quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O outro lado da democracia

Aproveitando as reflexões de fim de ano, transcrevo um artigo que escrevi há quatro anos, publicado no Observatório da Imprensa. O tema é a Democracia, essa tal que é recurso discursivo de tantos e que, na prática, acaba ficando nisso mesmo, no blá-blá-blá. 

Reli o texto e o acho atual, por isso tomo a liberdade de republicá-lo.

Abraços e felicidades no ano que vem chegando. 

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Um papo realmente cansativo

Por Luiz Geremias em 30/10/2006

Se há alguma coisa que realmente tem cansado é o constante recurso ao discurso democrático. A tal democracia é um discurso que paira sobre nós, e em momentos como o que vivemos, se põe na posição de denúncia de seu vazio.

No plano nacional, a imprensa, a tal "zeladora da democracia", calou durante oito anos de absurdos do governo do Fernando II, o chamado sucintamente de FHC. Nos quatro de Lula, foi sagaz em catar aqui e ali motivos para falar de corrupção. Não posso, aqui, neste momento, citar fartamente dados e fatos, mas basta lembrar a compra da reeleição e as escutas telefônicas que revelaram a armação na privatização de um setor da telefonia – se não me falha a memória –, no tempo do Fernando II, e o tal mensalão e o dossiê anti-Serra, nestes tempos de Lula. Se formos comparar a intensidade e a profundidade da cobertura midiática – falo principalmente dos grandes jornalões – vamos entender que a democracia tem suas nuances de acordo com interesses, que se manifestam economicamente. Se a zeladora age assim, o que esperar?

A democracia, na prática, é um discurso e uma estrutura que está tendo por fim proteger interesses dos que são, na matemática financeira, mais bem nutridos. Aqueles que, como lembrou Wright Mills, roubam em grande quantidade, mas de forma suave, de pouco em pouco, sem violência.
O xodó dos ordeiros

Se formos tomar a cobertura jornalística, principalmente da Globo, nas eleições do Paraná, estado no qual moro hoje, o assunto esquenta mais ainda, pois a Rede Paranaense de Televisão, a Globo local, abraçou desavergonhadamente a campanha de um dos concorrentes e, em vez de deixar isso claro, como seria de se esperar, não o fez: continuou com o cínico discurso da imparcialidade. O mesmo se pode dizer do jornal ligado a essa rede televisiva, a Gazeta do Povo.

A democracia, na prática, é um discurso e uma estrutura que está tendo por fim proteger interesses dos que são, na matemática financeira, mais bem nutridos. Aqueles que, como lembrou Wright Mills, roubam em grande quantidade, mas de forma suave, de pouco em pouco, sem violência.

Se formos pensar com acuidade, a tal democracia deveria significar igualdade de oportunidades em todos os campos, mas desde muito tempo sabemos que não é assim. Atenas tinha os cidadãos livres e tinha os que nem sequer cidadãos eram, incluindo as mulheres e os estrangeiros, que afinal foram aqueles que mais contribuíram para a revolução subjetiva ocorrida naquela cidade, lembrada e cantada em prosa e verso até hoje. A democracia é também o xodó do "partido da ordem", a classe média, e tudo o que esses partidários da ordem não querem é igualdade de oportunidades, ou melhor, a desejam, mas conforme as regras que não a permitam para a maioria. E a falta de sensibilidade com o sofrimento alheio, sofrimento dos mais prejudicados "democraticamente", é, com certeza, o maior dos problemas da sociedade ocidental de hoje, e produz o recrudescimento da violência urbana.

Quem tem manda, quem não tem, obedece... e não pode expressar sua opinião. O discurso democrático não deveria atentar para isso, acima de tudo?
Recorrência discursiva

O que tem cansado, nos dias de hoje, é principalmente o recurso discursivo a esse tema, a democracia. De que está se falando? De um discurso, que, como dissemos, paira sobre nós como uma referência organizativa? Tudo bem, mas se formos investigar a organização que esse discurso concretiza e justifica, francamente não há como ter ilusões. Fundamenta, na prática, o governo dos mais fortes política e economicamente, não o da maioria. A mídia, a "zeladora" tem, na sua maior parte, fundamentado esse governo, essa prática política. Fecha os olhos a alguns fatos, trata de forma acrítica outros, realça diversos conforme claros interesses que contrariam o princípio da igualdade de oportunidades discursadas pelos democratas. Nunca é demais lembrar um dos chefões da mídia brasileira, Assis Chateaubriand, que dizia aos repórteres que se quisessem ter opinião que comprassem um jornal. Quem tem manda, quem não tem, obedece... e não pode expressar sua opinião. O discurso democrático não deveria atentar para isso, acima de tudo?

Não se trata de propor um sistema político ou outro, não se trata de dizer que a democracia não nos serve. Trata-se, sim, de pensar, de questionar e de refletir sobre esse discurso, tão recorrente, que começa a denunciar seu próprio vazio. O importante é aprender com a experiência e essa tal experiência democrática pode nos ensinar muito, basta querer aprender. E não ficar preso à recorrência discursiva.


http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=405JDB010

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Aproveitando o final de ano para pensar

Fim de ano é tempo de pensar no que passou, ir adiante e lembrar do que foi bom ter vivido e nas dores provavelmente sentidas. Tenho certeza de que todo mundo, apesar do clima um tanto maníaco das festas desta época, acaba pensando um pouco, avaliando o vivido, ainda que no intervalo da beberança e comilança.

Aliás, tendo a pensar que quanto mais se bebe e se come neste momento, é possível que mais se pense, ainda que pelo avesso. Se não, para que tanta voracidade? Geralmente, quanto mais somos vorazes, é sinal de que mais temos registro do tempo que passou e o fazemos certamente para esquecer o que pensamos. Provavelmente, o que pensamos não nos agradou muito.

