terça-feira, 30 de novembro de 2010

João Pedro Stédile: ''EUA são os maiores terroristas do mundo''

O documento da inteligência norte-americana vazado pelo website Wikileaks e que menciona o MST (Movimento dos Sem-Terra) é, para um dos maiores líderes da entidade, uma prova da ingerência dos Estados Unidos nos assuntos internos do Brasil e da América Latina. Para João Pedro Stédile, um dos coordenadores nacionais do movimento, a mensagem diplomática que trata os sem-terra como um "obstáculo" para a criação de uma legislação antiterrorista no Brasil "revela, infelizmente, como o governo dos EUA continua tratando os países da América Latina como meras colônias que devem obedecer e serem orientadas".
"No passado, eles criaram a paranoia da União Soviética, depois dos inimigos internos e, agora, querem transformar toda luta social em luta terrorista".
"É evidente que as pressões do governo dos EUA, tentando influenciar governos democráticos e progressistas a aderirem à sua sanha paranóica de terrorismo, visa criminalizar e controlar qualquer movimento de massas que lute por seus direitos e que ocasionalmente representem manifestações contra os interesses das empresas estadunidenses", disse Stédile em entrevista ao Opera Mundi nesta terça-feira (30/11).

O coordenador do MST acredita que a criação de uma lei "antiterrorista" poderia ser usada, na verdade, para perseguir os movimentos sociais, o que seria uma estratégia deliberada de Washington.

"No passado, eles criaram a paranoia da União Soviética, depois dos inimigos internos e, agora, querem transformar toda luta social em luta terrorista".

Para ele, o fato de o diplomata norte-americano Clifford Sobel, ex-embaixador dos EUA no Brasil, ter mencionado o MST como um entrave à criação de leis antiterrorismo no Brasil revela uma intromissão externa na política brasileira que, em seu lugar, os próprios EUA considerariam inaceitável.

"O Estado norte-americano comete todo tipo de crimes contra a humanidade, possui mais de 800 bases militares em todo o mundo, financia e pratica golpes de Estado, como o que destituiu recentemente o presidente Manuel Zelaya; mantêm dezenas de prisioneiros sem nenhum amparo das Nações Unidas em Guantánamo; atacaram o Iraque e lá mataram mais de 300 mil civis apenas para controlar o petróleo, já que se comprovou a mentira das armas químicas; atacaram o Afeganistão com a desculpa da busca por Bin Laden, que sempre foi amigo da família Bush; e, pior, financiam toda a sua máquina de guerra emitindo dólares sem controle, como uma moeda internacional, a que todos os países do mundo têm de se submeter".
"Imaginem uma situação contrária, em que o embaixador brasileiro em Washington chamasse o diretor da CIA para propor novas leis que beneficiassem os imigrantes latinos ou qualquer outro assunto. Certamente, seria expulso do país em poucas horas", comentou.

Máquina de guerra

De acordo com Stédile, a intromissão norte-americana em outros países "é um absurdo e atenta contra todo os direitos democráticos", e que o vazamento de documentos sigilosos desta semana feito pelo Wikileaks pode ajudar a "opinião pública internacional" a denunciar e fazer parar a "máquina de guerra" dos EUA.

"Todos sabemos que o governo e o Estado do EUA são na atualidade o maior terrorista do mundo", afirmou Stédile. "O Estado norte-americano comete todo tipo de crimes contra a humanidade, possui mais de 800 bases militares em todo o mundo, financia e pratica golpes de Estado, como o que destituiu recentemente o presidente Manuel Zelaya; mantêm dezenas de prisioneiros sem nenhum amparo das Nações Unidas em Guantánamo; atacaram o Iraque e lá mataram mais de 300 mil civis apenas para controlar o petróleo, já que se comprovou a mentira das armas químicas; atacaram o Afeganistão com a desculpa da busca por Bin Laden, que sempre foi amigo da família Bush; e, pior, financiam toda a sua máquina de guerra emitindo dólares sem controle, como uma moeda internacional, a que todos os países do mundo têm de se submeter".

http://operamundi.uol.com.br/noticias_ver.php?idConteudo=7933&utm_source=twitterfeed&utm_medium=twitter

Violência é caso para inteligência

(Enquanto o secretário de Segurança carioca fala de inteligência, mas parece  demonstrar não possuí-la, o deputado estadual Marcelo Freixo, do PSOL do Rio, mostra sensatez e aborda o problema com muita inteligência. Aliás, embora jamais tenha votado em ninguém do PSOL, observei, nas últimas eleições, que os candidatos desse partido demonstraram ter essas qualidades ao tratar de temas polêmicos e geralmente tratados de forma bisonha pelos profissionais da política. O candidato ao governo do Paraná, por exemplo, embora sofresse claramente de falta de carisma, conseguiu deixar os favoritos com cara de bobos ao dizer que eles só falavam de hospitais quando o assunto é saúde e falar de hospital, nesse caso, não é falar de saúde. 

Vale a pena ler este texto do deputado Marcelo Freixo, aparentemente uma transcrição de um pronunciamento na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro.

E é importante lembrar que o desrespeito com o qual o governo carioca trata do assunto segurança é ultrajante, pois demonstra falta de inteligência ou - não quero crer, mas é preciso levantar a hipótese - excesso de mau-caratismo)

Violência é caso para inteligência

Marcelo Freixo

Quero conversar com os demais deputados para chamar a atenção para algumas coisas que fogem a obviedade. É claro que a situação no Rio é uma situação delicadíssima, inaceitável. Todos nós sabemos disso, mas cabe ao Parlamento um debate um pouco mais profundo, do que necessariamente faz, ou fazem os meios de comunicação. E, nesse sentido, quero pontuar algumas coisas. Primeiro, a venda fácil da imagem de que o Rio de Janeiro está em guerra. Quero questionar essa ideia de que o Rio está em guerra.
Quantas vezes a polícia do Rio de Janeiro, em parceria com a Polícia Federal, em parceria com a Marinha, em parceria com quem quer que seja, fez ações de enfrentamento ao tráfico de armas na Baía de Guanabara? Quantas vezes a Baía de Guanabara foi palco das ações de enfrentamento ao tráfico de armas e ao tráfico de drogas? Nunca!
Primeiro, que as imagens, as armas, o número de mortos, tudo isso poderia nos levar a uma conclusão da ideia de uma guerra. Mas, qual é o problema de nós concluirmos que isso é uma guerra, de forma simplista? Não há elemento ideológico: não há nenhum grupo buscando conquistar o estado. Não há nenhum grupo organizado que busca a conquista do poder por trás de qualquer uma dessas atitudes. As atitudes são bárbaras, são violentas, precisam ser enfrentadas, mas daí a dizer que é uma guerra, traz uma concepção e uma reação do Estado que, em guerra, seria matar ou morrer. Numa guerra a consequência e as ações do Estado são previstas para uma guerra. Hoje, inevitavelmente, o grande objetivo é eliminar o inimigo e talvez as ações do Estado tenham que ser mais responsáveis e mais de longo prazo.

É preciso lembrar que existem outras coisas importantes que temos que pensar neste momento. Primeiro, não precisa ser nenhum especialista para imaginar que as ações das UPPs teriam essa consequência em algum momento. Não precisa ser especialista para fazer essa previsão. Era óbvio que em algum momento, ou no momento da instalação, quando não houve, ou num momento futuro, uma reação seria muito provável. Então, era importante que o governo estivesse um pouco mais preparado para esse momento. Dizer que está sendo pego de surpresa porque no final do ano está acontecendo isso não me parece algo muito razoável, porque era evidente que isso poderia acontecer.
A gente precisa interromper um processo hipócrita antes de debater qualquer saída de Segurança Pública.
Neste sentido, seria fundamental que, junto com a lógica das ocupações – eu não vou aqui debater sobre as UPPs, mas tenho os meus questionamentos –, acontecesse o incremento de um serviço de inteligência. Na verdade, o governo do Rio de Janeiro investe muito pouco no serviço de inteligência da polícia, investe muito pouco na estrutura de inteligência.

Vou dar um exemplo. Quem quer visitar a Draco, a Delegacia de Repressão ao Crime Organizado, portanto, uma delegacia estratégica? Se alguém tem alguma dúvida de que a Segurança Pública não faz investimento nos lugares devidos, vá a essa delegacia, que deveria ser muito bem equipada e estruturada, com boa equipe, bem remunerada, com bons instrumentos. Essa delegacia é uma pocilga, é um lixo! Ela fica nos fundos da antiga Polinter, na Praça Mauá, sem qualquer condição de trabalho para os policiais. Estou falando da Draco, da Delegacia de Repressão às Ações do Crime Organizado, uma das mais importantes que tem o Rio de Janeiro.
Essa juventude do varejo da droga nunca se organizou em movimento de igreja; nunca se organizou em movimento estudantil - até porque nem para escola boa parte foi -, nunca se organizou em movimento sindical; não é uma juventude que tem uma tradição, uma cultura de organização, não tem. Agora, querer achar que eles passam a se organizar e organizar muito bem, que representam o tráfico internacional?  É uma tolice.
Não adianta a Segurança Pública ser instrumento de propaganda política quando, na verdade, os investimentos mais importantes e necessários não são feitos nos lugares corretos, não atendem aos lugares corretos. Se o Governo do Estado do Rio de Janeiro investisse na produção de inteligência e na inteligência da ação policial, certamente, muito do que está acontecendo – não totalmente, para ser honesto, mas muito do que está acontecendo – poderia ser previsto. A ação poderia ser mais preventiva do que reativa.

As ações emergenciais diante uma situação como essa, é evidente que precisam ser tomadas. É evidente que a polícia tem que ir para rua, é evidente que você tem que ter uma atenção maior, tem que haver a comunicação com o Secretário permanente com a sociedade, isso ele está fazendo, eu acho que é um mérito, acho que ele não está fugindo do problema, está debatendo, isso é importante. Mas nós temos também que perceber nesse momento o que não funcionou porque não adianta nesse momento a gente falar: “a culpa é da bandidagem”, isso me parece um tanto quanto óbvio, mas, o que de responsabilidade tem no Poder Público que falhou e que não pode mais falhar? Uma boa parte dos prisioneiros do chamado “varejo da droga” foi transferida para Catanduvas, o que, diga-se de passagem, é um atestado de incompetência do nosso sistema prisional que transfere para Catanduvas, porque no Rio de Janeiro a gente não consegue manter os bandidos presos, afinal de contas, há uma série de problemas: de limitações, de uma corrupção incontrolável... agora, transfere para Catanduvas e aí a solução e o diagnóstico dados pela Secretaria de Segurança é que partiu de Catanduvas a ordem para que tudo isso aconteça. Enfim, agora que o problema é de Catanduvas, a gente transfere os delinquentes para Marte?

