa lição para antecipar os próximos passos, no momento em que os EUA procuram — uma vez mais — “ajustar”, a sua moeda e a sua economia nacional, seguindo a coreografia de 1971.

http://www.outraspalavras.net/2011/02/24/as-ondas-do-poder-e-os-ciclos-da-moeda/

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Medo da vida


Há coisas que dizemos que precisam ser repensadas. O medo da morte é uma delas. Trata-se de uma dessas expressões que não têm qualquer fundamento. Não existe medo da morte.

Não há como ter medo da morte simplesmente porque se trata de um acontecimento do qual não temos qualquer registro de vivência, restringindo-nos à observação da morte de outrem. A morte, em si, não tem qualquer referência simbólica confiável, já que é a antireferência, o antiregistro, a completa ausência de vida, conforme o termo já indica. E a vida, sabemos, se constitui exatamente pelas referências e registros que estabelece para se auto-referir. A morte é a ausência absoluta de simbolização, o fim da linha dos discursos.

Não há como representarmos a morte a não ser lhe decorando com artefatos simbólicos: morte violenta, morte por asfixia, morte lenta, morte súbita, morte heróica etc. A morte, em si, está, em vida, sempre projetada para o futuro e com algo, o signo, a lhe ocultar o vazio. Quem preenche esse vazio é a vida, o irresistível impulso para ela que Freud estudou no final de sua vida, em oposição ao também impetuoso impulso para a morte. Todos os medos dizem respeito à vida, pois é apenas nela que estamos e com referência a ela que nos movemos.

Se enunciamos um medo, estamos falando de algo construído e projetado em vida. Conhecemos esta, mas não temos como conhecer a morte, logo não temos como temer algo que não conhecemos.

O tal medo da morte é, assim, uma farsa simbólica. Esse terror que nos acompanha durante toda a vida é, desse modo, uma faceta de nossa forma narcísica de encarar todos os fatos da vida. Não tememos morrer, tememos viver uma certa situação, como a da dor, a da asfixia, a da agonia.

Quando dizemos que temos medo da morte estamos dizendo que temos medo da vida, isso sim. E isso tem proporções simbólicas interessantes para pensar. A nossa relação com o corpo, por exemplo. O corpo não é nosso, não de nosso eu. É a natureza em nós, é, com toda certeza, a morte concretizada no cotidiano, pois é pelo corpo que se vive e é o corpo que morre. No entanto, acreditamos que o corpo é nosso, de nosso eu, por isso o adornamos e transformamos a nosso gosto, ao gosto disso que chamamos nossa identidade.

Mas, a partir da análise do medo da morte podemos adentrar no estudo de nossa vida, nada além disso. Podemos pensar o quanto temos decorado nossos dias com discursos e ditos diversos, o quanto temos acreditado nos signos, tomando-os muitas vezes como aquilo que referem, esquecendo que são apenas representações. E, ao negar, quase que absolutamente, a natureza do corpo, devemos refletir sobre o quanto temos nos afastado de nós mesmos e dos que nos cercam. Afinal, se há alguma coisa que nos identifica e nos une é exatamente o corpo e seu fim inevitável, a morte.

Com certeza isso nos chama a atenção para a pobreza de nossa vida, para a mortificação da vida na medida em que fazemos questão de proceder de forma tão estúpida.

Não temos medo da morte. Temos medo da vida que se nos apresenta cheia de possibilidades, mas que preferimos rechear de uma linguagem repetitiva e auto-referente, que não tem nos ajudado a entender a nossa experiência e, desse modo, melhorá-la. Não temos entendido nosso próximo, a não ser com base no dito do “ama-o como a ti mesmo”. E se amamos as outras pessoas como a nós mesmos, não as amamos, amamos a nós mesmos.

E, cá para nós, ao temermos a vida e sucumbirmos a esse temor, não estamos vivendo. Já estamos, de certa forma, mortos. E como um morto pode temer o seu estado?

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

10 dicas para uma boa cobertura de carnaval

Duda Rangel

1. Seja na avenida, num baile de salão ou atrás de um trio elétrico, tente fugir das perguntas óbvias quando for entrevistar um folião. Pelo amor de Deus, nada de “muita emoção?” ou “curtindo o carnaval?” ou ainda “e essa energia tem hora pra acabar?”.

2. Evite os personagens manjados, como o gari que samba feliz; o rapaz que sofre para empurrar o carro alegórico, mas faz isso pelo amor à escola de samba; ou a tiazinha gorda na arquibancada do sambódromo que não perde o pique apesar da chuva.

3. Entrevistar um carnavalesco não é missão fácil. Para se ter uma dimensão da encrenca, esse povo tem o ego maior do que o de nós, jornalistas. Seja cauteloso nas perguntas para não magoá-lo e correr o risco de presenciar um dos maiores pitis de sua vida.

4. Se for entrevistar (sub)celebridades em bailes, na concentração ou em camarotes de cervejaria, cheque o nome da pessoa antes de entrar ao vivo na TV. E fale apenas com gente interessante. Não caia naquela lorota dos “projetos artísticos sigilosos”.

5. Não se revolte se esbarrar numa Carla Perez trabalhando como repórter ao seu lado. Pensamentos ruins, como “nosso diploma não vale nada mesmo” ou “poderia ter gastado a grana da faculdade numa lipo”, vão atrapalhar a sua concentração.

6. É fundamental ter cuidados com a voz. Fazer perguntas gritando, em meio ao barulho, deixa qualquer um rouco. Neste caso, não é considerada prática antiética levar a boca para bem perto da orelha do entrevistado. Mas sem enfiar a língua, ok?

7. Prepare-se para todo tipo de adversidade – chuva, sol, altos decibéis de música sem parar, cheiro insuportável de mijo nas ruas, cantadas de baixo nível e, claro, piadinhas como “aí, jornalista, trabalhando no carnaval! Se fodeu, hein?”.