Somos incentivados a valorizar as boas aparências, os bons modos, os bons princípios, enquanto nos é permitido (aliás, também incentivado) sermos vis, torpes, deselegantes e detestáveis em nossa intimidade
De minha parte, tive um bom tempo de vida neste ano. Até mesmo uma cirurgia simples, mas dolorosa, ocorreu, mas me recuperei satisfatoriamente. Minha querida mãe também não andou bem, mas o peso de sua idade justifica certos dissabores pelos quais ela passa e que todos ainda vamos ter que passar, todos os que sobreviverem até onde ela chegou. Mas, todo e qualquer problema foi soterrado impiedosamente pela constatação de que vivo com a mulher que amo e pela realidade de que tenho dois filhos que me orgulham, um já com mais de vinte anos, que cursa duas faculdades e é crítico como convém a um intelectual, e uma pequena, bem pequena, que adora brincar e tem um vocabulário surpreendente para os seus três anos, o que lhe permite dizer coisas que surpreendem e encantam.

Não bebi neste Natal, como nunca o faço, pois considero o álcool uma droga insípida, incapaz de me satisfazer. Me surpreende negativamente que essa droga seja a única droga legalizada na sociedade ocidental. Aliás, minto, há inúmeras drogas lícitas, todas fabricadas em laboratórios, que são consumidas à profusão.

Experimente você ser absoluta e completamente ético em seu trabalho para ver o que vai lhe acontecer. Experimente o empresário respeitar a concorrência ou o consumidor. Não vamos ser hipócritas e continuar repetindo que é o oposto que ocorre
Comi o habitual, nada de mais. Acabei, talvez pela incapacidade de escapar por essas vias habituais de fuga, iniciando um processo de pensar no que tem sido a minha vida nesta sociedade que, na ausência de melhor designação, chamo genericamente de Ocidental, na expectativa de apreendê-la em um termo conceitual algo vago.

Sem hipocrisia

Penso que, em primeiro lugar, essa sociedade incentiva a que vivamos sob o parâmetro dos “vícios privados, benefícios públicos”, ao que, muitas vezes, trato como “vícios privados, virtudes públicas”, pois me parece que somos instados a agir sob a égide de uma lógica que determina que tenhamos uma boa aparência exterior, plena de nobres princípios, enquanto em nossa intimidade temos a “liberdade” de agir de forma torpe, contanto que ninguém disso saiba, é claro. Já bem disse o venerável Nelson Rodrigues que se conhecêssemos a intimidade uns dos outros, sequer nos cumprimentaríamos na rua.

Somos incentivados a valorizar as boas aparências, os bons modos, os bons princípios, enquanto nos é permitido (aliás, também incentivado) sermos vis, torpes, deselegantes e detestáveis em nossa intimidade. “Por fora, bela viola, por dentro, pão bolorento”, se diz nas ruas. Por fora, somos capazes de reconhecer que não estamos sós no mundo, que o outro merece respeito e consideração, tem uma existência autônoma em relação a nós e não pode se definir pelo intuito de nos satisfazer; por dentro, cremos fielmente que o outro existe para nossa satisfação, para fazer o que nós, apenas nós, achamos que deve ser feito. Na intimidade, a regra é que destilemos toda nossa bílis contra seja quem for que não corresponda ao que queremos.

Pensemos que tratamos os políticos como corruptos e dissolutos, mas, no fundo, sabemos que agem apenas de acordo com o que esperamos deles, já que nos representam não exatamente no parlamento, mas na posição de alvos nos quais atiramos a corrupção que não gostamos de ver em nós
Por fora, obtemos nosso sustento de forma briosa, trabalhando com afinco, cumprindo nossas obrigações com esmero. Nos porões de nossa alma, porém, intuímos que se fizermos o que aparentamos fazer "por fora", padeceremos atropelados pela nossa própria virtude, já que esta não passa de um terno alinhado que devemos usar para cultivar nossa boa índole aparente. Experimente você ser absoluta e completamente ético em seu trabalho para ver o que vai lhe acontecer. Experimente o empresário respeitar a concorrência ou o consumidor. Não vamos ser hipócritas e continuar repetindo que é o oposto que ocorre.

Cisão fundamental

O tal cidadão ocidental é, em princípio, um sujeito cindido entre o bem que exibe e o mal que oculta. Caminhando por aí, podemos entender o que lemos nas revistas, nos jornais, o que ouvimos no rádio e vemos na televisão. Todo o discurso jornalístico parece montado sobre essa cisão. Para que não precisemos falar de nossa torpeza, a imprensa costuma falar da dos outros, incentivando-nos a pensar e conversar de modo limitado, sem considerar toda a plenitude da realidade.

Pensemos que tratamos os políticos como corruptos e dissolutos, mas, no fundo, sabemos que agem apenas de acordo com o que esperamos deles, já que nos representam não exatamente no parlamento, mas na posição de alvos nos quais atiramos a corrupção que não gostamos de ver em nós. E, lembremos, corrupção não diz respeito apenas ao toma-lá-dá-cá de propinas, a subornos. Corrupção também é depravação de hábitos, de costumes, devassidão. Ora, não temos nada a ver com isso? É preciso muito cinismo para negar que temos, com raríssimas exceções ou sem nenhuma delas.

É por isso que bebemos e comemos tanto, via de regra não apenas no final do ano: pensar é doloroso, pois nos põe em contato conosco, com o “outro lado” que tentamos o tempo todo esconder dos demais
Corrupção é, também, segundo o dicionário do mestre Houaiss, “disposição apresentada por funcionário público de agir em interesse próprio ou de outrem, não cumprindo com suas funções, prejudicando o andamento do trabalho”. Tire-se o funcionário público e inclua-se o cidadão, o mesmo que lança pedras ao funcionário que assim age. Não é o cidadão que conhecemos exatamente aquele que age todo o tempo pensando em seus interesses próprios, que pratica a velha fórmula da “farinha pouca, meu pirão primeiro”? Não é essa a regra de ouro do liberalismo econômico? Não é disso o que a Fábula das Abelhas, de Mandeville, trata?