Então, qual é a solução? O que está acontecendo de fato nesse momento? Essa juventude do varejo da droga nunca se organizou em movimento de igreja; nunca se organizou em movimento estudantil - até porque nem para escola boa parte foi -, nunca se organizou em movimento sindical; não é uma juventude que tem uma tradição, uma cultura de organização, não tem. Agora, querer achar que eles passam a se organizar e organizar muito bem, que representam o tráfico internacional?  É uma tolice. Essa juventude é uma juventude violenta que só entende a lógica da barbárie e é com a barbárie que eles estão reagindo a essa situação que está colocada no Rio de Janeiro, está longe, muito longe de ser o verdadeiro “crime organizado”.
Agora, transfere para Catanduvas e aí a solução e o diagnóstico dados pela Secretaria de Segurança é que partiu de Catanduvas a ordem para que tudo isso aconteça. Enfim, agora que o problema é de Catanduvas, a gente transfere os delinquentes para Marte?
Fica uma pergunta: quantas vezes a polícia do Rio de Janeiro, em parceria com a Polícia Federal, em parceria com a Marinha, em parceria com quem quer que seja, fez ações de enfrentamento ao tráfico de armas na Baía de Guanabara? Quantas vezes a Baía de Guanabara foi palco das ações de enfrentamento ao tráfico de armas e ao tráfico de drogas? Nunca! Não é feito porque não interessa o enfrentamento ao tráfico de armas, o que interessa é o enfrentamento aos lugares pobres, que são mais fáceis, mais vulneráveis para que essa coisa aconteça, e ficam “enxugando gelo”. Quem é que vende esse armamento para esses lugares? São setores que passam por dentro do próprio Estado, todo mundo sabe disso. A gente precisa interromper um processo hipócrita antes de debater qualquer saída de Segurança Pública. Nós temos que, nesse momento de grave crise do Rio de Janeiro, discutir as políticas públicas de Segurança que não estão funcionando. Não dá para o Governo chegar agora e dizer: “está ruim porque está bom”, “está um horror porque estão reagindo a algo que está muito bom”. É pouco e irresponsável diante do que a população está passando. Nós temos que, neste momento, ser honestos e mais republicanos e admitir onde falhamos para que possamos avançar, num debate que não pode ser partidário, mas responsável, com a população do Rio de Janeiro.

http://www.marcelofreixo.com.br/site/noticias_do.php?codigo=114

Marcelo Freixo: Não haverá vencedores


Eles estão com armas nas mãos e as cabeças vazias. Não defendem ideologia. Não disputam o Estado. Não há sequer expectativa de vida.

Só conhecem a barbárie. A maioria não concluiu o ensino fundamental e sabe que vai morrer ou ser presa.

As imagens aéreas na TV, em tempo real, são terríveis: exibem pessoas que tanto podem matar como se tornar cadáveres a qualquer hora. A cena ocorre após a chegada das forças policiais do Estado à Vila Cruzeiro e ao Complexo do Alemão, zona norte do Rio de Janeiro.
Pode parecer repetitivo, mas é isso: uma solução para a segurança pública do Rio terá de passar pela garantia dos direitos dos cidadãos da favela
O ideal seria uma rendição, mas isso é difícil de acontecer. O risco de um banho de sangue, sim, é real, porque prevalece na segurança pública a lógica da guerra. O Estado cumpre, assim, o seu papel tradicional. Mas, ao final, não costuma haver vencedores.

Esse modelo de enfrentamento não parece eficaz. Prova disso é que, não faz tanto tempo assim, nesta mesma gestão do governo estadual, em 2007, no próprio Complexo do Alemão, a polícia entrou e matou 19. E eis que, agora, a polícia vê a necessidade de entrar na mesma favela de novo.

Tem sido assim no Brasil há tempos. Essa lógica da guerra prevalece no Brasil desde Canudos. E nunca proporcionou segurança de fato. Novas crises virão. E novas mortes. Até quando? Não vai ser um Dia D como esse agora anunciado que vai garantir a paz.

Essa analogia à data histórica da 2ª Guerra Mundial não passa de fraude midiática.
Dezenas de jovens pobres, negros, armados de fuzis, marcham em fuga, pelo meio do mato. Não se trata de uma marcha revolucionária, como a cena poderia sugerir em outro tempo e lugar.
Essa crise se explica, em parte, por uma concepção do papel da polícia que envolve o confronto armado com os bandos do varejo das drogas. Isso nunca vai acabar com o tráfico. Este existe em todo lugar, no mundo inteiro. E quem leva drogas e armas às favelas?

É preciso patrulhar a baía de Guanabara, portos, fronteiras, aeroportos clandestinos. O lucrativo negócio das armas e drogas é máfia internacional. Ingenuidade acreditar que confrontos armados nas favelas podem acabar com o crime organizado. Ter a polícia que mais mata e que mais morre no mundo não resolve.
Quem dera houvesse, como nas favelas, só 1% de criminosos nos parlamentos e no Judiciário...
Falta vontade política para valorizar e preparar os policiais para enfrentar o crime onde o crime se organiza - onde há poder e dinheiro. E, na origem da crise, há ainda a desigualdade. É a miséria que se apresenta como pano de fundo no zoom das câmeras de TV. Mas são os homens armados em fuga e o aparato bélico do Estado os protagonistas do impressionante espetáculo, em narrativa estruturada pelo viés maniqueísta da eterna "guerra" entre o bem e o mal.

Como o "inimigo" mora na favela, são seus moradores que sofrem os efeitos colaterais da "guerra", enquanto a crise parece não afetar tanto assim a vida na zona sul, onde a ação da polícia se traduziu no aumento do policiamento preventivo. A violência é desigual.

É preciso construir mais do que só a solução tópica de uma crise episódica. Nem nas UPPs se providenciou ainda algo além da ação policial. Falta saúde, creche, escola, assistência social, lazer.

O poder público não recolhe o lixo nas áreas em que a polícia é instrumento de apartheid. Pode parecer repetitivo, mas é isso: uma solução para a segurança pública terá de passar pela garantia dos direitos básicos dos cidadãos da favela.

Da população das favelas, 99% são pessoas honestas que saem todo dia para trabalhar na fábrica, na rua, na nossa casa, para produzir trabalho, arte e vida. E essa gente -com as suas comunidades tornadas em praças de "guerra"- não consegue exercer sequer o direito de dormir em paz.

Quem dera houvesse, como nas favelas, só 1% de criminosos nos parlamentos e no Judiciário...

Deputado estadual (PSOL-RJ), presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Artigo extraído do jornal Folha de São Paulo, domingo (28)


----------------------------------------------------


Complexo do Alemão era o coração do mal, diz secretário de Segurança do Rio


Francamente, senhor secretário. Parece que W. Bush fez escola no Rio de Janeiro. Lamentável. E são pessoas como essa que costumam falar de "inteligência".

O que houve na França vai mudar a nossa dança?


http://ivandilsonmiranda.zip.net/images/18_-_A_crise_nos_EUA.jpg
A cada dia, fica mais evidente que estamos assistindo a uma segunda etapa da crise do capitalismo

Editorial Brasil de Fato, ed. 404

De Paris a Berlim, de Lisboa a Dublin, de Vilnius a Bucareste, de Londres a Roma. As manifestações e as greves multiplicam-se.

A cada dia, fica mais evidente que estamos assistindo a uma segunda etapa da crise do capitalismo. Os acontecimentos europeus, com a falência da dívida pública da Grécia e de outros países, deixam claro que seguiremos enfrentando uma crise profunda e prolongada.
As pressões da burguesia serão imensas. A grande mídia já começa a pautar os velhos analistas do receituário neoliberal: redução de gastos públicos, reforma previdenciária, redução de direitos trabalhistas. O mesmo discurso com os mesmos argumentos.
Como já afirmamos em outros momentos, estamos diante de uma crise de superprodução. Na essência, trata-se da tendência do capitalismo de produzir um desenfreado aumento da capacidade produtiva em busca de lucro, ultrapassando seus próprios limites e engendrando, contraditoriamente, o declínio da taxa de lucro, implicando na diminuição do ritmo de acumulação, no desemprego dos trabalhadores e na própria destruição e desvalorização de capital como remédio.

Os remédios tradicionais vão rapidamente revelando-se insuficientes. Os estados mobilizaram seus bancos centrais, normalmente responsáveis pela reserva de liquidez no movimento de pagamentos entre os bancos comerciais, para criar créditos e dispor de suficiente liquidez monetária. Isso já não basta. Num primeiro momento, os recursos financeiros dos bancos centrais substituíram o gigantesco ganho dos bancos. Mas esse dinheiro não pode substituir o dinheiro dos bancos enquanto meio de pagamento entre eles. Além disso, tanto capital fictício não pode fazer grande coisa no sentido da produção. Não existia tanto dinheiro nos cofres para enfrentar uma crise de proporções crescentes.
Ressurgem, na agenda política, as pressões capitalistas para que os estados reduzam seus gastos sociais e aumentem a exploração sobre os trabalhadores. Volta a entrar em cena a receita neoliberal: diminuição dos salários e dos benefícios para os trabalhadores, cortes de gastos públicos, aumento dos juros.
Acrescentemos, ainda, um agravante. No caso europeu, existe um único banco central continental, que define a política monetária para um conjunto muito desigual de tesouros nacionais. Esse é o cenário dos atuais movimentos especulativos que se voltam para as economias mais frágeis do continente europeu, como Grécia, Irlanda e Portugal. Como o euro é a moeda comum da Comunidade Europeia, não pode ocorrer a bancarrota de um Estado membro: ela provocaria um efeito dominó – a queda do primeiro país seria acompanhada pela queda de outros. Isso explica a reação da Comunidade Europeia ao garantir um enorme crédito para a Grécia. Então, é hora de definir quem vai pagar a conta. Os governos promovem arrocho de gastos sociais e atacam as regras previdenciárias.

É neste momento crucial que ocorre o fracasso da reunião do G20! O fiasco pode ser medido pelo vago comunicado final dos presidentes das 20 principais potencias econômicas. Entre as poucas ações anunciadas, está a criação de um sistema para detectar desequilíbrios financeiros e cambiais a cargo do FMI, com critérios que serão definidos em 2011. Nenhum dos participantes guarda qualquer ilusão de que os Estados Unidos se submeteriam a uma autoridade externa, mesmo sendo os controladores do FMI. Os mesmos representantes do governo estadunidense, que haviam se comprometido, na reunião preparatória dos ministros de finanças – duas semanas antes do acordo dos presidentes –, a não tomar qualquer medida que alimentasse a guerra cambial, tiveram a desfaçatez de anunciar o gigantesco pacote de 600 bilhões que desvaloriza o dólar.
Os remédios tradicionais vão rapidamente revelando-se insuficientes. Os estados mobilizaram seus bancos centrais, normalmente responsáveis pela reserva de liquidez no movimento de pagamentos entre os bancos comerciais, para criar créditos e dispor de suficiente liquidez monetária. Isso já não basta.
Desaparecem as ilusões

Os EUA, donos do maior déficit comercial e da maior dívida externa do planeta, já não conseguem mais agir em defesa dos interesses do sistema capitalista no seu conjunto, utilizando sua posição como maior economia do mundo – e donos do dólar – para favorecer apenas os interesses dos seus próprios capitalistas e enfrentar a crise da sua economia interna em prejuízo de todos os outros países do mundo.

Ressurgem, na agenda política, as pressões capitalistas para que os estados reduzam seus gastos sociais e aumentem a exploração sobre os trabalhadores. Volta a entrar em cena a receita neoliberal: diminuição dos salários e dos benefícios para os trabalhadores, cortes de gastos públicos, aumento dos juros.
Novamente, torna-se urgente unificar as forças populares em torno de um programa de medidas da classe trabalhadora para enfrentar a crise.
O Brasil contornou razoavelmente os impactos da primeira onda da crise. Os bancos brasileiros não estavam tão dependentes do capital fictício, especulativo, como estavam os bancos dos EUA e de outros países centrais do sistema capitalista. Por outro lado, o capital financeiro internacional aplicado na bolsa e em ações de empresas no Brasil não fugiu (como aconteceu em diversos outros países). Ao contrário. Pelas dimensões do país, pela natureza do governo e o potencial de retorno dos investimentos, muitos viram o Brasil como um porto seguro para seu capital financeiro. Além disso, o Estado brasileiro e o governo federal atuaram com muita agilidade, aplicando medidas de política econômica que representaram um colchão de proteção às empresas capitalistas dos setores mais dinâmicos da economia.

A grande interrogação, neste momento, é a capacidade de enfrentar essa segunda etapa. Como reagirá o novo governo, o de Dilma Roussef?

As pressões da burguesia serão imensas. A grande mídia já começa a pautar os velhos analistas do receituário neoliberal: redução de gastos públicos, reforma previdenciária, redução de direitos trabalhistas. O mesmo discurso com os mesmos argumentos.