8. No dia da apuração do bloco especial, é conveniente trabalhar com protetores de cabeça e maxilar (como os de pugilistas). Apuração é sempre aquela briga e tumulto de repórteres querendo falar com o presidente da escola campeã ou rebaixada.

9. Se você odeia samba ou axé, cobrir o carnaval ouvindo rock no MP3 player é uma ótima dica. Só não esqueça de tirar os fones do ouvido na hora de uma entrevista. Uma desintoxicação pós-festa (não ouvir Ivete Sangalo durante a quaresma) também é uma boa.

10. Se você é casado e terá de trabalhar os quatro dias, nada de ficar ligando pra casa a todo o momento pra saber se sua mulher ou seu marido está se comportando. Relaxe! E por que não prestar atenção naquela diabinha safada ou no bombeiro musculoso? Afinal é carnaval.

http://desilusoesperdidas.blogspot.com/

O que os jornalistas fazem no fim de noite

Duda Rangel

O redator de Geral encontra os amigos no bar – mesmo nos dias em que deixa a redação bem tarde – e, com um copo de chope, brinda a sobrevivência a mais um dia de trabalho.

A repórter de TV, após acompanhar o Big Brother no Multishow, toma umas três xícaras de café forte e começa a escrever o texto que deve entregar no dia seguinte cedinho à editora.

O diagramador liga o computador assim que chega em casa – passou o dia inteiro na frente de outro – e fica fuçando o Facebook alheio, postando no Twitter, curtindo sacanagem.

O foca fica trancado no quarto, deitado na cama, Kafka aberto no peito, olhando pro teto e pensando que já é hora de alugar um apê, mesmo minúsculo, e deixar a casa dos pais.

O redator de Internacional janta com a mulher e os filhos, vê um pedaço do jogo na TV, dá uma transadinha bem meia-boca e prova que existem, sim, jornalistas com vida normal.

A moça do Arquivo, sempre sem sono, assiste a filmes dublados na TV aberta – queria ter dinheiro para pagar um Telecine – e se irrita com o vira-lata do vizinho que late sem parar.

A estagiária dá papinha pro filho, limpa a bunda de merda do filho, se esforça pra lembrar cantigas de ninar pro filho e reflete: “por que dei praquele editor casado sem camisinha?”.

A fotógrafa vai a um inferninho, entra em transe com o mix de música eletrônica e vodca, e esquece que não recebe um aumento de salário há exatos dois anos, três meses e 17 dias.

Duda lembra que precisa escrever um texto para postar no blog na manhã seguinte e que ainda não produziu porra nenhuma. No passado, entraria em pânico, mas agora está relaxado. Um cronista famoso disse certa vez que “o deadline apertado é a melhor inspiração”. Começa a imaginar então o que o redator de Geral boêmio, o foca oprimido, a moça do Arquivo insone estariam fazendo naquele momento.

Fonte:http://desilusoesperdidas.blogspot.com/2011/02/o-que-os-jornalistas-fazem-no-fim-de.html?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+DesilusesPerdidas+(Desilus%C3%B5es+perdidas)

Balde iluminado

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A filosofia e o (des)compromisso do humano com sua existência

Isso é que é ciência
Até a Idade Média, Filosofia designava todo o conhecimento humano, “todo o conjunto dos conhecimentos que o homem podia alcançar”, afirma García Morente. A partir desse tempo, esse saber se divide, segundo o autor, e surge a Teologia, que deveria tratar do conhecimento de Deus, enquanto a filosofia tratava do conhecimento do homem sobre as coisas terrenas.

Na Idade Moderna, porém, essa divisão se acentua. Mantém-se a separação entre saber terreno e saber divino, mas aquele se fragmenta nas chamadas ciências, como a Física, a Matemática e a Biologia. É o tempo do saber enciclopédico, que abrange uma infinidade de conhecimentos específicos. Diz Morente: “E então, que é a filosofia? Pois então a filosofia vem circunscrevendo-se ao que lhe resta depois de se ter sido tirado tudo isto. Se a todo o saber humano lhe tiram as matemáticas, a astronomia, a física, a química etc., o que resta, isso é a filosofia”.

Para o autor, a filosofia aborda seus objetos de forma universal enquanto as ciências o fazem no particular. Isso seria o que define essa diferenciação, embora Morente afirme que adota esse ponto de vista momentaneamente, crendo-o esquemático e prometendo tratar disso com mais clareza mais adiante no seu livro Fundamentos de Filosofia.

Até aqui seguimos com o mestre, mas me permito fazer uma breve reflexão sobre essa divisão, mesmo que admitindo que seja esquemática, pobre e até mesmo falsa. Antes que seja refutada, rende uma reflexão sobre a subjetividade contemporânea.

O fato é que parece haver, ainda que em aparência, essa dicotomia. Filosofia, por um largo tempo na história, designou realmente a totalidade do conhecimento. Todo o humano estava envolvido, tudo o que diz respeito à vida humana sobre a terra. Havia, como os gregos gostavam de formular, um conjunto de conhecimentos que tinha um compromisso totalizante com a existência, com a formulação de uma “paideia”, um termo de difícil tradução, mas que designa a iniciativa de formação do humano. Ao pensar, era você que estava envolvido, era sua vida que estava posta, a sua capacidade de pensar a realidade e tudo o que a compõe. Uma, talvez a maior, lição que os gregos nos deixaram foi esse envolvimento. 

 
O surgimento das ciências opera um afastamento do humano de sua existência. Não mais a vida como um todo, não mais a vida e seu compromisso consigo mesma, com sua totalidade. A partir de um momento, o compromisso passa a ser com uma técnica, com recortes do todo que dão sentido a pequenas partes desse todo, fechadas em si mesmas. Fundamentalmente, com uma linguagem que se sobressai àquele que a profere, que ganha existência própria, torna-se fetiche. O compromisso deixa de ser com o território para se ater ao mapa.