Dói, mas é preciso

Devemos aproveitar o final de ano para pensar. Devemos, na verdade, fazer isso o maior tempo possível. Assim, possivelmente, nos sentiremos mais humanos, mais próximos do nosso próximo, que, nessas circunstâncias apresentadas, é tão perigoso para nós quanto somos para ele. Isso, é claro, se conseguirmos pensar em nós mesmos pois, afinal, o que é o pensar se não nos voltarmos para nós? É por isso que bebemos e comemos tanto, via de regra não apenas no final do ano: pensar é doloroso, pois nos põe em contato conosco, com o “outro lado” que tentamos o tempo todo esconder dos demais. Não é apenas a imprensa que não enxerga o “outro lado”, pode ter certeza.

Mas, pensar é preciso, pois apenas nos aproximando de nós mesmos conseguimos compreender melhor o que nos cerca e, assim, podemos viver melhor.

domingo, 19 de dezembro de 2010

A vingança do mundo vigiado

Por Eugênio Bucci em 17/12/2010
 
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 16/12/2010; título original “WikiLeaks ou a vingança do mundo vigiado”, intertítulos do OI
 

Sorria, você está sendo filmado. Ou chore, você está sendo filmado.

A propósito, não é improvável que você esteja sendo filmado enquanto lê este artigo. Os seus hábitos de consumo estão catalogados em bancos de dados que são vendidos por aí. A marca de papel higiênico que você compra no supermercado faz parte da sua ficha pessoal em algum arquivo de marketing. Os exames do seu check-up, realizados naquele laboratório todo informatizado, bem, eles podem cair na rede. As chamadas do seu celular são rastreáveis, todas elas. A que horas você ligou para quem e de que lugar você chamou, tudo se sabe.

Pelas pesquisas que você faz no Google, os administradores podem levantar o seu rol de preferências, mesmo aquelas que você não gostaria de declarar em público. Os radares da cidade registram por onde você passeia de automóvel. As consultas que você faz na Amazon fazem parte do seu perfil, devidamente armazenado. Pelo seu cartão de crédito, podem saber os restaurantes em que você anda almoçando, os vinhos que você pede, a dieta que você segue. As portarias de prédios que você cruzou, as catracas que atravessou, os elevadores em que subiu ou desceu, tudo isso é sabido.

A propósito, não é improvável que você esteja sendo filmado enquanto lê este artigo.
E aqui não estamos falando de vírus espiões instalados em seu computador, das escutas encomendadas pelos rivais (amorosos, religiosos, políticos ou econômicos), mas apenas dos mecanismos supostamente lícitos pelos quais, como já foi dito, você está sendo filmado. Não é bem que a privacidade tenha diminuído de uns tempos para cá. A privacidade, nos moldes em que costumávamos imaginá-la, virou uma categoria impossível, irrealizável. A privacidade foi extinta pela História.

Caiu na rede

Mais ainda: no nosso tempo a vigilância se massificou. Todos da massa são potencialmente vigiados, o que, em lugar de incomodar, parece excitar o público. A bisbilhotice ganhou status de um gênero lucrativo da indústria do entretenimento, com os reality shows se disseminando como epidemia. Quanto à massa, além de usufruir a vigilância indiscreta, pratica alegremente o esporte de espionar os semelhantes. Câmeras instaladas em celulares fizeram de cada cidadão um agente voluntário a serviço da grande rede de vigilância global. O "Grande Irmão" não é mais o ditador imaginado por George Orwell, aquele que tudo via, protegido em seu bunker supertecnológico. Hoje, o "Grande Irmão" é a massa. Todo mundo bisbilhota todo mundo.

Não é bem que a privacidade tenha diminuído de uns tempos para cá. A privacidade, nos moldes em que costumávamos imaginá-la, virou uma categoria impossível, irrealizável. A privacidade foi extinta pela História.
Para chegar a esse estado passamos por duas grandes inversões. A primeira delas transformou o controle de presidiários numa forma de controle dos cidadãos. Há séculos o inglês Jeremy Bentham (1748-1832) imaginou uma prisão que permitiria aos carcereiros verificar a qualquer instante os movimentos de cada um dos prisioneiros. As celas seriam dispostas numa linha circular, alinhadas e empilhadas num imenso edifício arredondado. A parede externa desse edifício, aquela voltada para o lado de fora da circunferência, seria opaca, mas, e aí vem o detalhe perverso, a parede interna do edifício seria transparente, de tal modo que quem se postasse no miolo da prisão poderia ver, ao mesmo tempo, o interior de todas as celas. Por uma fresta em seu escritório central, o carcereiro veria todos, mas não seria visto pelos presidiários, que também não poderiam ver uns aos outros.

Muitos anos depois, como se sabe, o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) refletiu caudalosamente sobre esse sistema, identificando nele uma forma de dominação que extrapolaria em muito a penitenciária de Jeremy Bentham. O panóptico estaria presente em todos os campos sociais e, ao saber-se visível o tempo todo, o sujeito, solto ou encarcerado, não importa, estaria intimidado, controlado, perderia a sua privacidade, a sua liberdade, a sua espontaneidade.

O "Grande Irmão" não é mais o ditador imaginado por George Orwell, aquele que tudo via, protegido em seu bunker supertecnológico. Hoje, o "Grande Irmão" é a massa. Todo mundo bisbilhota todo mundo.
A segunda inversão tem um sabor de anedota: os vigiados, longe de se lamentar, entraram com tudo na brincadeira. Nas redes sociais, intimidades as mais improváveis roubam a cena; as pessoas encenam e vazam suas próprias privacidades. O exibicionismo e o voyeurismo digitais são a marca por excelência do século 21. Foi então que o voyeurismo, cansado de obscenidades da extinta vida privada, começou a explorar os segredos mais valiosos dos que bisbilhotam o planeta em nome dos governos mais poderosos da atualidade. Era inevitável: mais cedo ou mais tarde, a indústria da vigilância total cairia na rede ela também.

Caixas de Pandora

Dentro disso, qual a grande surpresa do WikiLeaks? Ora, ora, nenhuma.