Novamente, torna-se urgente unificar as forças populares em torno de um programa de medidas da classe trabalhadora para enfrentar a crise.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A morte dos maus

No país do futebol, o estado de exceção e a política do terror urbano

Jaime Amparo-Alves


Quando a bola começar a rolar na Copa do Mundo em 2014, aqui no Brasil, os atletas talvez não imaginem o rastro de sangue necessário para fazer do evento uma realidade possível. A violência terá sido, então, sanitarizada com o verde-amarelo e a estética do horror já terá sido varrida para os cemitérios. Debaixo da terra nem a putrefação dos cadáveres negros que pavimentaram o caminho para o Brasil colocar a sexta estrela na camisa canarinho. Hexa!

Não é exagero: a reestruturação urbana das metrópoles brasileiras requer a remoção em massa tanto das residências quanto dos corpos negros. Em São Paulo o processo já segue a passos largos. A região central da cidade deve ser o foco de uma política de intervenção higienista estratégica nos próximos anos. Sob a justificativa do combate ao tráfico, já se desenha para ali o estrangulamento do que restou do viver urbano das famílias pobres no centro velho.

Como justificar a morte de jovens negros, o encarceramento em massa, a remoção de comunidades inteiras senão pela lógica da purificação total? Essa coisa chamada ‘sociedade civil’ precisa - e a retórica da guerra fartamente disseminada pelo jornalismo criminoso sustenta - que alguns grupos sejam sacrificados em nome da nação verde-amarela.
Ainda na cidade, se tornam cada vez mais comuns os incêndios inexplicáveis de favelas em áreas estratégicas para investimentos imobiliários. Os incêndios, na verdade, ‘surgem’ como saída providencial para o poder público, para o chamado terceiro setor e para o mercado. Enquanto os primeiros precisam apenas gerenciar a assistência, ao último se abre uma nova fronteira de acumulação/especulação imobiliária. Na hiper-periferia paulistana, por sua vez, a PM paulista já celebra, quatro anos antes dos jogos esportivos, o recorde absoluto no número de blitz e prisões.

No Rio de Janeiro, terra dos capítulos da tragédia estatal, o caveirão faz parte, há tempos, da geografia racializada da cidade (assim como o Blaser da Rota se confunde com o cinza da tragédia urbana paulistana). Os mais recentes ‘confrontos’ são apenas um ensaio do que vem por aí nos anos que precedem os dois megaeventos esportivos. Como demonstrado na filosofia dos ‘choques de ordem’ da prefeitura do Rio, é preciso pavimentar o caminho para garantir a circulação do capital e das ‘pessoas de bem’ na Cidade Maravilhosa.

A duras penas aprendemos que o espaço urbano é uma categoria política que ambienta modos de dominação. É nele que se materializam as concepções que temos de raça, de classe, de região de origem. Neste sentido, os malvados, os perversos, os sujos habitam regiões que precisam ser extirpadas para evitar a metástase. No que diz respeito à circulação do capital, é imperativo que o Estado penal seja levado à sua potencia máxima (na equação prisão e morte) e o pouco que resta de políticas sociais seja distribuído nem mais nem menos do que o necessário para garantir a conformidade com a ordem. Não por acaso as UPPs (RJ) e as Polícias Comunitárias (SP) coexistem com o assistencialismo estatal e as estratégias pedagógicas de cidadania do onguismo. Afinal, é preciso manter o Haiti (de ontem ou de hoje) longe daqui.

Embora a nova ordem urbanística que vem por aí apenas reatualize os já conhecidos padrões de terror estatal - o massacre do corpo negro nas favelas como condição imprescindível para a paz social -, ela em certa medida também inaugura uma nova economia da violência que tem no espetáculo esportivo sua razão de ser. Foi assim na África do Sul, e será assim no Brasil.

Como justificar a morte de jovens negros, o encarceramento em massa, a remoção de comunidades inteiras senão pela lógica da purificação total? Essa coisa chamada ‘sociedade civil’ precisa - e a retórica da guerra fartamente disseminada pelo jornalismo criminoso sustenta - que alguns grupos sejam sacrificados em nome da nação verde-amarela.

O paradoxo aqui, como nos lembra o filósofo italiano Giorgio Agamben (1942) é que ser sacrificado não é um privilégio para qualquer um. Como no sacrifício bíblico de Isaac, o valor do ritual está na preciosidade (humanidade) do ser sacrificado. No caso dos jovens negros, encurralados entre a prisão e o cemitério, a morte se transformou em um evento ordinário, parte do viver urbano. Aqui, a retórica dos ‘direitos humanos’, da ‘democracia’ e do ‘estado de direitos’ não faz sentido porque, como o jornalismo criminoso nos lembra diariamente, os ‘maus’ têm que morrer. É por isso que a histeria intelectual-academicista-onguista segundo a qual o estado de direitos estaria ameaçado (pelo estado de exceção) só faz sentido se tomado sob a ótica daqueles grupos sociais vistos como portadores de direitos. Para os não-cidadãos, os ‘maus’, até mesmo o conceito de estado de exceção, proposto por Agamben, precisa de um reparo, uma vez que esta tem sido a norma sob as quais (sobre)vivem. Aqui está: estado de exceção permanente!

A Copa 2014 e as Olimpíadas de 2016 serão eventos espetaculares, o país receberá enxurradas de dólares e as metrópoles brasileiras terão finalmente sido sanitarizadas. Pessimismo? Vem aí a paz dos cemitérios! Está inaugurada uma nova etapa na biopolítica racial brasileira!



Jaime Amparo-Alves é jornalista e antropólogo. Doutorando em Antropologia Social, Universidade do Texas, em Austin amparoalves@gmail.com

O Haiti é Aqui

Sobre o Rio 2010, 2014, 2016 ...

Carlos Walter Porto-Gonçalves


O espetáculo da violência que se quer legitimar por parte do Estado globalizando Vila Cruzeiro e o Complexo do Alemão coloca a sociedade brasileira diante de si mesma. Vivemos uma época onde o capitalismo financeirizado usa como estratégia a produção de eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Esses eventos desencadeiam excelentes oportunidades de negócios no setor da construção civil, turismo, marketing e publicidade, indústria esportiva e mídia conformando um bloco de poder que insta os estados a agir em seu interesse em nome de atrair investimentos e gerar emprego e renda. Como se tratam de eventos, o nome já o diz, seus empregos são eventuais e a geração de renda beneficia desigualmente os diferentes estratos sociais: alguns terão empregos na construção civil, uns serão porteiros depois das obras, e outros serão guias turísticos e repórteres por alguns dias. O setor financeiro, as incorporadoras de imóveis, as grandes redes hoteleiras, a indústria esportiva e as empresas de marketing e publicidade já estarão promovendo outros grandes eventos a serem transmitidos pelas redes globais de TV em canais abertos e fechados.
O espetáculo da violência que se quer legitimar por parte do Estado globalizando Vila Cruzeiro e o Complexo do Alemão coloca a sociedade brasileira diante de si mesma. Vivemos uma época onde o capitalismo financeirizado usa como estratégia a produção de eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas.
O fato é que essa globalização, que Milton Santos bem chamou de globalitarismo, com seu pensamento único, é uma bela síntese da combinação do capitalismo que opera por cima das fronteiras, globalizando, com seu sistema de estados territoriais brandindo um nacionalismo de mercado onde as seleções e os atletas disputam pódiuns e medalhas, onde quase sempre alguma Vila de alguma periferia sobe e cafusamente revela a outra globalização que quer ser premiada. Só eventualmente, pois a globalização de hoje guarda uma história de longa duração que começa em 1492 quando a Europa deixa de ser uma área marginal e passa a ser o centro de um mundo que se mundializa a partir da invasão do nosso mundo (Abya Yala) por eles chamados de novo mundo (América). Ali começava uma grande revolução tecnológica, no mundo das navegações, da arte militar, na cartografia, enfim, no pensamento em geral para além da revolução na geografia mundial, dando início à modernidade, a primeira modernidade de fala portuguesa e espanhola. Sabemos que uma segunda modernidade de fala inglesa, hoje hegemônica, desqualifica essa primeira modernidade e com isso a componente colonial que lhe é constitutiva. A primeira modernidade seria católica e a segunda acreditaria nos milagres da ciência (e se esquece que a fé na ciência não é ciência e, sim, ainda fé).


O Brasil, Cuba e Haiti desde o séc. XVI exportam açúcar e, ao contrário do que se ensina nos livros didáticos e até mesmo nas universidades e na pós-graduação, o açúcar não é matéria-prima. O açúcar é produto manufaturado e, à época, na Europa não havia manufaturas como os nossos engenhos de açúcar. A modernidade tecnológica estava aqui e não lá. O engenho de açúcar chegou aqui junto com os latifúndios e suas monoculturas, e como toda técnica comporta uma intencionalidade, como nos ensina Milton Santos, os engenhos e o latifúndio monocultor tinham uma intencionalidade posto que a produção não era para satisfazer as necessidades de quem produzia diretamente, mas sim para fora, para terceiros, para exportação. A monocultura, por exemplo, é uma técnica moderna e, portanto, feita não para satisfazer a quem produz. Essa coisa de local e de comunidade é tudo que a modernidade nega e desqualifica em nome do global, do geral, do universal. E como não era natural que as pessoas aceitassem produzir o que não fosse para elas mesmas, a modernidade introduziu a chibata, a escravidão. Afinal, nossos primeiros engenhos foram feitos com chibata para exportação! Made in Brazil e, já ali, commoditties: técnica de ponta com injustiça social.

A modernidade para nós tem sido isso: riqueza e sofrimento. Essa é a colonialidade que nos acompanha e que é o outro lado da moeda da modernidade. Somos modernos há 500 anos! E para que não se pense que estamos falando de um outro mundo, de um outro tempo, observemos o que nos falam os dados da ONU sobre o que vem se passando no mundo nesse período restrito que a mídia e os think thanks do neoliberalismo chamam de globalização: entre 1970 e 2010 a população urbana mundial aumentou em dois bilhões e cento e setenta e sete milhões (2.177.000.000) de habitantes! Já em 1990 tínhamos em cidades uma população equivalente a toda a população mundial de 30 anos antes (1960). Informes recentes obtidos no Vº Fórum Urbano Mundial realizado no mês de março de 2010 no Rio de Janeiro chamaram a atenção para o fato de 70 milhões de pessoas a cada ano se somarem à população urbana global. E que 90% desse aumento se dá nos países africanos, latino-americanos, caribenhos e asiáticos.
Essa coisa de local e de comunidade é tudo que a modernidade nega e desqualifica em nome do global, do geral, do universal.

Mais da metade da população urbana mundial de 3 bilhões de habitantes, segundo o cientista social Samir Amim, vive sob condições precárias de trabalho e habitação, sendo que destes 1.290.000.000 vivem nos países da periferia e 270.000.000 nos países centrais. E nas periferias das cidades do primeiro mundo os pobres que lá estão são os imigrantes “quase todos pretos” ou de cor (sabemos que na linguagem racista quem tem cor são os outros e os outros são os não-brancos). Na escala local das periferias das cidades do primeiro mundo grita o sistema mundo moderno-colonial e sua globalização onde as classes sociais são também conformadas pela origem étnico-racial.
A modernidade para nós tem sido isso: riqueza e sofrimento. Essa é a colonialidade que nos acompanha e que é o outro lado da moeda da modernidade. Somos modernos há 500 anos!