De certo modo, é possível pensar do seguinte modo. O filósofo grego impunha sua vontade de conhecer ao mundo, observava este para que essa vontade se impusesse e, com essa relação posta, para que se formasse enquanto ser no mundo. A partir das ciências, o saber específico, a linguagem específica formulada nos parâmetros desse saber, se impõe. Em termos simples o humano se anula para se filiar a correntes, ou, numa imagem figurada, para se aprisionar nelas e com elas. O surgimento dessa divisão, assim, pode ser entendido como uma ação que opera uma alienação.

A filosofia reage quando adota uma postura epistemológica, ou seja, de pensar a formulação do saber científico, propondo uma reflexão sobre esse saber. Tenta, aparentemente, retomar a condição humana – quem sabe utópica, mas tudo indica que essencial para a nossa potência enquanto seres no mundo – como centro e fulcro de todo o conhecimento.

A lógica das ciências funciona como aquela que fundamenta a transformação do humano em peça de uma engrenagem. Não é ele que a opera, mas a técnica à qual deve se adequar. É a mesma lógica que afasta o homem da terra, que o transforma num ser alienado, refém dos instrumentos que criou. Numa imagem, o humano não usa o martelo-ciência para pregar um prego, é o martelo que o usa para isso, projetando um mundo no qual as ferramentas se rebelam, embora passivamente – pois são meros instrumentos do ódio do humano por si mesmo –, para subjugar quem as usa.

A realidade que observamos hoje, com o humano preso a discursos, rendendo culto à linguagem, como se esta lhe suplantasse, a degradação ecológica, a pobreza espiritual da cultura de massa, pode ser entendida por esse parâmetro. Numa relação causal, é a consequência dessa alienação fundamental.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Essas verdades insofismáveis

Se o leão estiver fora da jaula, olha o que pode te acontecer
Leio na Wilkipédia, esse sabe tudo internáutico, que há máximas que poucos colocariam em questão: “Matar é errado”, “A democracia é melhor que a ditadura”, “A liberdade de expressão e de opinião é um valor indispensável”. Isso no verbete de Filosofia.

Bem, matar é errado em que circunstâncias? É preciso perguntar. Há casos, evidentes, nos quais matar é certo, certíssimo. 


Há o caso da guerra, no qual ou você mata ou provavelmente morrerá. “Ah, guerra é guerra, mas não é certo, a própria guerra não é admirável”, dirá alguém. Certo, certo. Há que se perguntar qual a origem dessa filosofia. Possivelmente, a fundamentação desse brilhante pensamento saiu do tratado metafísico que fundamenta as telenovelas ou os teleprompters dos telejornais.

Além disso, há que se ver o que se mata. Uma aranha, por exemplo, é um bicho que preferimos ver morto, não há muita dúvida. Ela tem o péssimo hábito de picar e inocular peçonha. Melhor morta do que viva e melhor que a matemos do que o inverso. O mesmo diremos do mosquito que causa a dengue. Afinal, se não fosse certo matar o mosquito, para que tanta propaganda?

Desconfie das verdades insofismáveis. Algumas delas podem ser as maiores mentiras que você já ouviu
Outro caso, bem mais drástico, acontece com o leão. O “rei da selva” é muito simpático, se é que se pode dizer isso, no zoológico, esse campo de concentração animal que os que dizem que matar é errado criaram. Fora dele, ou você o mata ou acontece algo muito desagradável. Matar um leão é certo, se ele não está atrás das grades. O mesmo pensa a polícia carioca em relação aos adolescentes pobres.

Há, ainda, a opção de matar o tempo. Ora, pouca gente faz isso hoje, pois não há tempo para matar. No entanto, se for possível, não há nada de errado nisso. Logo, venhamos e convenhamos, matar nem sempre é errado. Não se trata de uma verdade, mas de uma afirmação ideológica.


Compre um jornal ou se recolha ao bar

A democracia será realmente melhor do que a ditadura? Haverá tão grande diferença entre uma coisa e outra, na prática? Tudo bem, cresci numa ditadura e posso dizer que não é nada bom. Havia gente sendo torturada, morrendo, sendo perseguida. Havia uma censura que não nos deixava saber de muitas coisas. Havia cartazes de “procurados” pelas ruas. Havia os generais, mas havia os guardas de esquina, que eram muito piores.

É horrível uma ditadura, concordo. Mas, vivo hoje nisso que as pessoas enchem o peito para chamar de democracia. Continua havendo gente sendo torturada, morrendo e sendo perseguida. E se antes isso acontecia escondido, hoje há programa de televisão para mostrar.

Se não há a censura oficial, há a do capital, que é certamente mais eficaz, que não nos deixa saber de nada que não lhe interesse. Não há mais generais, mas há os seguranças de shopping, os empresários e os chefes de seção. Ao falar nesses personagens até dá vontade que voltem os cartazes de “procurados”.

Não sei se a democracia é melhor do que a ditadura, principalmente tomando em conta a última verdade insofismável da Wikipédia: “A liberdade de expressão e de opinião é um valor indispensável”. Isso é bonito, reconheço. Por algum tempo da minha vida acreditei na nobreza dessa sentença. Mas, passado algum tempo, alguma experiência adquirida, acrescentaria no final da frase: para quê? Sim, porque para a maior parte de nós, reles mortais, pouco vale a liberdade de expressão: sempre se fala sobre o Big Brother.

E, para que opinião? Assis Chateaubriand aconselhava seus jornalistas a comprar um jornal sempre que tentavam dar alguma opinião. No máximo, o que alguém que não tem uma rede de mídia pode fazer é expor suas brilhantes análises de conjuntura, tecer suas conscientes críticas políticas e dizer o que pensa no balcão ou na mesa do bar. Aí vale até mesmo subir na mesa e discursar.