Pelo WikiLeaks, a espionagem oficial, antes guardada pelos carimbos de "secreto" ou "confidencial" nos gabinetes diplomáticos, vai-se convertendo em divertimento planetário. A profusão dos documentos vazados e a irrelevância da imensa maioria das informações conferem ao circo um certo ar de banalidade, como se segredos de Estado não fossem lá grande coisa. E talvez não sejam mesmo. O WikiLeaks sobrevém, assim, como a vingança dos que não têm mais privacidade contra os que ainda se imaginavam controladores das privacidades dos comuns. Não há mais segredos bem guardados, nem mesmo na Casa Branca. O panóptico estilhaçou-se, caiu como a velha Bastilha. Reis e rainhas trafegam nus. Os esconderijos esfacelam-se.

Pelo WikiLeaks, a espionagem oficial, antes guardada pelos carimbos de "secreto" ou "confidencial" nos gabinetes diplomáticos, vai-se convertendo em divertimento planetário.
Nesse meio tempo, as reações do poder – econômico e político – contra o WikiLeaks revelam uma mentalidade pateticamente totalitária. Num jogo combinado, típico de coalizões militares, as instituições financeiras internacionais fecham o cerco. Governos agem de modo análogo. Será que esse pessoal acreditava que controlava a sociedade de modo tão absoluto?

Quem acreditou nisso errou. O WikiLeaks não é um site, mas uma possibilidade da era digital que se materializou num site. Outros virão. O vazamento indiscriminado vai continuar. Outras caixas de Pandora estão para cair. Que caiam.

http://observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=620IMQ023


O WikiLeaks sobrevém, assim, como a vingança dos que não têm mais privacidade contra os que ainda se imaginavam controladores das privacidades dos comuns. Não há mais segredos bem guardados, nem mesmo na Casa Branca. O panóptico estilhaçou-se, caiu como a velha Bastilha. Reis e rainhas trafegam nus.

A Folha tem razão: mensalão era para ser o impeachment

À esquerda da foto, Thomas Jefferson. À direita, amigos do peito
Paulo Henrique Amorim

A Folha (*) publicou um caderno especial sobre os 8 anos do Lula: “Crescimento, avanços sociais e escândalos”.

A primeira página já tinha ressalvas: “Lula entrega país melhor, mas (sic) imposto é record”.

Ah, as adversativas do PiG (**) !

Quando a notícia contradiz o editorial, o título tem sempre uma adversativa – lembrou a professora Marilena Chauí.

Sobre a comparação do Lula com o FHC, que a Folha (*) não faz, clique aqui para ver a tabelinha.

Lula dá de 10 a 0.

Mas … a Folha tem razão.

Ela divide o governo Lula em “AM” e “DM” – Antes do Mensalão e Depois do Mensalão.

O que tem o valor científico de dividir o governo Lula em “AGH” e “DGH” – antes do gol da Holanda e depois do gol da Holanda.

Ou seja, não vale nada.

Mas, significa muito.

A Folha (*) se jacta de ter levado Lula à beira do precipício – do impeachment.

Com o furo que o Thomas Jefferson resolveu dar a uma colonista (***) da Folha.

O furador procurou o autor do furo.

Uma invenção do PiG …

Jefferson tornou-se herói do PiG (**) ao denunciar o mensalão.

Mensalão que, como diz o Mino Carta, ainda está por provar-se.

Mas, a Folha tem razão: o mensalão foi a senha para o impeachment.

“Segunda feira é o batizado”: e saiu o PiG com a faca entre os dentes a pressionar os DEMO-Tucanos para o Golpe.

O Golpe poderia ter saído no momento em que o Duda Mendonça, na CPI dos Correios, confessou que recebia dinheiro lá fora.

Perfeito.

A Folha lançava o Golpe, Lula caía e os trabalhistas voltavam para o banco de trás.

Como se pretendia em 1932, na  brigada em que serviu o “seu Frias”.

O impeachment da Folha só não deu certo porque o Fernando Henrique o frustrou.

O FHC sempre pensa nele, primeiro.

Ele não queria correr o risco de o presidente José de Alencar dar certo.

Por isso, FHC impôs a Teoria do Sangramento, subsidiária da Teoria da Dependência.

Deixar o Lula sangrar e fazê-lo chegar um morto-vivo à eleição.

Lá, Fernando Henrique – e não Serra ou Alckmin – lá, FHC voltaria ao Poder nos braços do povo – e da Folha.

O sangramento não deu certo.

Também não deu certo, porque o Lula já ia para rua defender o mandato, com uns amigos que ele deixou no ABC.

E o Golpe tornou-se apenas um marco na História da Folha – o Golpe que a Folha quase deu.

Interessante que as 16 páginas do caderno “Os anos Lula, OK, mas …” não dediquem um parágrafo ao pré-sal.

Nem à maior operação de subscrição de ações da Historia do Capitalismo, a da Petrobras.

Nem à substituição do regime de concessão pelo regime de partilha.

Quando o petróleo começar a jorrar do pré-sal, a Petrobrás será 35% do PIB brasileiro.

A Folha, francamente, não entendeu nada dos “anos Lula, mas …”.

A Chevron e o Cerra entenderam.

Só que a Dilma, também.

A Folha até que é mais ou menos, mas …


Paulo Henrique Amorim


(*) Folha é um jornal que não se deve deixar a avó ler, porque publica palavrões. Além disso, Folha é aquele jornal que entrevista Daniel Dantas DEPOIS de condenado e pergunta o que ele achou da investigação; da “ditabranda”; da ficha falsa da Dilma; que veste FHC com o manto de “bom caráter”, porque, depois de 18 anos, reconheceu um filho; que avacalha o Presidente Lula por causa de um  comercial de TV; que publica artigo sórdido de ex-militante do PT; e que é o que é,  porque o dono é o que é; nos anos militares, a Folha emprestava carros de reportagem aos torturadores.

(**) Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.