Uma nova geografia política mundial vem se reconfigurando onde o capitalismo financeiro que opera em rede se vê tendo que se ajustar à escala local onde vive a maioria dos “condenados da terra”, conforme a feliz expressão de Frans Fanon sobre os infelizes. Hoje é nessas periferias que proliferam as doenças da miséria globalizada como a AIDS ou mesmo a gripe aviária, como nas periferias da cidade do México em 2009. É nessas periferias urbanas que se espalham o varejo do mercado paralelo das drogas do narco-capitalismo financeiro e seu irmão-gêmeo, o mercado de armas. Ali, nas periferias-pobres-onde-quase-todos-são-pretos, jovens sem futuro matam e se matam portando armas globalizadamente intermediadas pelo capital financeiro onde os paraísos fiscais cumprem um papel central. E como um paraíso fiscal deve ser como todo paraíso numa ilha, o que é perfeitamente coerente com a lógica de um capital que se quer desterritorializado, isto é, sem compromisso com direitos e cidadania que tem no território nacional seu lócus de garantia, o emblema maior desse sistema mundo moderno-colonial não poderia deixar de ser um país-ilha onde “todos são pretos” e os impostos estão no nível ideal dos think thanks neoliberais (0%): o Haiti. E o Haiti expõe ao extremo as contradições do sistema mundo moderno-colonial haja vista ter sido o primeiro país do mundo a querer fazer a dupla emancipação: a do sistema de poder mundial moderno-colonial e a das oligarquias latifundiárias escravocratas. Os haitianos, à época parte do sistema colonial francês, viram a burguesia que tinha no Haiti sua principal fonte de acumulação ser revolucionária em Paris se posicionando contrariamente a estender ao Haiti os princípios da Revolução de 1789: a liberdade, a igualdade e a fraternidade não podiam atravessar o Atlântico nem a barreira da cor da pele. Os Estados Unidos retribuíram a estátua da Liberdade que os franceses lhes regalaram, embora a deixando numa ilha (Manhattan), e apoiaram os franceses contra a dupla emancipação que os haitianos acreditaram ser possível com a Revolução Francesa. Ali, os Estados Unidos deram seu primeiro passo imperial, logo esse país que fizera a primeira revolução de libertação nacional que o mundo conheceu no 4 de julho de 1776.
Mais da metade da população urbana mundial de 3 bilhões de habitantes, segundo o cientista social Samir Amim, vive sob condições precárias de trabalho e habitação, sendo que destes 1.290.000.000 vivem nos países da periferia e 270.000.000 nos países centrais. E nas periferias das cidades do primeiro mundo os pobres que lá estão são os imigrantes “quase todos pretos” ou de cor (sabemos que na linguagem racista quem tem cor são os outros e os outros são os não-brancos).

E foi ali no Haiti que, em 2004, ano em que comemorariam seus 200 anos de independência, que se reiterou o golpe de estado contra um presidente preto cuja liderança política havia sido forjada nas periferias pobres de Porto Príncipe. Diga-se de passagem, que foi um golpe de estado que se iniciara em 1992 quando Jean-Batiste Aristide, o padre da Teologia da Libertação, ganhara a primeira eleição livre do Haiti depois que a sanguinária dinastia Duvallier deixava o país depois de décadas para se abrigar no país das Luzes, a França. J-B Aristide foi seqüestrado pelo então Presidente Bill Clinton e levado a Washington onde teve que negociar as condições que o Império lhe impôs para tomar posse. Entre essas condições não mexer na estrutura de poder militar legada pelos Duvallier. Aristide e o povo haitiano pagaram caro, mais uma vez, suas pretensões libertadoras e tiveram que se curvar às forças hegemônicas do sistema mundo moderno-colonial.
É nessas periferias urbanas que se espalham o varejo do mercado paralelo das drogas do narco-capitalismo financeiro e seu irmão-gêmeo, o mercado de armas. Ali, nas periferias-pobres-onde-quase-todos-são-pretos, jovens sem futuro matam e se matam portando armas globalizadamente intermediadas pelo capital financeiro onde os paraísos fiscais cumprem um papel central.
E é ali no Haiti que vem se ensaiando o novo combate na nova configuração geopolítica do mundo onde as periferias onde “quase todos são pretos” devem ser controladas. O espetáculo globalmente transmitido ao vivo de tanques militares invadindo Vila Cruzeiro e o Complexo do Alemão no último dia 26/11/2010 atualiza essa história de longa duração no espaço concreto da miséria local de um sistema global. E os tanques que ali agiam numa inédita articulação do estado brasileiro em suas distintas esferas com a mídia foram tanques fabricados na Suíça que, até então, se acreditava ser o país do chocolate e do capital bancário-financeiro globalizado. Que aqueles jovens que com a sua fuga demonstravam o quanto desorganizado é o “crime organizado” se livrem do massacre que os espera. Mas a esperança necessária para que se livrem das balas que prometem atingi-los, aliás como também vem protagonizando nessa lógica absurda da violência e do medo, passa muito longe de tanques e da mídia. Passa “por uma outra globalização” muito longe do globaritarismo que não entende que é de “um mundo onde caibam muitos mundos” que carecemos. Que seja igualitária e que não tolere o outro porque o vê com alegria. E que a pólvora volte a ser usada para fogos de artifício. Aliás, elas só se fazem mais belas sobre um fundo preto.


Carlos Walter Porto-Gonçalves é professor do Programa de Pós-graduação em Geografia da UFF. Pesquisador do CNPq e do Clacso. Prêmio Casa de las Américas (Ensaio Hisórico-social) em 2008 e Medalha Chico Mendes em Ciência e Tecnologia 2004. É autor de vários livros e artigos publicados no Brasil e no exterior.

http://www.brasildefato.com.br/node/5163

Ocupação militar das comunidades desencadeou ataques

Para deputado Marcelo Freixo, as UPPs e os muros construídos nas favelas têm a mesma função: viabilizar as Olímpiadas

Depois de inúmeros arrastões e mais de 50 automóveis e ônibus incendiados por traficantes no Rio de Janeiro, o governo do estado iniciou uma operação que contará com equipamentos de guerra. Nesta quinta-feira (25), o Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) recebeu o apoio de seis tanques blindados da Marinha para intensificar as ações nas favelas cariocas.

Desde o último domingo (20), 25 pessoas morreram e outras 150 foram presas. A Secretaria de Segurança Pública informou que 22 mortes ocorreram em confrontos entre policiais e traficantes. Em entrevista à Radioagência NP, o deputado estadual Marcelo Freixo (Psol-RJ) afirma que a ação dos traficantes é um revide contra a presença das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora).
As UPPs representam um projeto de retomada militar de algumas áreas que interessam a um projeto de cidade. Isso não é para acabar com o tráfico, é para ter o controle militar de lugares que são estratégicos para a cidade olímpica que se pretende.
O deputado faz críticas à política de segurança no estado e questiona a falta de combate ao tráfico de armas. Ele afirma que as UPPs têm o objetivo de fazer uma ocupação militar para facilitar a retirada dos moradores das áreas consideradas importantes para a realização das Olimpíadas de 2016. A presidente eleita Dilma Roussef anunciou que implantará esse modelo de policiamento nos demais estados brasileiros.

Radioagência NP: Marcelo, o atual clima de violência no Rio de Janeiro é uma surpresa?

Marcelo Freixo: Era previsível que alguma coisa pudesse acontecer no final do ano, em função da reação à implementação das UPPs. A partir do momento em que você tem uma perda de território por parte do varejo de drogas, era um tanto quanto previsível que isso pudesse acontecer. Então, o governo deveria estar mais preparado neste sentido.

Por que o governo não se preparou para essa situação?

O governo se mostrou frágil nessa percepção. Houve pouco investimento no setor de inteligência, pouca gente trabalhando e com poucos instrumentos. Enfim, sem o investimento adequado que o governo deveria ter feito nessa área. Nesse sentido, temos não só uma ação violenta que deve ser enfrentada, mas também algumas falhas claras na segurança pública que estão aparecendo neste momento.

Que tipo de postura o governo deve assumir em ações dessa natureza?

Nós temos a tradição de uma polícia violenta e uma criminalidade com armamento muito pesado no Rio de Janeiro. Num momento de crise como este a Polícia deve estar na rua e algumas perdas são inevitáveis, infelizmente. Mas ao longo do tempo o que poderia e ainda deve ser feito é um enfrentamento ao tráfico de armas muito mais estratégico do que se tem. Hoje temos um enfrentamento às favelas e não ao tráfico de armas. Não tem nenhuma ação no que diz respeito à entrada de armas, sobretudo na Baía de Guanabara e nas estradas. O enfrentamento ao tráfico de armas é frágil, ocorre mais no destino do que no caminho. E o destino é sempre o lugar mais pobre.

O elavado número de mortos nas ações policiais demonstra uma fragilidade das UPPs?


As UPPs representam um projeto de retomada militar de algumas áreas que interessam a um projeto de cidade. Isso não é para acabar com o tráfico, é para ter o controle militar de lugares que são estratégicos para a cidade olímpica que se pretende.

Então podemos afirmar que a segurança dos jogos olímpicos é a prioridade do momento?

As UPPs, assim como as barreriras acústicas, as remoções e os muros de favelas é um projeto olímpico de uma cidade que vai ser muito excludente, uma cidade para poucos. Sabemos que o Rio vai passar por esses problemas. Onde se faz uma cidade olímpica, também se fazem cidades não-olímpicas ao redor.

http://www.brasildefato.com.br/node/5143

Tromp l'oeil

A esquerda no século XXI

Slavoj Zizek

Doze anos antes do 11 de setembro, no dia 09 de novembro de 1989, caiu o Muro de Berlim. Esse evento parece ter anunciado o início dos “felizes anos 90″, a utopia de Francis Fukuyama do “fim da história”, a fé de que a democracia liberal venceria em linha de princípio, que o advento de uma comunidade liberal global estaria esperando logo depois da esquina, e que o obstáculo a esse feliz fim hollywoodiano seria meramente empírico e contingente (bolsões locais de resistência, cujos líderes ainda não teriam compreendido que o seu tempo havia acabado). O 11 de setembro, ao invés, simbolizou o fim do período clintoniano e iniciou uma era em que novos muros parecem surgir em todos os lugares: entre Israel e a Cisjordânia, ao longo da fronteira mexicana, mas também dentro dos próprios Estados-nação.

Em um artigo da Newsweek, Emily Flynn Vencat e Ginanne Brownell se referem a como hoje “o fenômeno do ‘members-only’ [apenas para membros] está se expandindo em um inteiro estilo de vida, incluindo tudo, desde as coalizões bancárias privadas até as clínicas de saúde apenas para convidados (…), aqueles que tem dinheiro estão crescentemente fechando toda a sua vida atrás de portas fechadas. Em vez de participar de grandes eventos midiáticos, eles organizam shows, desfiles de moda e exibições de arte em suas próprias casas. Vão fazer compras fora de horário e controlam rigorosamente a classe e a renda dos seus vizinhos (e potenciais amigos)”.

Nas nossas sociedades, a esquerda crítica só conseguiu até agora desonrar aqueles que estão no poder, enquanto o ponto real é castrá-los… É necessário aprender com os fracassos da política da esquerda no século XX. A tarefa não é praticar a castração no ápice de um confronto direto, mas sim minar aqueles que estão no poder com um trabalho ideológico-crítico paciente
Uma nova classe global está assim surgindo, “com, digamos, um passaporte indiano, um castelo na Escócia, um ‘pied-à-terre’ em Manhattan e uma ilha caribenha privada”. O paradoxo é que os membros dessa classe global “jantam privadamente, fazem compras privadamente, veem arte privadamente, tudo é privado, privado, privado”. Estão criando um ambiente vital próprio para resolver seu dilema hermenêutico angustiante. Como afirma Todd Millay: as famílias ricas não podem simplesmente “convidar pessoas e esperar que elas entendam o que é ter 300 milhões de dólares”.

Então, quais são os seus contatos com o mundo externo? São de dois tipos: negócios e beneficência (proteção ao meio ambiente, luta contra as doenças, mecenatismo etc.). Esses cidadãos globais vivem a sua vida acima de tudo na natureza incontaminada – fazendo trekking na Patagônia ou nadando nas águas transparentes das suas ilhas privadas. Não podemos deixar de notar que uma das características de fundo da atitude desses ultrarricos que vivem nas suas torres de marfim é o medo: medo da vida social externa em si. A maior prioridade dos “ultrahigh-net-worth individuals” é, portanto, minimizar os riscos de segurança – doenças, exposição às ameaças de crimes violentos e assim por diante.