Desconfie das verdades insofismáveis. Algumas delas podem ser as maiores mentiras que você já ouviu.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Já pensou se todos falassem a verdade?

E se todos falassem a verdade? Já pensou nisso? Viver sem uma mentira, dizendo somente a mais declarada e cruel verdade!

Imagine como seriam as nossas relações humanas, comerciais e legais. Comece pela propaganda, pela publicidade. Pense na política. Um candidato a qualquer cargo público, por exemplo, declararia, sem qualquer pudor, que o único interesse que tem em você está resumido no seu voto e que esquecerá de sua existência durante quatro anos, quando voltaria a repetir a mesma coisa. Você votaria nele mesmo assim? É claro que não, na certa você prefere, como eu, que as coisas sejam como são. Preferimos a mentira, os programas eleitorais com promessas mirabolantes e absolutamente impossíveis de ser realizadas. Dá um certo conforto, talvez, saber que tanto dinheiro é gasto apenas para nos enganar. Afinal, pelo menos desse modo somos importantes.
Você entenderia, se é que não entendeu ainda, que ninguém gosta de você como você é. Na verdade, você não é nada, pois mente o tempo todo e ninguém pode gostar de quem mente o tempo todo. E entenderia que também não gosta de ninguém. Afinal, não é possível gostar de alguém que não gosta de quem mente o tempo todo.
Seu vizinho talvez lhe virasse a cara. Afinal, ele só te cumprimenta por educação, esse eufemismo da dissimulação que cultivamos dia a dia. No primeiro barulho que você fizesse depois das dez da noite, provavelmente ele tocaria na porta e diria tudo o que pensa de você. E, é claro, você faria o mesmo. O mais forte venceria, o que tivesse melhor soco, a faca mais afiada ou a melhor pontaria.

Darwin estaria rindo no túmulo. Sua famosa teoria estaria, por fim, absoluta e completamente comprovada. Os mais fortes reinariam pela verdade, apenas por ela e também por seus músculos e agilidade. Sim, porque o que acontece hoje é que os mais dissimulados, não os mais fortes, é que levam a melhor. O que esses tipos têm de forte é o estômago, pois mentem com a cara mais deslavada e não experimentam sequer um pingo de náusea.

E a família? Sua mulher ou marido não lhe dariam mais aquelas desculpas infames de que estão com dor de cabeça, com muito trabalho ou sei lá mais o quê. Afirmariam, olho no olho, que você é tão sexualmente vibrante quanto uma maria-mole. E seria verdade, pode crer. O mesmo aconteceria com namorados e namoradas, flertes, ficadas e rolos. Com certeza, pelo menos não haveria superpopulação.

Ah, e seus filhos pediriam para ser internados em orfanatos ou reformatórios. Não que se sentissem desamparados, maus ou estivessem com a nobre intenção de prevenir suas próprias delinquências. O objetivo seria se livrar de você, o que poderiam conseguir antes de serem atirados pela janela.

Voltando à publicidade, já imaginou o que diriam as empresas sobre seus produtos? Anunciariam, sem vergonha, que você é um idiota que compra qualquer porcaria que te dizem ser uma maravilha para qualquer coisa ou, em certos casos, apenas para ostentar e arrotar opulência.

Os publicitários não precisariam ficar imaginando o que te dizer para você comprar aquele xampu que tem as mesmas propriedades que o mais reles sabão de coco. Os fabricantes de cigarros venderiam seu produto com os votos de que você adoeça o mais rápido possível, provando e comprovando a qualidade do veneno que oferecem.

Os anunciantes de carros te diriam que te vendem um monte de lata que corre a mais de duzentos quilômetros, mas o máximo que você conseguirá, na esmagadora maioria das vezes, é levar o velocímetro até 60 km por hora, com a velocidade usual três vezes menor, se você mora numa cidade. E que a única utilidade do carro é te transportar e te fazer gastar dinheiro com gasolina, oficina, borracheiro etc. Rirão na tua cara porque você pensa que comprando um belo carro, todo mundo te invejará. O problema é que esse “todo mundo” também vai dizer a verdade e te deixar claro que você é feio(a), chato(a) e tem mau hálito, apesar do carrão.
Já imaginou o que diriam as empresas sobre seus produtos? Anunciariam, sem vergonha, que você é um idiota que compra qualquer porcaria que te dizem ser uma maravilha para qualquer coisa ou, em certos casos, apenas para ostentar e arrotar opulência.
O mesmo aconteceria com a publicidade de cerveja. Se bem que esse ramo da publicidade é o que mais fala a verdade. Trata seu público alvo como imbecil, composto por bobos alegres que só pensam em uma coisa na vida: beber cerveja. Isso pelo motivo de que imaginam que cerveja atrai amigos, sexo e felicidade.

O que os fabricantes de cerveja não fazem, porém, é falar claramente sobre isso clara e diretamente. Como a regra é mentir, precisam enfeitar essa singela verdade. Afinal, você precisa se sentir importante, não é? Pode ser um idiota completo, mas é tão importante a ponto de que todos precisam fazer um grande esforço para dizer o quanto você é inteligente, gente boa e um grande amigo – ou amiga. Meu caro, minha cara, você não é nada disso. Olhe no espelho e verá. Pelo menos o espelho não mente.

Aliás, o melhor disso tudo aconteceria com os amigos. Ou o pior. Você entenderia, se é que não entendeu ainda, que ninguém gosta de você como você é. Na verdade, você não é nada, pois mente o tempo todo e ninguém pode gostar de quem mente o tempo todo. E entenderia que também não gosta de ninguém. Afinal, não é possível gostar de alguém que não gosta de quem mente o tempo todo.

E as drogas? O que aconteceria se boa parte das autoridades que perseguem drogados e traficantes das chamadas drogas ilícitas tivessem que confessar publicamente que também as usam ou, pior, que em vários casos as traficam? E, voltando à cerveja, que o álcool, mesmo consumido socialmente, é uma droga tão ou mais deletéria que as ilícitas?