(***) Não tem nada a ver com cólon. São os colonistas do PiG (**) que combatem na milícia para derrubar o presidente Lula. E assim se comportarão sempre que um presidente no Brasil, no mundo e na Galáxia tiver origem no trabalho e, não, no capital. O Mino Carta costuma dizer que o Brasil é o único lugar do mundo em que jornalista chama patrão de colega. É esse pessoal aí.


http://www.conversaafiada.com.br/pig/2010/12/19/a-folha-tem-razao-mensalao-era-para-ser-o-impeachment/?utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter

O idealismo de Alberto Dines e o "retrocesso" do Wikileaks

Wikileaks na vanguarda do retrocesso

Por Alberto Dines em 17/12/2010 - Observatório da Imprensa

"O Wikileaks é uma nova fronteira de democratização da comunicação usando a internet como meio", explica a jornalista Natália Viana, representante da badalada ONG no Brasil, em entrevista republicada por este Observatório da Imprensa (ver "Wikileaks e a nova fronteira da comunicação"). A colaboradora brasileira de Julian Assange não foi muito clara, em compensação foi prudente e evitou apresentar o site como veículo jornalístico.

Fez bem: o Wikileaks neste momento é um colossal tambor voltado para a divulgação de informes confidenciais. Convém reparar: informe não é informação, tanto no aspecto filológico como estratégico. Informe é algo rudimentar, sem forma, estágio anterior à informação, conjunto de dados analisados e acabados. Os documentos revelados por El País na quarta-feira (15/12) sobre a fortíssima hemorragia intestinal que quase tirou Fidel Castro do rol dos vivos, em meados de 2006, ilustram perfeitamente o tipo de material distribuído pelo Wikileaks.
O Wikileaks ofereceu um semifato (ou factóide) – esgarçado, diminuído, superado pelo tempo, que nas mãos de uma entidade verdadeiramente jornalística teria produzido uma detalhada e emocionante página da história contemporânea.
Velocidade e irrelevância

No dramático episódio, Fidel recusou submeter-se a uma colostomia que o obrigaria a usar por tempo indeterminado uma bolsa externa para a eliminação das fezes. É o que consta do informe do Departamento de Estado. A verdade é que, entrementes, Fidel resignou-se, usou a bolsa durante três anos (sempre disfarçada por roupas largas, tipo jogging), até que, depois de nova cirurgia, livrou-se dela e passou a se alimentar, vestir-se e atuar como antes.

O Wikileaks ofereceu um semifato (ou factóide) – esgarçado, diminuído, superado pelo tempo, que nas mãos de uma entidade verdadeiramente jornalística teria produzido uma detalhada e emocionante página da história contemporânea.

Com a ajuda dos Cinco Grandes, o Wikileaks está na vanguarda de um retrocesso distraindo o mundo com um ersatz de jornalismo, híbrido do cruzamento de velocidade com irrelevância. [Ersatz, do alemão "sucedâneo inferior"; termo criado durante o bloqueio naval aliado na Primeira Guerra Mundial, que obrigou os alemães a criar produtos substitutos sem qualidade.]

***

Em tempo 1: Em suas edições de quinta-feira (16/12), tanto o Globo como a Folha de S.Paulo (do grupo 5+2) não conseguiram acrescentar qualquer dado novo ao informe de 2006/2007 sobre Fidel, agora divulgado pelo Wikileaks. Ao contrário, tornaram-no ainda mais inconsistente.

Em tempo 2: o semanário inglês The Economist, primeira organização jornalística a premiar Julian Assange (em 2008), arrependeu-se e, no editorial da edição de 11-17 de dezembro, classifica seus vazamentos como "grande crime". Mas critica duramente os Estados Unidos por entrarem em outra guerra sem chance de ganhar.


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Wikileaks: uma admirável vanguarda do retrocesso

Luiz Geremias

Quando li pela primeira vez o artigo “Wikileaks na vanguarda do retrocesso“, de Alberto Dines, seguido dos comentários postados, fiquei tão fulo quanto os comentaristas que desancam o nobre jornalista. Minha primeira ideia foi perguntar ao Dines se ele acha que publicar “informes” que estavam ocultos, longe de nossos olhos e inteligência, seria um retrocesso. Se esses “informes”, que ilustram como o jogo funciona, como se articula o poder, seriam meras fofocas, “algo rudimentar, sem forma, estágio anterior à informação, conjunto de dados analisados e acabados”.

Cheguei a “entender” que Dines teria dito que a imprensa, principalmente a ligada às grandes corporações, tem o sadio hábito de fornecer informações analisadas e acabadas. Seriam os órgãos noticiosos, esses “bravos paladinos” da democracia, da objetividade e da isenção jornalística, que estariam nos informando do que acontece nos porões do poder, enquanto o Wikileaks só produz “factóides”?
Cheguei a “entender” que Dines teria dito que a imprensa, principalmente a ligada às grandes corporações, tem o sadio hábito de fornecer informações analisadas e acabadas.
Digo que me assustei, pois Alberto Dines é, para mim, uma referência. Explico melhor: foi uma referência com seus textos brilhantes nos tempos da ditadura militar, sob a qual cresci, revoltado por não ter acesso a nenhuma informação a não ser as que eram filtradas pelos censores. Ler jornal, naquela época, era um exercício nauseante, salvo apenas pelas mensagens cifradas que escapavam via alguns jornalistas. Ler jornal era oscilar entre a basbaquice e a fantasia, pois a gente imaginava que por trás de muitas daquelas notícias toscas poderia haver alguma informação codificada. Geralmente, não havia, mas a gente torcia para que houvesse, até para não desacreditar total e completamente da imprensa.