Não podemos deixar de notar que uma das características de fundo da atitude desses ultrarricos que vivem nas suas torres de marfim é o medo: medo da vida social externa em si. A maior prioridade dos “ultrahigh-net-worth individuals” é, portanto, minimizar os riscos de segurança – doenças, exposição às ameaças de crimes violentos e assim por diante.
Na China contemporânea, o novo rico construiu para si comunidades isoladas modeladas à imagem idealizada das “típicas” cidades ocidentais. Perto de Xangai, por exemplo, existe uma réplica “real” de uma pequena cidadezinha inglesa, incluindo uma rua principal com um pub, uma igreja anglicana, um supermercado Sainsbury etc.: toda a área está isolada daquilo que a circunda por uma cúpula invisível, mas não menos real.

Não existe mais uma hierarquia entre grupos sociais que vivem na mesma nação, aqueles que residem nesta cidade vivem em um universo no qual, dentro do seu imaginário ideológico, o mundo ao redor de “classe inferior” simplesmente não existe. Esses “cidadãos globais” que vivem em áreas isoladas não representam talvez o verdadeiro polo oposto daqueles que vivem nas favelas e das outras “manchas brancas” da esfera pública? Com efeito, eles representam as duas faces da mesma moeda, os dois extremos da nova divisão de classe.

Esses “cidadãos globais” que vivem em áreas isoladas não representam talvez o verdadeiro polo oposto daqueles que vivem nas favelas e das outras “manchas brancas” da esfera pública? Com efeito, eles representam as duas faces da mesma moeda, os dois extremos da nova divisão de classe.
A cidade que melhor encarna essa divisão é São Paulo, no Brasil de Lula, que hospeda 250 heliportos na área do centro da sua cidade. Para se isolar do perigo de se misturar com as pessoas comuns, o rico de São Paulo prefere usar os helicópteros, pois então, olhando o horizonte da cidade, sente-se verdadeiramente como se se encontrasse em uma megalópole futurista do gênero descrito em filmes como “Blade Runner” ou “O quinto elemento”, com pessoas comuns que se aglomeram em ruas perigosas embaixo, enquanto o rico passeia em um nível mais alto, no ar.

Parece assim que a utopia dos anos 90 de Fukuyama deveria morrer duas vezes, a partir do momento em que a queda da utopia política liberal-democrática do 11 de setembro não atingiu a utopia econômica do mercado capitalista global. Se o colapso financeiro de 2008 tem um significado histórico, então, é como sinal do fim da face econômica do sonho de Fukuyama. O que nos reporta à paráfrase marxiana de Hegel: é preciso lembrar que, na sua introdução a uma nova edição do “18 Brumário” nos anos 60, Herbert Marcuse acrescentou um novo enrijecimento: às vezes, a repetição à guisa de farsa pode ser mais terrificante do que a tragédia original.

Em um famoso debate na Universidade de Salamanca em 1936, Miguel de Unamuno lançou uma flechada aos franquistas: “Venceréis, pero no convenceréis” (Vencereis, mas não convencereis). Estaria aqui tudo o que a esquerda pode dizer hoje ao capitalismo global triunfante? A esquerda está predestinada a continuar desempenhando o papel daqueles que, ao contrário, convencem mas no entanto continuam perdendo (e são particularmente convincentes ao explicar retroativamente as razões da sua própria falência)?

A nossa tarefa é descobrir como dar um passo adiante. A nossa undécima tese deveria ser: nas nossas sociedades, a esquerda crítica só conseguiu até agora desonrar aqueles que estão no poder, enquanto o ponto real é castrá-los…

Mas como podemos conseguir isso? É necessário aprender com os fracassos da política da esquerda no século XX. A tarefa não é praticar a castração no ápice de um confronto direto, mas sim minar aqueles que estão no poder com um trabalho ideológico-crítico paciente, de modo que, mesmo que ainda estejam no poder, deem-se conta de repente que os poderosos encontram-se novamente falando com vozes inaturalmente finas.

"Para se isolar do perigo de se misturar com as pessoas comuns, o rico de São Paulo prefere usar os helicópteros, pois então, olhando o horizonte da cidade, sente-se verdadeiramente como se se encontrasse em uma megalópole futurista do gênero descrito em filmes como “Blade Runner” ou “O quinto elemento”, com pessoas comuns que se aglomeram em ruas perigosas embaixo, enquanto o rico passeia em um nível mais alto, no ar."
Nos anos 60, Lacan chamou o jornal da sua escola, que foi publicado de maneira irregular por um breve período, de Scilicet. A mensagem não era o significado hoje predominante da palavra (“isto é”, “ou seja”, “quer dizer”), mas literalmente “é permitido saber”. (Saber o quê? O que a Escola Freudiana de Paris pensa sobre o inconsciente…). Hoje, a nossa mensagem deveria ser a mesma: é permitido saber e comprometer-se plenamente no comunismo, agir novamente em plena fidelidade à ideia comunista. A permissividade liberal é da ordem do “videlicet” – é permitido ver –, mas o fascínio pela obscenidade que nos foi permitido observar nos impede de saber o que é que vemos.

Moral da história: o tempo da chantagem moralista liberal-democrática acabou. Não devemos mais continuar justificando-nos. Enquanto seria melhor para eles começar a fazer isso logo.

(Ecodebate, 31/03/2010) publicado pelo IHU On-line, parceiro estratégico do EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]



http://www.ecodebate.com.br/2010/03/31/a-esquerda-no-seculo-xxi-artigo-de-slavoj-zizek/

domingo, 28 de novembro de 2010

O marciano e os rebeldes do Rio de Janeiro

"A economia de vocês é algo tão fantástico que simplesmente independe de vida inteligente. Em meio a uma situação de massacre de vidas, há quem esteja muito preocupado se o turismo será prejudicado", comentou um marciano amigo meu, que chegou a pouco tempo por aqui para entender como é a vida no planeta Terra. Ele disse que no planeta vermelho, se há uma tragédia ou conflito qualquer que envolva vidas, a mobilização é para a solidariedade e mais: em casos como o do Rio, se busca a compreensão do que levou os marcianos rebeldes a serem tão impertinentes. Quando lhe contei que aqui a coisa é diferente, ele começou a duvidar seriamente de que estava no planeta certo, pois haviam lhe falado tanto dos avanços da inteligência aqui na Terra...

"As pessoas aqui ficam preocupadas com o turismo, com a visita de alguns desocupados que somente são aturados e até mesmo bem tratados porque trazem dinheiro. E mais, com a queda de frequência a bares aquele massa amorfa formada por gente que não faz mais do que se envenenar, rir sem motivo e se vampirizar mutuamente não está mais fazendo isso por conta da violência. Os rebeldes, nesse caso, estão prestando um grande serviço a essa gente”, disse o marciano amigo e um tanto indignado.
Quando contei a ele como se originaram as favelas, que são os locais de habitação dos “rebeldes”, que aqui se chamam “bandidos”, senti que o pobre viajante do espaço começou a entender que sua vinda até aqui para coletar ideias inteligentes foi em vão. “Mas, se eles tratam tão mal a essa gente, o que esperam em troca? Flores?”
Interessante é quando se fala na imagem da cidade do Rio. Bem, os tais conflitos mostram o quê? Segundo o marciano, que não entende nada sobre a Terra e chega até mesmo a falar muitas asneiras, mostram que o Rio é uma cidade que trata muito mal uma boa parte de seus habitantes. Provavelmente por isso eles se rebelam com tanta frequência. Segundo ele, em Marte, se o motivo de um problema não é resolvido, não adianta se livrar do problema. “Ele volta”, disse o homenzinho verde do planeta vermelho. “Questão de inteligência”, explicou, apontando a própria grande testa. 

Quando contei a ele como se originaram as favelas, que são os locais de habitação dos “rebeldes”, que aqui se chamam “bandidos”, senti que o pobre viajante do espaço começou a entender que sua vinda até aqui para coletar ideias inteligentes foi em vão. “Mas, se eles tratam tão mal a essa gente, o que esperam em troca? Flores?”. É verdade, tive que admitir. Começando a ficar contrariado, ele arrematou: “Se é verdade o que você está me dizendo, estamos falando de um massacre e esses rebeldes estão fazendo pouco, aliás, são poucos os rebeldes!”. Retruquei que ele deve ter razão, pois um escritor carioca, que escreveu um livro sobre uma das favelas nas quais habitam parte dos rebeldes (acho que morou lá) já disse que dadas as condições em que são tratados os pobres aqui, há muito poucos rebelados mesmo. O marciano, quase espumando de indignação, completou: “Os que se rebelam devem ser, talvez, os mais dignos, os que estão dizendo com isso que estão vivos”.

Bem, tentei lhe explicar que a situação é complexa e que talvez precisemos ponderar um pouco, mas a sua decisão já estava tomada. “Vou embora já, ou me junto a esses rebeldes e aí vocês vão ver!”, disse.

....

Manchetes são a face do contrassenso, diz habitante de Marte 

Antes de partir no seu disco voador, o amigo marciano observou algumas manchetes de periódicos sobre a tal “violência no Rio” e ficou pasmo.

“Uma cidade sitiada. E a população em pânico”. Ora, uma cidade que sitia parte de sua população há mais de um século provavelmente só sente, agora, as consequências disso. A população negra e pobre do Rio de Janeiro faz parte da cidade, tudo indica, mas só recebe, desde a abolição da escravatura, quando começaram a se formar as favelas, desprezo, tapa na cara e tiros. Agora, se rebela. “Acho que não é tão difícil entender isso, mas a resposta à rebelião é mais desprezo e ódio, soco na cara, tiros e blindados pacificadores”, pondera o homem de Marte. Logo, segundo sua lógica, a cidade está sitiada pelos que sitia há cem anos e reage com indignação. “Curiosa reação”, diz.

“Narcotráfico, a grande ameaça à metrópole”. Uma verdade insofismável, mas não o narcotráfico instalado nas favelas cariocas. Esse tipo de negócio ilegal movimenta, anualmente, algo em torno de U$ 500 bilhões e acreditar que esse dinheiro está com os “bandidos” favelados é impossível. Se é verdade que o narcotráfico é uma grande ameaça, que tal procurar onde estão os detentores da grana, que são os que promovem o negócio? “Vou ligar para o disque-denúncia e cagoetar que o mercado financeiro vive desse dinheiro, que as instituições financeiras movimentam esses recursos e que boa parte de seus lucros vem de dinheiro de negócios ilegais, como o das drogas e armas. Quem sabe a polícia invada algumas mansões ou sedes de bancos para pacificar esses facínoras, se é que essas pessoas têm recuperação”, pondera o homem verde do planeta vermelho.

“Uma quadrilha de PMs que integram um grupo de extermínio invade a favela de Vigário Geral com armamento pesado e massacra 21 inocentes”, uma manchete antiga que trata do massacre na favela de Vigário Geral, bastante explorado midiaticamente na época. Ora, para que dizer que os PMs integravam um grupo de extermínio? “Dadas as condições encontradas na realidade carioca, não é verdade que todos os PMs integram um grupo de extermínio, a própria PM, como bem se vê nos últimos anos?”, pergunta o marciano, tentando entender o que se passa.

“Violência no Rio de Janeiro é a vergonha nacional". É sim, mostra que o país trata muito, mas muito mal a uma grande parte da população e que quando esse pessoal se rebela, é mais maltratado ainda. Uma péssima imagem para o Brasil. “Uma completa e absoluta vergonha para o planeta inteiro”, explica o viajante interestelar.

...

Jogadores baianos conhecem a pacificação

O marciano conta que um site na internet informa que os atletas que compõem a briosa equipe futebolística do Vitória Esporte Clube, de Salvador, Bahia, ficaram muito assustados com a violência carioca.

Eu, de minha parte, imaginei os coitados correndo para lá e para cá, atacados por bandidos do Comando Vermelho, com suas sandálias e shorts, ou quem sabe com tênis Nike no pé, sangue nos olhos e armamento pesadíssimo. Chega a ouvir o som dos disparos, o espocar ruidoso dos rifles e as rajadas de metralhadoras. No canto da cena, King Kong pendurado no Cristo Redentor.