Você iria ao médico e ele te diria o que realmente sabe sobre a sua doença, ou seja, quase nada. Diria que tem ideias vagas sobre a origem de suas dores de cabeça ou daquele aperto no peito que você sente todo fim de tarde. Deixaria claro que te manda fazer exames apenas para que você sinta que ele está fazendo alguma coisa e que te receita remédios para que você imagine que está em tratamento médico e que vai melhorar, com certeza. Se você contestasse o médico, lhe dizendo toda a verdade sobre sua comprovada ineficiência, ele também te diria que estudou cuidando de cadáveres e muito pouco sabe sobre gente viva. E seria a mais pura verdade.
Em resumo, é bom que mintamos tanto. Somente assim conseguimos suportar a verdade. Sim, porque esta não passa daquilo que não deve ser dito, nunca.
Os advogados morreriam de fome, assim como os corretores diversos e principalmente os humoristas. Como seria fazer humor se a verdade estivesse correndo pelas ruas, colocando o dedo em todas as feridas? Isso não seria nada engraçado.

Em resumo, é bom que mintamos tanto. Somente assim conseguimos suportar a verdade. Sim, porque esta não passa daquilo que não deve ser dito, nunca. Sabemos que ela está por perto, que nos espreita o tempo todo. Apenas a vemos de soslaio, rapidamente, sem definição precisa de suas formas.

A verdade é um fantasma que nos assola no dia e na noite e é melhor que continue assim. Pedir que ela se revele é como mandar os defuntos levantar de suas covas e sair à rua, como se nada houvesse acontecido com eles, ostentando suas ossadas amareladas, suas carnes podres e seu cheiro insuportável. E, além de bizarra, com toda certeza, essa não é definitivamente uma boa ideia.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Espectros diurnos

É belo um dia de sol.

Mas, se a noite tem lá seus fantasmas, o dia também os tem.

Eles são perceptíveis nos olhares fugidios que a luz clara e forte persegue.

Às vezes, escapam pelas pupilas e se deitam no solo quente.

É possível tropeçar neles.

Geralmente estão por trás das árvores e de toda e qualquer construção humana. 

Você os pode confundir com as sombras.

Estão mesmo atrás de você.

Tome cuidado.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

EUA não têm jeitinho, segundo o Estadão

O jeitinho maroto de olhar o atraso dos outros revela tudo. Foto de Jason Reed.
Jornal: EUA criticam atraso e "jeitinho brasileiro" em 2014 e 2016


02 de dezembro de 2010 – Terra.


 

Envolvidos em disputa para ser sede da Copa do Mundo de 2022, os Estados Unidos fazem campanha na sede da Fifa em Zurique e prometem não repetir erros que apontam no Brasil, na administração do Mundial de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016, que acontecerão no Rio de Janeiro. De acordo com o jornal O Estado de S. Paulo, o país faz críticas ao "jeito tipicamente brasileiro" de tocar os dois eventos, deixando tudo para a última hora e sendo um espelho da falta de planejamento da administração Lula.

A insatisfação foi incluída em telegramas escritos pela embaixada americana em Brasília, segundo a publicação. Nos documentos, o governo brasileiro reconhece a existência de problemas para garantir a segurança e não descarta as chances de ameaças terroristas. Por outro lado, por meio da ministra conselheira da Embaixada, Lisa Kubiske, o governo Lula fala muito e pouco faz, como na ideia de garantir entradas grátis para estudantes e trabalhadores de outros países aos jogos, sem pensar como fará isso. Outra crítica americana seria a falta de diálogo com outras nações para auxiliar na organização e solução de crises.

http://esportes.terra.com.br/futebol/brasil2014/noticias/0,,OI4822783-EI10545,00-Jornal+EUA+criticam+atraso+e+jeitinho+brasileiro+em+e.html

Ainda falando do jeitinho...

Imagem conseguida no endereço http://1.bp.blogspot.com
Continuando a conversa sobre o tal “jeitinho” brasileiro, apresento artigo de Ana Maria de Almeida Moura, de Salvador/BA. É formada em em Administração Geral pela Faculdade 2 de Julho e pós-graduada em Psicologia Organizacional pela UNIFACS, em Salvador. Trabalha no SEBRAE/BA, na Unidade de Administração.

O motivo para publicar este texto é que traz algumas ponderações sobre o tema, com foco na administração de empresas.

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O Jeitinho brasileiro de ser e sua influência no dia-a-dia das organizações
 

Por ANA MARIA DE ALMEIDA MOURA
 
O jeitinho brasileiro está presente no cotidiano das pessoas como uma forma de obter um rápido favor para si, às escondidas, e sem chamar a atenção; por isso, o jeitinho pode ser também definido como "molejo", "jogo de cintura", habilidade de se "dar bem" em uma situação "apertada”, onde a versatilidade é o ponto ideal para encontrar os resultados desejados em curto prazo, principalmente porque quando se fala em jeitinho, a primeira coisa que vem à mente é algo como: suborno, esperteza, ambição.

Mas, nem todo jeitinho é negativo, podendo ser também visto de uma perspectiva positiva.  Por outro lado, o jeitinho coloca o sujeito que o pratica em situação de troca, por se sentir obrigado a retribuir o favor recebido, para que não seja chamado de “ingrato” ou ser reconhecido como aquele sujeito que “cuspiu no prato que comeu”.