Nesse contexto, a inteligência com a qual Dines tratava de temas fundamentais para nós, os desinformados, era um bálsamo.
Estaria o Dines, minha referência em idos tempos, propondo que a imprensa, a grande imprensa, ultrapassando o informe rudimentar, vai além desse estágio anterior à informação, analisa e finaliza os dados para nos dar consciência da realidade?
Idos tempos

Mas, naquele tempo, os jornais eram censurados, como disse acima, e podíamos por a culpa pela desinformação na censura. A ditadura militar acabou e nós ficamos com a expectativa de que a partir de então tudo mudaria e os jornais levantariam os tapetes e poriam à nossa vista tudo o que acontecia “por baixo dos panos”, para que, como gente, mais do que como cidadãos, pudéssemos entender, refletir, deliberar e agir politicamente. Afinal, nessa tal democracia, esse é o papel da imprensa, fomentar o que Habermas chama de “esfera pública”, tema também tratado por Gabriel Tarde, muito antes. Ledo engano.

Acabou a ditadura militar, mas a ditadura das empresas começou, se pode dizer. É verdade que já havia esta última ditadura, mas estava oculta por trás da outra e somente com o fim do governo dos militares – patrocinado pelos Estados Unidos da América, o mesmo país que, hoje, se revolta com os “informes” do Wikileaks – é que pudemos ter a noção clara de quão pernóstica é essa ditadura empresarial.
Entendo que Dines afirma que, sendo toda a grande imprensa um emblema do atraso, o Wikileaks, com seus meros “informes”, coloca-se, neste momento, ainda que não seja jornalístico, na vanguarda desse atraso, esse retrocesso à superficialidade que, agora, marca o trabalho jornalístico.
Cheguei a questionar minha admiração pelo jornalista criador do Observatório da Imprensa. Estaria o Dines, minha referência em idos tempos, propondo que a imprensa, a grande imprensa, ultrapassando o informe rudimentar, vai além desse estágio anterior à informação, analisa e finaliza os dados para nos dar consciência da realidade? Mas, meu Deus, será que alguém pode acreditar nisso? Ainda mais o Dines?, questionei.

Bem, Alberto Dines merece toda a minha consideração. É desses profissionais que a gente respeita, mesmo quando, não se expressa bem. De modo que resolvi reler minuciosamente o artigo e creio ter entendido o que Dines quer dizer quando afirma que o Wikileaks está na vanguarda do retrocesso.
Dines, porém, é um daqueles idealistas que acredita, acima de tudo, no bom jornalismo e o vê como referência acima de todas as coisas.
Puro idealismo

Entendo que Dines afirma que, sendo toda a grande imprensa um emblema do atraso, o Wikileaks, com seus meros “informes”, coloca-se, neste momento, ainda que não seja jornalístico, na vanguarda desse atraso, esse retrocesso à superficialidade que, agora, marca o trabalho jornalístico. Se o Wikileaks não trabalha a informação, os veículos jornalísticos também não o fazem – e, completo, muitas vezes, seria melhor que não o fizessem, pois as tentativas têm sido trágicas. Como virou moda, o Wikileaks está exposto como vanguarda desse atraso. Acho que foi isso que Dines tentou dizer.

Segundo minha compreensão, Dines alerta para o fato de que a imprensa, a grande imprensa, na qual certamente muitos jornalistas tiveram, ou poderiam ter, acesso a essas informações que o Wilileaks divulga, não falou nada sobre esses temas, ou melhor, falou apenas depois que foram divulgados pelo site do sr. Assange. Então, esse site, sendo certamente um retrocesso jornalístico, pois não trata jornalisticamente do que divulga, saiu na frente de todos os outros órgãos jornalísticos, que, assim sendo, estariam na retaguarda do retrocesso.
Dines não parece enxergar, por exemplo, que essa tal democracia depende, sim, dessa “fofocagem” que o sr. Assange promove, desse “tambor” que ele toca. Se houvesse um pingo de confiança nos órgãos noticiosos tradicionais, provavelmente essas informações chegariam a eles. Pior é imaginar que talvez essas “fofocas” tenham chegado, muito antes, a esses órgãos e nem sequer foram mencionadas nos briosos textos jornalísticos.
Penso, assim, que Dines tece uma crítica, algo estouvada, a toda a imprensa, tomando por base a referência do site de Assange. A questão, é preciso objetar, é que não entendo o Wikileaks como um órgão que se pretenda jornalístico. Seu papel é, ao menos até o momento, o de mera denúncia, de trazer à tona as tripas do poder, incluindo as de Fidel Castro. Dines, porém, é um daqueles idealistas que acredita, acima de tudo, no bom jornalismo e o vê como referência acima de todas as coisas.

Todo idealista costuma enxergar bem além dos demais, mas também deixa de ver muitas coisas que estão diante do nariz. Dines não parece enxergar, por exemplo, que essa tal democracia depende, sim, dessa “fofocagem” que o sr. Assange promove, desse “tambor” que ele toca. Se houvesse um pingo de confiança nos órgãos noticiosos tradicionais, provavelmente essas informações chegariam a eles. O fato é que inexiste qualquer credibilidade desses veículos, por isso “retrocessos” como o Wikileaks existem. Pior é imaginar que talvez essas “fofocas” tenham chegado, muito antes, a esses órgãos e nem sequer foram mencionadas nos briosos textos jornalísticos.

Um golpe no idealismo de Dines é o fato de que toda a imprensa, grande e pequena, tem repercutido incessantemente os informes do Wikileaks, mas não tem acrescentado muita coisa a eles. Pelo menos é o que percebo e se Dines tem informações diferentes, bem poderia fornecê-las para nosso júbilo. Depois, uma coisa é publicar os “informes”, outra é analisá-los. Se há tantos problemas em apenas divulgá-los, imagine em apurá-los, principalmente para a “pequena” imprensa. Se Assange é perseguido por simplesmente publicá-los, faço ideia de como será quem resolver chafurdar nessa lama.
Geralmente, não se pode chamar de analítico a um texto publicado num grande jornal. Não há contextualização, não há respeito ao contraditório, não há “o outro lado”, não há, sequer, “este lado”, no fim das contas. Há muitos informes, muito denuncismo, muita sensação.
Bons exemplos

É verdade que há jornalistas admiráveis e há um jornalismo que tenta tratar de forma consistente a informação. Cito, de cabeça, o Greg Palast, que admiro, pois, efetivamente, tenta ir ao porão, decodificar o que vê e nos informar. Há, no Rio de Janeiro, o Leandro Uchoas, que tem publicado excelentes matérias, incluindo uma sobre a tal “guerra santa” no Complexo do Alemão, no qual explica detalhadamente o que verdadeiramente ocorre na governança do Sergio Cabral. Há outros e há órgãos jornalísticos – via de regra, nunca os da grande imprensa – que têm feito um esforço imenso para cumprir o seu papel de fornecer informações contextualizadas e concernentes. Mas, na nossa realidade, esses jornalistas e órgãos são pouco conhecidos e muito pouco lidos.