"Não. Eles passaram por uma blitz na Linha Amarela e viram, armados até os dentes, as forças da pacificação carioca", ele explicou.

O marciano explica que, talvez por isso, diante da visão beatífica da pacífica policia carioca, o mesmo site informa que descansaram e embarcaram para Porto Alegre, para, sem pacificação, tentar ganhar três pontos em cima do Internacional.

sábado, 27 de novembro de 2010

El mito del desarrollo capitalista nacional en la nueva coyuntura política de América Latina

Atilio Boron
Este texto, de Atilio Boron, foi escrito há alguns anos e expressa o pensamento crítico em relação à adesão dos países da América Latina ao projeto capitalista, no qual estão, tudo indica, condenados à subserviência.

Trata-se de uma reflexão necessária e as informações e sugestões de debate expostas neste texto e em outros – publiquei, neste blog, um artigo que aborda criticamente o tema da inclusão econômica (“Reflexão sobre o contrassenso da inclusão econômica”), argumentando, não sem tristeza, que o que restou a nós foi aderir a esse projeto criminoso – muito embora reconheça, com mais tristeza ainda, que parece ser o único caminho, dada a força estruturada e estruturante que o modelo regido e administrado pelo capital nos impõe.

Aprendi, quando trabalhei como psicanalista, que podemos fazer tudo, coisas boas e ruins ética e moralmente, contanto que saibamos o que estamos fazendo. Nossos atos se tornam menos pernósticos assim.  E se adotamos essa forma de vida pobre e miserável do capitalismo, seja ele liberal, neoliberal ou de Estado, certamente não é por gosto, muito embora, diversas vezes julguemos que sim (pois se vivemos num sistema no qual tudo tem razão, exceto ele mesmo, conforme disse Deleuze, nossos atos, pensamentos, emoções e desejos muitas vezes demonstram esse contrassenso fulcral). Essa forma de vida se impõe a nós desde muito cedo, desde antes mesmo de nascermos, e é inevitável fazer parte disso, imergir na corrente de infelicidade (recheada de risos) e martírio, na vida pobre, vergonhosa e tosca da sociedade capitalista. Precisamos saber em que estamos metidos, precisamos saber o que estamos fazendo, de modo a que façamos menos mal a nós mesmos e a outrem.

Quando, por exemplo, menciono o presidente Lula na “Reflexão sobre o contrassenso da inclusão econômica”, tenho que dizer que reconheço ser a melhor opção, ainda, para a nossa vida, embora não nutra grandes expectativas em relação a quaisquer mudanças que seu governo ou quem quer que faça parte dele possam engendrar, a não ser na adesão cada vez mais arraigada ao projeto capitalista. Mas, nosso problema é muito maior, bem maior do que o capitalismo. Vivemos amparados na ordem subjetiva do Ocidente e todo e qualquer movimento que façamos, toda e qualquer emoção que sentimos ou pensamento que formulamos, traz as marcas da herança maldita substanciada em arquétipos como a crença numa verdade única (mãe do pensamento único, expresso na intolerância do monotoeísmo, de forma contundente) e no “complexo do pastor” (filho dessa ilusão mórbida e que gerou os impérios, como Roma, que somente sobrevivem enquanto lidam com perigos externos fantasiados, muitas vezes cinicamente) e sugerem, apesar de sua natureza, ou por conta dela, que todos somos iguais – haverá algo mais lamentável do que sermos iguais, quando, inevitavelmente, não somos?

De todo modo, essa discussão é longa e exposta em poucas linhas, como faço aqui, certamente deixa pontos em suspenso e mais recende a delírio do que a um pensamento – embora seja necessário lembrar que num sistema delirante, como este no qual vivemos e que transforma seus delírios em discursos concernentes, toda e qualquer ideia que saia da superfície medíocre dos lugares comuns aparenta ser delirante, simplesmente porque lida com essa ambigüidade. No trabalho que escrevi, quando da conclusão do mestrado que cursei na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, esponho essas ideias com mais vagar e consistência.

O texto que ora apresento, “El mito del desarrollo capitalista nacional en la nueva coyuntura política de América Latina”, de Atilio Boron, é longo, mas cheio de boas argumentações e instigantes provocações para que avaliemos nossa realidade. Vale a pena ser lido. Apresento, como costumo fazer neste blog, alguns trechos destacados em vermelho, tendo selecionado alguns como importantes na medida em que fazem menção direta ao Brasil, eterno “país do futuro” – e dizer isso não significa que duvido que o porvir de nosso país possa ser brilhante: apenas sugiro que pensemos se o caminho que tomamos está correto para isso e se não é preciso saber o que estamos fazendo para que possamos, mais adiante, trilhar nosso próprio caminho.

Boa leitura.

Memorial da América Latina, de Oscar Niemeyer, na cidade de São Paulo. http://www.cidadedesaopaulo.com/sp/images/stories/fotos_memorial_am_latina/memorial_america_latina_caio_pimenta1.jpg


El mito del desarrollo capitalista nacional en la nueva coyuntura política de América Latina

Por Atilio A. Boron-Argenpress

Una ruta clausurada

Hace casi medio siglo, cuando en las ciencias sociales de la época prevalecían sin contrapeso las teorías de la modernización y la de las "etapas del desarrollo económico", popularizadas por Walter W. Rostow en su famoso libro, veía la luz un texto de Karl de Schweinitz en el que planteaba una tesis radical, totalmente a contracorriente del consenso dominante de su tiempo. Sintéticamente, ella decía que en lo concerniente al establecimiento de una democracia liberal el camino recorrido por Estados Unidos y los países más avanzados de Europa ya no podía ser transitado nuevamente por las naciones subdesarrolladas. Si bien su pronóstico sobre la industrialización era un poco menos pesimista, entre líneas el mensaje era claro: el mundo de la periferia muy difícilmente podría emular la trayectoria industrial de las potencias metropolitanas. Refiriéndose especialmente al caso de la democracia su diagnóstico era aún más terminante: "el desarrollo de la democracia en el siglo diecinueve fue el resultado de una inusual configuración de circunstancias históricas que no pueden repetirse. La ruta "euro-norteamericana" hacia la democracia está clausurada." (de Schweinitz, pp. 10-11)

Estamos ante una situación crítica en la cual, como dijera Simón Rodríguez, "o inventamos o erramos". No hay modelos por imitar, Puede haber experiencias que sirvan como fuentes de inspiración, pero nada más (...) la construcción del socialismo del siglo veintiuno, condición necesaria para el desarrollo de nuestras sociedades, no puede ser producto de actos imitativos. Fidel dijo reiteradamente que "cada vez que copiamos nos equivocamos", subrayando la sabiduría contenida en la sentencia de Simón Rodríguez.
Críticas al pensamiento convencional

Por supuesto, el libro de de Schweinitz -riguroso, documentado, persuasivo- fue olímpicamente ignorado por la academia, los intelectuales "bienpensantes" y los medios de comunicación de masas. El gran público ni se enteró, y en el mundo de la periferia las pesimistas ideas de nuestro autor -que contradecían abiertamente las rosadas expectativas cultivadas por la Alianza para el Progreso y, más generalmente, la autoimpuesta misión de la Casa Blanca de "exportar la democracia" a todo el mundo- fueron totalmente desconocidas. Estamos hablando de 1964; eran las épocas en que la alternativa a la teoría de la modernización y las etapas del desarrollo económico eran una vertiente crítica de la CEPAL, encabezada por Raúl Prebisch, o bien la elaboración de los teóricos de la dependencia que comenzaba a resonar con creciente fuerza en América Latina, estimulados por la radicalidad de los pioneros planteamientos que André Gunder Frank expusiera en su clásico libro sobre el "desarrollo del subdesarrollo" en Brasil y Chile.(Frank, 1964) Fuera del mundo académico y anticipándose a él la Segunda Declaración de La Habana y el célebre discurso del Che en Punta del Este habían planteado con total claridad los límites infranqueables del desarrollo capitalista en la periferia.(1) Pero el impacto de estas ideas en el debate de las ciencias sociales no sería inmediato. Su origen "extramuros" de la academia arrojaba sobre ellas un manto de sospecha que para la ortodoxia positivista dominante las descalificaba por completo. Sin embargo, con el paso del tiempo tanto la Segunda Declaración como el discurso del Che habrían de convertirse en referencias insoslayables del nuevo pensamiento crítico latinoamericano. El libro de Rostow, cuyo título completo era Las etapas del crecimiento económico y cuyo subtítulo, privado de toda sutileza era Un manifiesto no comunista había sido publicado en inglés en 1960 y al año siguiente se traducía al español por el Fondo de Cultura Económica. Este libro ejerció una influencia arrolladora sobre las ciencias sociales latinoamericanas de aquellos años y, ni hablar, sobre los gobiernos y expertos en el área económica. (2) La idea básica del argumento rostowiano era que había un solo proceso de desarrollo y que éste era lineal, acumulativo e igual para todos los países. La palabra "capitalismo" había sido cuidadosamente desterrada del texto, con el obvio propósito de reforzar la naturalización de este modo de producción: al describir sus leyes de desarrollo el supuesto era que cualquier economía, sin excepción, debía enfrentarse a una serie de imperativos técnicos, no políticos. La consecuencia de todo esto era que había un solo modo de enfrentar los problemas económicos, y que este modo estaba dictado por cuestiones técnicas que no admitían transgresión alguna. El proceso de desarrollo capitalista -con sus luchas, despojos y saqueos, que lo hacen llegar al mundo "chorreando sangre y barro por todos sus poros", como dijera Marx en El Capital- es así sublimado y descontextualizado hasta llegar a convertirse en un despliegue ahistórico, formal y lineal de potencialidades presentes en cada una de las formaciones sociales del planeta. Por eso, para esta tradición de pensamiento los países hoy desarrollados fueron, en un tiempo no demasiado remoto, naciones pobres y subdesarrolladas. Este razonamiento se asentaba sobre dos falsos supuestos: primero, que las sociedades localizadas en ambos extremos del continuo compartían la misma naturaleza y eran, en lo esencial, lo mismo. Sus diferencias, cuando existían, eran de grado, como casi medio siglo después repetirían sin brillo y sin gracia Hardt y Negri, lo cual era -y es- a todas luces falso.