 

Se, por um lado, a prática do jeitinho, encontra-se inserida no cotidiano das pessoas, o mesmo se dá nas organizações burocráticas, o que não é nenhuma surpresa, principalmente pela formalidade existente nessas organizações, que por ser extremamente racional e impessoal, leva o individuo a lançar mão do “jeito”, permitindo a suspensão temporária da lei e das regras estabelecidas para atingir os seus objetivos. Para se pedir um jeitinho, são utilizados vocábulos “carinhosos”, pois agindo de maneira contrária é provável que não consiga sucesso. Mas, essa não é a única maneira de definir o jeitinho brasileiro, pois nem todo jeitinho é negativo, já que, o mesmo pode ser visto tanto de uma perspectiva negativa ou positiva. O lado negativo do jeitinho está presente naquela situação em que o sujeito tenta conseguir a solução de algum problema através da transgressão de uma norma, ou simplesmente transgredindo os princípios morais para defender seus interesses.

O que caracteriza a passagem do negativo para o positivo é tipo de relação existente entre as pessoas envolvidas. Essas relações existentes entre jeito e favor podem ser consideradas normais já que pedir um favor não transgride regras preestabelecidas, enquanto que o "jeito" transmite a idéia de infração, o que conseqüentemente, é preciso dar um jeito para não haver punição.

Assim, justificamos os nossos atos: se pudermos pagar menos impostos a um governo que não devolve aos seus contribuintes os benefícios a que faz jus, por que fazê-los?

O jeitinho brasileiro está inserido em outros universos, tais como: familiar, sexual, emocional, financeiro; em outras esferas o jeitinho torna-se difícil por ir de encontro a situações que podemos chamá-las de força maior, e aí, incluiríamos as doenças, os acidentes e a morte.

Alguns fatores são considerados quando se desejar praticar o jeitinho: o status, a maneira de vestir e o dinheiro; esses fatores não são decisivos, principalmente porque podem ser vistos de forma autoritária e de poder.

Citando Roberto da Mata podemos comparar o jeitinho com a malandragem para identificar a relação existente entre um e outro. Daí pode constatar que tanto o personagem malandro como o ritual do jeitinho possui características semelhantes; o malandro é conhecido pela engenhosidade, sutileza, destreza, carisma, lábia que permitem manipulação de pessoas ou resultados, de forma a obter o melhor destes, e da maneira mais fácil, o que também acontece com quem pratica o jeitinho.

Em suma, o “jeitinho” é um modo simpático, desesperado ou humano de relacionar o impessoal com o pessoal estando enraizado na cultura brasileira. Não tem jeito, é cultural.

http://www.administradores.com.br/home/ana2008/

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O Big Brother, Fernandinho Beira-Mar e a manipulação da realidade

George Orwell
Por Luis Filipe Melo

Pouca gente sabe, mas o reality show BBB, o Big Brother, tem a origem do seu nome num famoso livro escrito pelo inglês George Orwell, em 1949. Orwell foi jornalista e lutou na Guerra Civil espanhola contra o fascismo. É mais conhecido por outro livro, um clássico “A revolução dos bichos”, uma fábula-crítica aos rumos do socialismo pelo qual lutou.

Em 1949 escreveu o romance “1984”, que foi recebido como ficção-científica, e o era para a época, mas que preconizava que nesse ano do título, a sociedade seria dominada pelo Grande Irmão (no original Big Brother), que monitoraria cada passo de todos os habitantes, com câmeras vigiando cada ambiente, ouvindo e vendo tudo. Não aconteceu em 1984, mas está muito próximo da nossa realidade. Essa foi a inspiração para o Big Brother, hoje um sucesso nas TVs do mundo inteiro.

Mas por que citar George Orwell? Porque era um visionário e tem duas frases perfeitas para os dias atuais que merecem uma reflexão. Vamos a elas:

”Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado."

“Numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário.”

Isso tem tudo a ver com a realidade que vivemos hoje no Rio de Janeiro. Muitos não percebem que a negação deliberada pela mídia, das realizações dos governos Garotinho e Rosinha, a tática, de todas as notícias boas dos dois governos serem ignoradas, ou, quando são citadas, o texto ser escrito de forma a induzir que a paternidade é de outro, é um método de manipulação tão maléfico quanto esconder os problemas e os desvios do momento. É o que George Orwell falava de controlar o passado e com isso poder manipular a população no futuro.

Não vou comparar pessoas, mas vou mostrar o maior exemplo dos riscos de controlar e manipular o passado. Estou lendo a biografia de Hitler, escrita pelo historiador inglês Ian Kershaw, um calhamaço de mais 1.000 páginas, que é considerada a obra definitiva sobre o líder nazista, sua ascensão, seu surgimento, os “dias de glória”, e finalmente a derrocada do Terceiro Reich.

Ninguém no meio acadêmico contesta que Hitler só se transformou em um líder da Alemanha, claro que por uma conjunção de fatores, mas um deles, primordial, foi a manipulação do passado da nação.

Havia um sentimento de revolta muito grande na Alemanha, que vinha de uma derrota humilhante na Primeira Guerra, a crise econômica e social devastando a nação, as famílias endividadas, e Hitler veio com o discurso da “escravidão dos juros”, termo repetido pela imprensa germânica, atribuindo todos os males da Alemanha aos judeus. O povo precisava de um bode expiatório, e Hitler, com o apoio da imprensa lhe deu. O resto da história todo mundo conhece.

Nos dias de hoje, o Brasil vem vivendo uma crise moral, a sociedade fazendo cobranças, se mostrando desalentada e desacreditando de tudo e de todos. Num cenário como esse, tendo o apoio da mídia, não é difícil criar um bode expiatório, que se tenta transformar em vilão de todos os males que nos afligem, e ao mesmo tempo, serve para desviar o foco do mar de lama do dia-a-dia.

É o caso do Rio de Janeiro, nos dias atuais, onde criaram o vilão do “populismo”, que leva a reboque Brizola, Garotinho e Rosinha, enfim qualquer um que tenha feito alguma coisa pelo povo. Como eles tiveram conquistas inegáveis, o jeito é escondê-las da população, vide o caso de Fernandinho Beira-Mar, na VEJA.