Mas, e o resto? O resto, respondo, acho que repercutindo o que Dines afirma, está cada vez mais retrocedendo na tarefa de informar. Nem sequer de informes trata e quando o faz “analisa-os” de acordo com os interesses das empresas jornalísticas, produz peças sensacionalistas, verdadeiros dramalhões jornalísticos. Isso, quando o faz, pois, geralmente, não se pode chamar de analítico a um texto publicado num grande jornal. Não há contextualização, não há respeito ao contraditório, não há “o outro lado”, não há, sequer, “este lado”, no fim das contas. Há muitos informes, muito denuncismo, muita sensação.

Tudo isso me leva a parabenizar o sr. Assange pela admirável posição de vanguarda do retrocesso. E dizer ao também admirável Dines que sua crença na imprensa, nas "entidades verdadeiramente jornalísticas", não pode lhe impedir de ver o que está diante de seu nariz.

Sonhos do avesso


Por Maria Rita Kehl

Dizem que Karl Marx descobriu o inconsciente três décadas antes de Freud. Se a afirmação não é rigorosamente exata, não deixa de fazer sentido desde que Marx, no capítulo de "O Capital" sobre o fetiche da mercadoria, estabeleceu dois parâmetros conceituais imprescindíveis para explicar a transformação que o capitalismo produziu na subjetividade.
Se a sociedade em que vivemos se diz "de mercado" é porque a mercadoria é o grande organizador do laço social.
São eles os conceitos de fetichismo e alienação, ambos tributários da descoberta da mais-valia – ou do inconsciente, como queiram. A rigor, não há grande diferença entre o emprego dessas duas palavras na psicanálise e no materialismo histórico. Em Freud, o fetiche organiza a gestão perversa do desejo sexual e, de forma menos evidente, de todo o desejo humano; já a alienação não passa de efeito da divisão do sujeito, ou seja, da existência do inconsciente. Em Marx, o fetiche da mercadoria, fruto da expropriação alienada do trabalho, tem um papel decisivo na produção "inconsciente" da mais-valia. O sujeito das duas teorias é um só: aquele que sofre e se indaga sobre a origem inconsciente de seus sintomas é o mesmo que desconhece, por efeito dessa mesma inconsciência, que o poder encantatório das mercadorias é condição não de sua riqueza, mas de sua miséria material e espiritual.

Se a sociedade em que vivemos se diz "de mercado" é porque a mercadoria é o grande organizador do laço social.

Não seria necessário recorrer a Marx e Freud para defender o caráter político das formações do inconsciente. Bastaria citar a frase "o inconsciente é a política", proferida por Lacan, que convocou os psicanalistas a se empenharem por "alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época". Mas insisto em recorrer aos clássicos para lembrar aos lacanianos extremados que a verdade não nasceu por geração espontânea da cabeça de Lacan.
Se o homem contemporâneo sofre do que [o psicanalista francês] Charles Melman chamou de falta de um centro de gravidade, é porque as referências tradicionais – Deus, pátria, família, trabalho, pai – pulverizaram-se em milhares de referências optativas, para uso privado do freguês.
Crise do sujeito

Se Freud fundou a psicanálise ao vislumbrar, no horizonte de sua época, as razões da insatisfação histérica, é nossa vez de tentar escutar o que mudou desde então, à medida que a norma produtiva/repressiva foi sendo substituída pela norma do gozo e do consumo.


Alguns sintomas, na atualidade, têm se tornado mais frequentes e mais incômodos do que as formas consagradas das neuroses e das psicoses no século passado. Hoje as drogadições, os transtornos alimentares, os quadros delinquenciais e as depressões graves desafiam os analistas a repensar a subjetividade. Isso não implica necessariamente que as antigas estruturas clínicas tenham se tornado obsoletas.
O "self-made man" dos primórdios do capitalismo deixou de ser o trabalhador esforçado e econômico para se tornar o gestor de seu próprio "perfil do consumidor" a partir de modelos em oferta no mercado.
O que encontramos hoje nos consultórios psicanalíticos é um novo sujeito? Ou são novas expressões sintomáticas que buscam responder ao velho conflito entre as pulsões e o supereu - este representante das interdições e das moções de gozo, no psiquismo? O sujeito contemporâneo está mais próximo do perverso, que sabe driblar a falta pelo uso do fetiche? Ou é ainda o neurótico comum que, em vez de tentar seguir à risca a norma repressiva, tenta obedecer a um mestre fetichista que lhe ordena a transgredir e gozar além da medida?

Por enquanto, tenho escutado, em média, neuróticos mais ou menos estruturados tentando corresponder à suposta normalidade vigente, a qual –esta sim – já não é mais a mesma nem do tempo de Freud, nem do de Lacan.
A antiga donzela angustiada com as manifestações involuntárias de sua sexualidade reprimida – lembrem-se de que Freud relacionou o tabu da virgindade e a moral sexual entre as causas do mal-estar, no início do século 20 – hoje se sente culpada por não usufruir tanto do sexo, das drogas e do "rock and funk" quanto deveria.
A "crise do sujeito", outra face da chamada "crise da referência paterna", corresponde, a meu ver, ao deslocamento e à pulverização das referências que sustentavam, até meados do século passado, a transmissão da lei. Não se trata da ausência da lei na atualidade, mas da fragilidade das formações imaginárias que davam sentido e consistência à interdição do incesto – a qual, desde Freud, é considerada condição universal de inclusão dos sujeitos na chamada vida civilizada, seja ela qual for.