Segundo supuesto: la organización de los mercados internacionales carecía de asimetrías estructurales que pudieran afectar las chances de desarrollo de las naciones de la periferia. Para autores como los arriba mencionados, términos tales como "dependencia" o "imperialismo" no servían para describir las realidades del sistema y eran antes que nada un tributo a enfoques políticos, y por lo tanto no científicos, con los cuales se pretendía comprender los problemas del desarrollo económico. (3) En consecuencia, los llamados "obstáculos" al desarrollo no tenían fundamentos estructurales o restricciones ancladas en la economía mundial, sino que eran el producto de torpes decisiones políticas, elecciones desafortunadas de los gobernantes o de factores inerciales fácilmente removibles. Las implicaciones conservadoras de este razonamiento, que descartaba apriorísticamente cualquier otra forma de organización económica alternativa al capitalismo y que ignora olímpicamente la realidad del imperialismo y la dependencia, son tan evidentes que no requieren de ninguna demostración más allá de su sola enunciación. Como se ve, el "pensamiento único" no es tan novedoso como se supone. Y su impacto sobre el pensamiento supuestamente contestatario fue tan deletéreo ayer como hoy. (4)

Países como la Argentina, Brasil y México siguen siendo los depositarios de un luminoso futuro capitalista que nunca se concreta y que, al contrario, los aleja cada día más de los capitalismos desarrollados, perpetuando su condición de eternos "países del futuro."
Derrumbe y resurrección de la ortodoxia

En la década de los sesentas el influjo ideológico de los paradigmas dominantes en las ciencias sociales se desvanece considerablemente: la consolidación de la revolución cubana y su definición socialista luego de Playa Girón; al ascenso del movimiento popular en toda América Latina; el auge de la lucha de clases en Europa, que culminaría con los grandes conmociones de 1968; los impetuosos movimientos en favor de los derechos civiles en los Estados Unidos y la reafirmación de los movimientos de liberación nacional en el Tercer Mundo, a todo lo cual se agregaría, poco después, el demoledor impacto de la Guerra de Vietnam que termina de hacer saltar por los aires el laborioso andamiaje construido por las ciencias sociales norteamericanas desde finales de la segunda guerra mundial. El colapso teórico de la teorización rostowiana tiene su correlato en el derrumbe de la sociología parsoniana, la crisis de las teorías de la modernización y la bancarrota del conductismo en la ciencia política. En América Latina esta crisis teórica se acentúa por la presencia de la Revolución Cubana y el progresivo deterioro de la situación económica, social y política de los países de mayor desarrollo capitalista una vez agotado el ciclo de la industrialización sustitutiva, lo que promovió el breve auge de las diversas corrientes de la teoría de la dependencia. En sus distintas variantes, que van desde la ya mencionada obra de André Gunder Frank, Ruy Mauro Marini y Theotonio dos Santos hasta Fernando H. Cardoso y Enzo Faletto, pasando por Aníbal Quijano, Agustín Cueva y tantos otros, la teorización de la dependencia tenía como rasgos unificadores la crucial relevancia asignada al carácter histórico del desarrollo capitalista, el papel de sus diversos agentes, la inserción de los países en un mercado mundial signado por profundas asimetrías y la centralidad de la problemática política y estatal. A mediados de los setentas la crisis política generalizada en la región, emblematizada por la violenta liquidación de la "vía chilena al socialismo" liderada por Salvador Allende y la Unidad Popular, del experimento radical democrático de Juan José Torres y la Asamblea Popular en Bolivia, el termidor sufrido por la revolución peruana con el desplazamiento de Velasco Alvarado, y el sangriento desenlace del retorno del peronismo en la Argentina precipitó un nuevo cambio en el paradigma dominante. En este caso se trató mucho menos de una derrota en el plano de las ideas que de las consecuencias del período más ferozmente represivo conocido por la América Latina contemporánea, lo que implicó que muchos de los teóricos de la dependencia y sus seguidores conocieran el exilio, la cárcel y, en no pocos casos, la muerte.

No es el propósito de este trabajo examinar los alcances y límites de las contribuciones de los dependentistas, bien conocidas en nuestra región. Nos basta simplemente con resaltar la coincidencia entre sus pronósticos pesimistas acerca del desarrollo del capitalismo en la periferia, formulados desde una perspectiva de izquierda, y los que brotan de la pluma de de Schweinitz, una nota desafinada en el monocorde ambiente de la academia norteamericana. (5)

Medio siglo después, Argentina y Brasil siguen estando "condenados al éxito", como lo asegura con su inclaudicable optimismo uno de los principales científicos sociales de Brasil, Helio Jaguaribe, pero su realidad económica y social demuestra que lejos de acortar su distancia con los países desarrollados ocurrió exactamente lo contrario y ahora están más lejos que antes.
La "centro-izquierda" latinoamericana y su apuesta al desarrollo del capitalismo
  
Si hemos sometido a la consideración del lector estas tesis pesimistas acerca de la imposibilidad del desarrollo en la periferia -¡que no quiere decir imposibilidad de registrar, por momentos, altas tasas de crecimiento económico!- es porque el devenir de la historia ha demostrado, transcurrido casi medio siglo, que los diagnósticos que se oponían al ingenuo más no desinteresado optimismo de Rostow y sus colegas estaban en lo cierto. Actualizar esta certeza es bien oportuno en nuestros días, cuando proliferan una serie de gobiernos de "centro-izquierda" que, en América Latina, proclaman con ciego entusiasmo su confianza en culminar exitosamente su marcha hacia el desarrollo -o entrar al Primer Mundo, como se decía en los noventas- transitando por una ruta que fue clausurada hace mucho tiempo. (6)

En este sentido, los gobiernos de la llamada "centro-izquierda" se han llevado todas las palmas. Su fidelidad a las orientaciones generales del Consenso de Washington, fidelidad que no desmentida por una cierta retórica "progresista" -estentórea, a veces, como en el caso argentino; aflautada, en otros, como en los casos de Brasil, Chile y Uruguay- les hace creer que si persisten en las políticas ortodoxas recomendadas por el FMI, el Banco Mundial y la OMC algún día, más pronto que tarde, llegarán a ser países como los europeos o los Estados Unidos. Desde su tumba el bueno de de Schweinitz seguramente debe estar sonriendo burlonamente ante tamaño disparate. Y, si pudiera regresar al reino de los vivos, seguramente que les preguntaría a los voceros de esos gobiernos acerca de las razones por las cuales hace casi un siglo que países como la Argentina, Brasil y México siguen siendo los depositarios de un luminoso futuro capitalista que nunca se concreta y que, al contrario, los aleja cada día más de los capitalismos desarrollados, perpetuando su condición de eternos "países del futuro." Antes de la Gran Depresión de 1929 el pensamiento convencional de las ciencias sociales auguraba para la Argentina un futuro esplendoroso. Y lo mismo ocurriría con Brasil luego de la Segunda Guerra Mundial, en donde su alianza con los Estados Unidos y el envío de sus tropas a colaborar en la empresa bélica en los campos europeos supuestamente le abriría de par en par las puertas de la colaboración norteamericana lo que garantizaría una ruta segura a los niveles de desarrollo existentes en el Primer Mundo. La construcción, con la ayuda de un crédito del Eximbank avalado por los Estados Unidos, de la planta siderúrgica de Volta Redonda, a comienzos de los cincuenta fue vista por muchos como una clara señal de que el proceso estaba en marcha y era irreversible. Medio siglo después, Argentina y Brasil siguen estando "condenados al éxito", como lo asegura con su inclaudicable optimismo uno de los principales científicos sociales de Brasil, Helio Jaguaribe, pero su realidad económica y social demuestra que lejos de acortar su distancia con los países desarrollados ocurrió exactamente lo contrario y ahora están más lejos que antes. Lo mismo puede decirse del caso mexicano, sin la menor duda: si algo hizo el TLC inaugurado el 1º de Enero de 1994 fue ensanchar el hiato que separaba a la economía mexicana de las de Estados Unidos y Canadá.

Pese a esta abrumadora evidencia el mito del desarrollo capitalista nacional y su premisa, la existencia de una burguesía nacional, siguen ejerciendo un enfermizo atractivo en la dirigencia "progresista" latinoamericana, a punto tal que en fechas recientes esta patología concitó la atención de un distinguido estudioso marxista, Vivek Chibber, quien sobre la base de una evidencia comparativa internacional demolió inmisericordemente tales tesis. (Chibber, 2005) Este ascendiente revela los alcances de la victoria ideológica del neoliberalismo en la "batalla de ideas": si en la segunda mitad de la década de los sesentas había tomado cuerpo una teorización y una propuesta política en torno a una "vía no capitalista de desarrollo" que se manifestó de diversas maneras en los distintos países - con Salvador Allende y Radomiro Tomic en las elecciones presidenciales chilenas de 1970; en el régimen de Velasco Alvarado en el Perú de finales de los sesentas; en la tentativa de Juan José Torres en la Bolivia de la Asamblea Popular de 1971, siendo los casos más importantes- a partir de la contra-ofensiva capitalista lanzada desde mediados de los setentas esa alternativa fue barrida con un baño de sangre. El resultado es que hoy gran parte de la "centro-izquierda", producto de aquella derrota en el crucial terreno de las ideas, renueva su creencia en el desarrollo capitalista nacional impulsado por una figura espectral: la "burguesía nacional".

Hoy gran parte de la "centro-izquierda", producto de aquella derrota en el crucial terreno de las ideas, renueva su creencia en el desarrollo capitalista nacional impulsado por una figura espectral: la "burguesía nacional".
La persistencia de un mito

Veamos algunos ejemplos extraídos de la presente coyuntura. En la Argentina, por ejemplo, el presidente Néstor Kirchner reafirma su decisión de construir un "capitalismo serio", alentando la constitución de una "burguesía nacional" capaz de conducir la maltratada economía argentina hacia el puerto seguro del desarrollo. Esa fue una de sus primeras definiciones programáticas en el discurso inaugural de su mandato, el 25 de Mayo de 2003, cuando ante la Asamblea Legislativa decía que "(e)n nuestro proyecto ubicamos en un lugar central la idea de reconstruir un capitalismo nacional que genere las alternativas que permitan reinstalar la movilidad social ascendente."

Esta obstinación habría de acentuarse con el paso de los años, lo que quedó en evidencia en su viaje a la Asamblea General de la ONU, en Nueva York, en el mes de Septiembre de 2006, ocasión en la cual tanto Kirchner como la Senadora Cristina Fernández de Kirchner, su eventual sucesora en la Casa Rosada, dieran muestras de su incondicional adhesión al capitalismo y al mito del desarrollo capitalista nacional. En esa ocasión el presidente aceptó una invitación de la Bolsa de Valores de Nueva York (NYSE) para visitar su sede y disfrutar del dudoso privilegio de tocar la campana que indica el cierre de las operaciones del día. En dicha oportunidad Kirchner dijo, evidenciando un sincero arrepentimiento, que "agradezco el gesto del mercado de invitarnos aquí. La Argentina está volviendo al lugar del que nunca debió haber salido". (Rodríguez Yebra, 2006). Lo curioso del caso, es que de hecho la Argentina jamás se había marchado de ese lugar. Por el contrario, siempre estuvo allí, por lo menos desde mediados de la década de los cincuentas como uno de los países más endeudados del planeta y jugosa presa de todo tipo de operaciones especulativas y de pillaje realizadas desde ese sagrado recinto: desde el doloso "megacanje" de la deuda externa de la época de De la Rúa/Cavallo, hasta las fraudulentas privatizaciones y la apertura indiscriminada de ordenadas por Menem/Cavallo pasando por innumerables tropelías y latrocinios de ese tipo. ¿Ignoraba Kirchner al pronunciar sus palabras que cerca del 95 por ciento de las operaciones que tienen lugar en el sistema financiero internacional -del cual Wall Street es su corazón- son de carácter especulativo, razón por la cual una investigadora como Susan Strange, nada sospechosa de propensiones izquierdistas, bautizó a dicho sistema como un "capitalismo de casino", parasitario e irresponsable, depredador de mercados y naciones, cuya febril búsqueda de lucro no se detiene ante nada o ante nadie sembrando a su paso crisis, destrucción y muertes? Similares declaraciones expresó bajo el amparo de un organismo como el Council of the Americas, uno de los principales sostenes ideológicos del imperio- despejando cualquier duda que pudiera subsistir sobre la naturaleza de su gobierno: una variedad del "centro-izquierda", por momentos vociferante pero siempre inquebrantablemente identificada con la perpetuación del capitalismo en la Argentina y, pese a gestos y retóricas estridentes, cada vez más dócil ante los dictados de la Casa Blanca.

Hay que agregar que ya, con anterioridad a esta fecha y en numerosas ocasiones, Kirchner se había referido reiteradamente a la necesidad de implantar en la Argentina un capitalismo "serio", "nacional" e "inteligente", adjetivos éstos que supuestamente obrarían el milagro de convertir a un régimen basado en la explotación del trabajo asalariado en una fraternal comunidad de iguales. Uno de los problemas con que se enfrenta el presidente es que en la Argentina el capitalismo nada serio sino, por el contrario, "sonriente", "irresponsable", "de los compinches" (croony capitalism), "trasnacionalizado" y torpe, en vez de inteligente, produjo espléndidos resultados para los capitalistas, con tasas exorbitantes de ganancias y con la consolidación de extraordinarios privilegios que ningún burgués "serio" pensaría que es razonable abandonar por más que lo solicitara el primer mandatario. ¿Cómo convencer a quien se encuentra instalado en el diez por ciento más rico de la Argentina -y cuyos ingresos en 2003 eran 56 veces superiores a los del diez por ciento más pobre- que es urgente y necesario pasar a un capitalismo "serio", que evite tan flagrante e intolerante injusticia? Lo más probable es que el capitalista en cuestión considere "poco seria" la preocupación presidencial por la "seriedad" de un capitalismo que produce tan magníficos resultados, recompensando a los empresarios y a los inversores con tan fenomenales ganancias.