Garotinho na sua luta por sua justiça, para restabelecer a verdade e manter a sua honra; para provar a sua inocência prestou um inestimável serviço à democracia. Se tivessem conseguido destruí-lo por vias ilegítimas ou ilegais estaria aberto o caminho para depois destruírem outro adversário, e depois mais outro, até se livrarem de todos os incômodos. Não duvidem disso.

Vivemos tempos tenebrosos no Rio de Janeiro. Alguns leitores do blog, às vezes reclamam, dizem que Garotinho se preocupa demais em mostrar os erros e desvios do governo Cabral. Mas não se trata de obsessão. Onde mais certas verdades são noticiadas?

A mídia esconde, as entidades da sociedade civil andam mudas, muitas coisas só chegam ao domínio público porque este blog divulga e a notícia acaba se propagando. Várias denúncias sobre o governo Cabral, por mais que não tenham recebido o tratamento jornalístico adequado, dentro dos princípios da ética e da imparcialidade, mesmo sem o destaque devido, mas só vieram à tona porque Garotinho teve coragem de falar a verdade aqui no blog.

Um dia a sociedade vai descobrir quem são os verdadeiros vilões, mas já terá pago um preço alto por ter sido induzida ao erro. Mas a história está cheia de exemplos, que só muito tempo depois, sociedades descobrem que foram manipuladas, e heróis viram vilões e vice-versa.

Mas uma coisa é inegável. A frase de George Orwell proferida há mais de 60 anos está mais atual do que nunca, ainda mais se levarmos em conta a realidade política do Rio de Janeiro: “Numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário.” A que ponto chegamos!

Mas isso pouco importa para a maioria das pessoas, afinal logo mais tem formação de mais um paredão do BBB 11. E assim milhões vão ligar para votar nos “brothers”, muitos vão torcer por um ou por outro, debater em casa, na rua, no trabalho, enquanto o Brasil real está aí a nos assombrar. Mas como diz Zeca Pagodinho: “Deixa a vida me levar. Ó vida leva eu”...

http://www.blogdogarotinho.com.br/Default.aspx

Neoliberalismo levou a revoltas dos árabes


Para o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Williams Gonçalves, a crise política que abala, não apenas o Egito, mas grande parcela do mundo árabe, tem origem bem definida: a opção de alguns governantes da região pelo neoliberalismo.

"Esta crise é produto da economia. O Egito tinha um modelo semi-estatizado desde os anos 50, quando Nasser (Gamal Abdel Nasser, que governou o país entre 1952 e 1971) promoveu forte política nacionalista, fomentando o movimento pan-arabista, começou a modernização da indústria local, falando, inclusive, em socialismo árabe, mas que, na verdade, era um capitalismo de Estado", recorda Gonçalves, acrescentando que o algodão e a indústria têxtil são a base da produção egípcia.

Já Adhemar Mineiro, observador da Rede Brasileira Pela Integração dos Povos (Rebrip), sublinha que há elementos estruturais na crise, mas para entendê-la em profundidade não se pode perder de vista a rejeição popular às medidas liberalizantes: "Na Tunísia, a Central Sindical (IGBT) teve papel importante na derrubada do governo, que retirara subsídios à alimentação e aos combustíveis neste momento em que os preços das commodities dispararam", conta.

No Egito, o economista ressalta as mudanças liberalizantes feitas, especialmente, neste último período de Mubarak no poder, cuja inversão pode trazer conseqüências até para o Brasil.

"A corrente de comércio entre Brasil e Egito totalizou US$ 2 bilhões, em 2010. Não é um valor muito alto, mas é concentrado em commodities alimentares, como carne vermelha e frango, e minerais, como minério de ferro. Para esses setores, especificamente, é um volume bastante expressivo."

Fonte: Monitor Mercantil

http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=146983&id_secao=2

Sobre o “jeitinho” e as mazelas do “complexo de vira-lata” da mídia

                                     “E aqui eu pergunto: quem é disciplinado neste país? Eu próprio respondo: ninguém. De resto, se vamos tirar do brasileiro a indisciplina, que é uma das suas mais fidedignas características nacionais, ele perderá muito do seu charme, do panache”.
Nelson Rodrigues


Contra a autoridade, o jeitinho de afrontá-la
Basta ler um jornal ou assistir à imprensa televisiva que penso: esse pessoal está pensando que o mundo ideal é aquele habitado por robôs. Todo o tempo, o tom é de censura a tudo aquilo que não anda estritamente na linha, “como deve ser”, como se o ser humano fosse um boneco de corda, ou devesse ser.

A palavra “impunidade”, por exemplo, é repetida insistentemente por muitos jornalistas e, por conseguinte, por muitas pessoas que estão fora da tela, que acabam, em grande parte, escorando seu pensamento pelas mensagens midiáticas, repetindo isso sem pensar muito. Tudo indica que punir quem comete erros ou quem não anda estritamente na linha é a solução para a boa qualidade de vida. Certamente o é, numa civilização de autômatos.

Há, porém, um tempero que deve ser posto nessa conversa. Em primeiro lugar, não somos robôs ou bonecos e, assim sendo, cometemos erros acima da conta se tomado em conta esse parâmetro. Todos, sem exceção, descumprimos normas básicas de convivência, enganamos e mentimos, não cumprimos todas nossas obrigações nem amamos o próximo como imaginamos que deveríamos. Isso é bom? Certamente não, se considerarmos a lógica “democrática” e “cidadã” da imprensa. Mas, tem inegavelmente seu lado positivo.

Se, ao invés de ficar apontando erros, enganos, malversações ou pecados, pudermos abrir um pequeno espaço para pensar o que representam as manifestações que declinam do modelo aceito e oficializado, certamente aprenderíamos mais e poderíamos viver numa realidade bem melhor.