Se o homem contemporâneo sofre do que [o psicanalista francês] Charles Melman chamou de falta de um centro de gravidade, é porque as referências tradicionais – Deus, pátria, família, trabalho, pai – pulverizaram-se em milhares de referências optativas, para uso privado do freguês.
As pessoas vivem culpadas por não conseguirem gozar tanto quanto lhes é exigido.
Culpa e frustração

O "self-made man" dos primórdios do capitalismo deixou de ser o trabalhador esforçado e econômico para se tornar o gestor de seu próprio "perfil do consumidor" a partir de modelos em oferta no mercado. Cada um tem o direito e o dever de compor a seu gosto um campo próprio de referências, de estilo, de ideais. Aparentemente, não devemos mais nada ao pai e ao grupo social a que pertencemos, dos quais imaginamos prescindir para saber quem somos.

Este aparente apagamento da dívida simbólica não nos tornou menos culpados; ao contrário: hoje escutamos pessoas que se dizem culpadas de tudo. Não citarei, em hipótese alguma, falas dos que se analisam comigo: daí o caráter ligeiramente caricato dos exemplos que se seguem, como expressões genéricas da transformação que o mercado produziu nos discursos.
A resposta à dor psíquica não é buscada pela via da palavra, mas pelo consumo abusivo dos psicofármacos que prometem adicionar a substância faltante ao psiquismo deficitário. O remédio age em lugar do sujeito, que não se vê responsável por seu desejo e por suas escolhas.
A antiga donzela angustiada com as manifestações involuntárias de sua sexualidade reprimida – lembrem-se de que Freud relacionou o tabu da virgindade e a moral sexual entre as causas do mal-estar, no início do século 20 – hoje se sente culpada por não usufruir tanto do sexo, das drogas e do "rock and funk" quanto deveria. O obsessivo escrupuloso, acossado por fantasias perversas, agora se queixa de seu bom comportamento: queria ser um predador sem escrúpulos, eliminar os rivais, abusar sem pudor das mulheres.

As pessoas vivem culpadas por não conseguirem gozar tanto quanto lhes é exigido. Culpadas por não alcançar o sucesso e a popularidade instantâneos, por perderem tempo em sessões de análise – culpados por sofrer. O sofrimento não tem mais o prestígio que lhe conferia o cristianismo. Sofrer não redime a dívida; ao contrário, reduplica os juros.
A vida é um empreendimento cujos resultados devem ser garantidos desde os primeiros anos (...)O universo amoroso ou familiar que substitui o espaço público como gerador de valores está totalmente atravessado pela linguagem da eficiência comercial.
Sem recurso à referência a autoridades repressivas que faziam obstáculo aos prazeres, as pessoas têm dificuldades em justificar seus sintomas. Não encontram a quem endereçar suas queixas ou apoiar seus ideais.

"Meus pais são amigos, meus professores são legais, ninguém me impõe ou me impede nada: eu sou um otário porque não consigo ser feliz". O sentimento de culpa, como escreve [o sociólogo francês Alain] Ehrenberg, tomou a forma de sentimento de insuficiência. Assim, a resposta à dor psíquica não é buscada pela via da palavra, mas pelo consumo abusivo dos psicofármacos que prometem adicionar a substância faltante ao psiquismo deficitário. O remédio age em lugar do sujeito, que não se vê responsável por seu desejo e por suas escolhas.

Não se concebe a vida como um percurso de risco que inclui altos e baixos, incertezas, acertos, dúvida, sorte, acaso. A vida é um empreendimento cujos resultados devem ser garantidos desde os primeiros anos – daí o surgimento de uma geração de crianças de agenda cheia de atividades preparatórias para a futura competição por uma vaga promissora no mercado de trabalho.
A falta de objeto que caracteriza a atração erótica parece ter sido ofuscada pela onipresença de imagens sexuais nos outdoors, na televisão, nas lojas, nas revistas – por onde olhe, o sujeito se depara com o sexual desvelado que se oferece e o convida.
Não por acaso, essas mesmas crianças estarão mais predispostas à depressão na adolescência, esvaziadas de imaginação, de vida interior, de capacidade criativa. O universo amoroso ou familiar que substitui o espaço público como gerador de valores está totalmente atravessado pela linguagem da eficiência comercial. "Quem vai olhar para um modelo fora de linha como eu?" "Como promover a otimização de meus finais de semana?" "Fiz as contas: com o que gastei na análise de meu filho já poderia ter trocado de carro duas vezes" (nesse caso, o analista sente-se tentado a sugerir que, de fato, ficaria mais em conta trocar de filho).

Vale ainda mencionar o estranho silêncio, nos consultórios dos analistas, em torno do eterno mistério do desejo e da diferença sexual. A falta de objeto que caracteriza a atração erótica parece ter sido ofuscada pela onipresença de imagens sexuais nos outdoors, na televisão, nas lojas, nas revistas – por onde olhe, o sujeito se depara com o sexual desvelado que se oferece e o convida. 
As fantasias sexuais são todas prêt-à-porter.
As fantasias sexuais são todas prêt-à-porter. Seria ok, se o suposto desvelamento do mistério não produzisse sintomas paradoxais. O tédio, em primeiro lugar, entre jovens que se esforçam desde cedo para dar mostras de grande eficiência e voracidade sexuais. As intervenções cirúrgicas no corpo, de consequências por vezes bizarras, em rapazes e moças que pensam que a imagem corporal perfeita seja a solução para o mistério que mobiliza o desejo.

A reificação do sujeito identificado como mais uma mercadoria se revela no medo generalizado de não agradar. O mistério do desejo persiste, assim como não deixa de existir o inconsciente: mas é como se suas manifestações não interrogassem mais os sujeitos.

MARIA RITA KEHL é psicanalista e ensaísta, autora de "O Tempo e o Cão" (ed. Boitempo).

Fonte: Folha de São Paulo (06/09/2009) via http://criticadialetica.blogspot.com/