De dedo em riste, a cordialidade brasileira, significada pelas relações pessoais, é acusada pela mídia de todo e qualquer mal, indo desde a corrupção política até os favorecimentos diversos que ocorrem, e sempre ocorrerão, nesse e noutros níveis. Oculta-se, porém, que as relações “modernas” também são pessoais, tão ou mais do que as cordiais, apenas são marcadas por um discurso de impessoalidade que é estratégico para todo e qualquer poder. Não é à toa que existe o dito, muito usado em política: para os amigos, tudo; para os inimigos, o rigor da lei. Tomando isso em conta, o jeitinho é bem menos hipócrita.
Em primeiro lugar, é preciso entender que toda e qualquer contravenção está moldada pela regra desrespeitada e que, acima disso, porém, está o humano, que, principalmente se falamos do brasileiro, é essencialmente insatisfeito e efetivamente candidato a inúmeras falhas e afrontas às leis.
Este parece ser o modelo do cidadão para a grande imprensa


Há um motivo histórico para isso. A filósofa Fernanda Carlos Borges escreveu um livro chamado “A Filosofia do Jeito”, no qual conta que o tal “jeitinho brasileiro”, essencialmente opositor das normas impessoais da democracia europeia, tem origem exatamente no momento em que ocorre o processo de modernização industrial do Brasil. É que, naquele momento, as relações sociais, que antes eram estruturadas pela pessoalidade, começam a se modificar e se voltar para a impessoalidade – imparcialidade, segundo a autora.

A proposta “moderna” chega, assim, ao país e a grande imprensa, desde então, muito embora pareça ser frequentemente pouco impessoal ou imparcial, passa a adotar essa ideologia. De dedo em riste, a cordialidade brasileira, significada pelas relações pessoais, é acusada pela mídia de todo e qualquer mal, indo desde a corrupção política até os favorecimentos diversos que ocorrem, e sempre ocorrerão, nesse e noutros níveis. Oculta-se, porém, que as relações “modernas” também são pessoais, tão ou mais do que as cordiais, apenas são marcadas por um discurso de impessoalidade que é estratégico para todo e qualquer poder. Não é à toa que existe o dito, muito usado em política: para os amigos, tudo; para os inimigos, o rigor da lei. Tomando isso em conta, o jeitinho é bem menos hipócrita. 


Por que proibir o nosso "jeitinho"?


Mas, de certo modo, essa postura midiática é sustentada por algo que Nelson Rodrigues chamou de “Complexo de Vira-Lata”, que é uma espécie de vergonha de ser brasileiro. Essa vergonha está atada à noção de que somos muito pessoais e cordiais em nossas relações, o que significa um atraso, que somos, desse modo, um povo inferior ao europeu, absolutamente imparcial e frio. É realmente, um sentimento de inferioridade que parece acompanhar a subjetividade nacional e que a imprensa é o seu principal veículo, em vez de nos ajudar, fazendo-nos pensar se, afinal, somos piores que o chamado “mundo civilizado”, por não sermos iguais a ele.

Nelson Rodrigues nutria uma verdadeira admiração pelo brasileiro e tentava nos fazer ver que esse complexo é estúpido. Para ele, o brasileiro vive com intensidade, enquanto o europeu faz uma imitação da vida. É o que afirma no texto “Um Escrete de Loucos”, escrito em 1962, logo após a vitória brasileira na Copa do Mundo realizada no Chile.

“Aí está: no velho Mundo os sujeitos se parecem como soldadinhos de chumbo. A dessemelhança que possa existir de um tcheco para um belga, ou um suíço, é de feitio do terno ou do nariz. Mas o brasileiro não se parece com ninguém, nem com os sul americanos. Repito: o brasileiro é uma nova experiência humana.”

Mesmo que recuemos diante de tanta paixão, que a tomemos com cuidado e prevenção, é preciso pensar o quanto o Brasil, ou qualquer outro lugar do mundo, dá ensejo a práticas criativas que não necessariamente estão de acordo com os melhores princípios democráticos, principalmente se pensarmos que a democracia é apenas uma estrutura de poder, não pode ser um molde de produção de um humano ideal. E nunca é demais lembrar que um dos princípios democráticos é a abertura de espaço para a manifestação de todo e qualquer cidadão. Se tomarmos apenas o idealismo da proposta democrática, se ficarmos acusando quem não consegue se manifestar segundo as regras – na verdade, quem é pego fazendo isso, pois todos o fazem, vide a Fábula das Abelhas, de Mandeville – não entenderemos nada e acabaremos promovendo uma forma de vida pobre e infinitamente burra.

Dois ícones do "complexo de vira-lata": o jeitinho e o nordestino
A dessemelhança que possa existir de um tcheco para um belga, ou um suíço, é de feitio do terno ou do nariz. Mas o brasileiro não se parece com ninguém, nem com os sul americanos. Repito: o brasileiro é uma nova experiência humana (Nelson Rodrigues).
Cabe lembrar, novamente, que a contravenção está condicionada pela regra contrariada e que, mais que tudo, divergir, “fazer o errado”, é uma mensagem, uma forma de manifestação que ensina a todos os membros de uma cultura, que há tópicos e aspectos não satisfatórios nas regras, normas e leis, quando não são elas por inteiro que causam justificada insatisfação. Em suma, que há muitas coisas que devem ser repensadas e outras tantas que precisam mudar com certa urgência.

Além do mais, quem desrespeita um limite está, sem qualquer dúvida, afirmando a importância desse limite e, se deve ser tratado como tal na medida da punição, também precisa ter reconhecida a sua concordância fundamental com o que é desrespeitado. De certa forma, está contribuindo para a melhoria das leis, normas e regras diversas e, assim, dando também sua contribuição para a melhoria da cultura em que vive e, em última instância, reforçando a estrutura democrática que deve lhe garantir espaço de expressão dentro de seus canais. Se esse espaço não existe para todos, como ocorre na nossa realidade, há que se tolerar mais as manifestações fora dele. Afinal, como dito, elas ocorrem no grande espaço da cultura humana e, se tivermos humildade, podem ensinar algo.