Esta explícita voluntad de situar los parámetros fundamentales de la sociedad capitalista fuera de cualquier posible impugnación, no así sus manifestaciones más aberrantes, fueron ratificados en ese mismo viaje en una conferencia dictada en la Universidad de Columbia por la senadora Cristina Fernández de Kirchner. En esa ocasión la esposa del presidente -sin duda, una de sus más autorizadas voceras- declaró que las políticas del gobierno de Kirchner se sitúan del lado del capitalismo. '¿Qué es el capitalismo?', se preguntó. Su respuesta: lo que hizo caer al muro del Berlín no fue "el poderío de Estados Unidos sino que el capitalismo es una mejor idea que el comunismo, y si el capitalismo se distingue frente a otras doctrinas es por la idea del consumo'. Sus críticas al FMI se apoyan en la inconsistencia de sus prédicas con el supuesto núcleo del capitalismo, sus "mejores ideas", dado que "con sus políticas de ajuste lo primero que hace es restringir el consumo" y, en consecuencia, debilitar el impulso capitalista. (Baron, 2006)

En el caso del Brasil, la persistencia de este mito (unido a la necesidad de edulcorar su imagen de sindicalista combativo) impulsó al candidato del PT para las elecciones del 2002, Luiz Inacio "Lula" da Silva a forjar una alianza tan desmovilizadora como anacrónica con un representante de la "burguesía nacional" brasileña, un sector supuestamente identificado con el desarrollo económico y el fortalecimiento del mercado interno, la expansión del empleo y, por esta vía, una cierta redistribución del ingreso.
¿Un capitalismo nacional sin "burguesía nacional"?

Volviendo al discurso inaugural de Kirchner, ¿Qué grado de realismo tiene hoy, en un mundo de mercados transnacionalizados y de impetuosa mundialización de los procesos productivos, comerciales y financieros, apostar a un desarrollo capitalista nacional? Pregunta indispensable sobre todo en una formación social como la argentina, en la cual el grado de extranjerización de la economía ha avanzado a ritmo desenfrenado y es uno de los mayores de toda la región. Respuesta: ningún grado de realismo. Es pura fantasía. Raúl Zibechi, en un texto sumamente interesante que desnuda el anacronismo de esta opción, cita una categórica afirmación de Samir Amin diciendo que "ya no hay más una burguesía nacional". Afirmación un tanto excesiva pero que contiene importantes elementos de verdad. (Zibechi, p. 1). Excesiva, decimos, porque algunos países de las metrópolis capitalistas todavía se caracterizan por la presencia de ciertos conglomerados empresariales equivalentes a una "burguesía nacional" si bien diferentes al modelo clásico de esta clase tal cual aparecía en la segunda mitad del siglo diecinueve y comienzos del veinte. Tal es el caso de Estados Unidos, Japón, Corea y los principales países europeos, cuyas grandes empresas si bien operan a escala planetaria y tienen un horizonte de acumulación que trasciende con creces las fronteras nacionales tienen sus casas matrices en esos países, se protegen con sus jueces y sus leyes, cuentan con sus gobiernos para acudir en defensa de sus intereses cuando son amenazados y es hacia allí donde canalizan las ganancias que obtienen en los mercados mundiales. Y con relación a la Argentina agrega que "el último intento de burguesía nacional que hubo en la Argentina fue Perón. No creo que haya actualmente una burguesía nacional en Argentina. Existe una burguesía compradora que imagina su enriquecimiento, como proyecto, en el marco del capitalismo global tal como es, sin ambición alguna de modificar los términos de este capitalismo." Amin no duda que puedan existir "proyectos de burguesía nacional en los países ex socialistas. Principalmente: Rusia y China … pero no hay un proyecto de burguesía nacional en ningún otro país, sean los países más industrializados como Argentina, Brasil, Egipto e India o países menos industrializados, como los de Africa subsahariana. ¡Ya no hay más burguesía nacional!" Sin entrar en polémicas, insistimos: lo que dice Amin es indiscutible para la periferia, pero mucho más debatible cuando concentramos nuestra atención en el capitalismo mundializado, (Roffinelli y Kohan, 2003) (7)

Podría argüirse que, a diferencia de la Argentina, en el caso de Brasil, esta expectativa sobre las potencialidades desarrollistas de la "burguesía nacional" tiene un cierto fundamento. Después de todo Brasil fue, junto a México, uno de los dos únicos países de América Latina que contó con una pujante "burguesía nacional". En la Argentina una formación relativamente similar existió entre 1870 y 1930: se trataba de una clase de grandes propietarios agrarios aburguesados íntimamente asociados a una "burguesía compradora" fuertemente anglófila y estrechamente ligada a economía británica. Pero cuando este proyecto se agotó, con el derrumbe capitalista de 1929, la "burguesía nacional" que tenía que dar un paso al frente para establecer su hegemonía brilló por su ausencia. Y si bien el peronismo trató de insuflarle los bríos necesarios para cumplir con su supuesta "misión histórica" esa clase -en realidad, un agrupamiento heteróclito de empresarios sin ninguna visión de conjunto ni proyecto nacional- se reveló como extraordinariamente débil y para nada dispuesta a luchar contra el imperialismo y sus poderosos aliados locales. Capituló con ignonimia a los pocos años, en 1955, a manos de una alianza oligárquico-clerical que supo movilizar el resentimiento de los vastos sectores medios que se sentían amenazados por las políticas de promoción social impulsadas por el peronismo y que habían dotado a los sectores populares de una gravitación económica y social sin precedentes. Dicha alianza, hay que decirlo, contó con el discreto apoyo del imperialismo norteamericano, que en 1945 se había opuesto frontalmente a Perón. Pero ahora le temía menos a las políticas económicas del peronismo, que a esas alturas ya estaban "alineadas" con las directivas imperiales, que a los eventuales desbordes populares que podrían producirse ante la descomposición del régimen y que, se decía en los pasillos oficiales de Washington, corrían el riesgo de tener un desenlace revolucionario. (8)

En el caso del Brasil, la persistencia de este mito (unido a la necesidad de edulcorar su imagen de sindicalista combativo) impulsó al candidato del PT para las elecciones del 2002, Luiz Inacio "Lula" da Silva a forjar una alianza tan desmovilizadora como anacrónica con un representante de la "burguesía nacional" brasileña, un sector supuestamente identificado con el desarrollo económico y el fortalecimiento del mercado interno, la expansión del empleo y, por esta vía, una cierta redistribución del ingreso. Sin embargo, la presencia del empresario José Alencar no traspasó los límites de lo meramente ornamental: fue durante la primera presidencia de Lula cuando el capital financiero obtuvo las más fabulosas tasas de rentabilidad de toda la historia del Brasil, con el previsible impacto devastador sobre los restos de una "burguesía nacional" absolutamente impotente para torcer el rumbo de la política económica ultraneoliberal que, con al aval de Lula, la estaba destrozando. En ese sentido, los reiterados lamentos del vicepresidente por los efectos de las políticas del superministro fueron penosos testimonios de la incapacidad política de una clase que, a pesar de los nostálgicos, ya hacía tiempo que había perdido los atributos que, en el pasado, le posibilitaron ejercer un papel más decoroso en el escenario nacional.

Claro está que los casos de Brasil y México tampoco son idénticos. Tal como lo argumentara hace ya muchos años Agustín Cueva, México fue sede de la única revolución burguesa triunfante en América Latina. Otras tentativas, según Cueva, como Guatemala en 1944 o Bolivia, en 1952, fracasaron en ese intento. La primera ahogada en sangre por la invasión de Castillo Armas, orquestada por la CIA, y la segunda producto de la ferocidad de la reacción termidoriana que puso fin a la insurgencia popular de los mineros y campesinos bolivianos. El caso de México obliga a introducir una distinción que reiteradamente propusiera Lenin para comprender la peculiaridad de las revoluciones burguesas en los capitalismos periféricos: una cosa son las fuerzas motrices de la revolución y otra bien distinta las fuerzas dirigentes de la misma. En México las fuerzas motrices de la Revolución Mexicana fueron el campesinado y, en menor medida, los sectores populares urbanos; pero las fuerzas dirigentes fueron la pequeña burguesía y un incipiente sector burgués que montado sobre la oleada revolucionaria proveniente "desde abajo" liquidó el viejo orden y sentó las bases para un vigoroso desarrollo económico una de cuyas consecuencias sería la creación de la más pujante "burguesía nacional" de América Latina. En el caso de Brasil, Florestán Fernándes ha señalado que la revolución burguesa asumió más bien las características que Gramsci sintetizara en su concepto de "revolución pasiva", es decir, una tentativa de fundar un orden burgués pero sin un proceso revolucionario que movilizara a las clases y capas subalternas para destruir los cimientos del viejo orden. Revolución burguesa tardía porque comenzó simultáneamente con la rápida transnacionalización del capitalismo de posguerra que produciría el agotamiento del proyecto de desarrollo capitalista nacional; y débil, además, porque la representación de los intereses "nacionales" de los sectores burgueses -acosados por la dinámica imperialista tanto como por una impetuosa movilización popular- tuvo que descansar en manos de las fuerzas armadas. Esto dio lugar a una suerte de "cesarismo regresivo", para utilizar una vez más una categoría de análisis gramsciano, en donde la "burguesía nacional" brasileña para reafirmar su predominio tuvo que subordinarse a -y no sólo hacerse representar por- las fuerzas armadas durante veinte años, con la irremediable distorsión de su lógica de acumulación. La caída del régimen militar puso en evidencia los límites de esta estrategia. (9)

A comienzos del siglo veintiuno tanto Brasil como México -y en mucho mayor medida la Argentina- atestiguan por una parte la acelerada descomposición de la "burguesía nacional"; por la otra, que por más que haya habido prolongados períodos de crecimiento económico éstos no fueron suficientes para hacer que aquellos países superasen las fronteras del subdesarrollo.
Lecciones de la historia económica

Las enseñanzas que pueden extraerse de estos ejemplos, sucintamente presentados, son inequívocas. A comienzos del siglo veintiuno tanto Brasil como México -y en mucho mayor medida la Argentina- atestiguan por una parte la acelerada descomposición de la "burguesía nacional"; por la otra, que por más que haya habido prolongados períodos de crecimiento económico éstos no fueron suficientes para hacer que aquellos países superasen las fronteras del subdesarrollo.

En México la etapa del "desarrollo nacional-burgués" culminó en 1976. Se abrió en ese momento un interregno que se prolongó hasta Agosto de 1982 cuando el catastrófico default mexicano precipitó la crisis de la deuda en todo el mundo. Comenzó entonces un período signado por la progresiva imposición de las políticas neoliberales y, a partir de 1988, en el sexenio de Salinas de Gortari, por la capitulación incondicional del PRI y la burguesía mexicana ante el capital norteamericano y el desmantelamiento de casi todas las conquistas de la Revolución Mexicana, línea ésta que habría de continuarse y profundizarse en los gobiernos del PAN que le sucedieron. El triunfo de este partido en las elecciones presidenciales del 2000, y el del candidato de la derecha radical Felipe Calderón en los fraudulentos comicios del 2006 no hicieron sino ratificar en el plano de las estructuras políticas y estatales la creciente subordinación de facto de México a los dictados de Washington y el sometimiento de la herida de muerte "burguesía nacional" a manos del capital extranjero. La privatización de las empresas públicas y la absorción de las privadas nacionales -amén de la competencia desigual facilitada por la firma del TLC- hizo que grandes conglomerados transnacionales fundamentalmente estadounidenses tomaran bajo su control casi todos los sectores estratégicos de la economía mexicana, socavando el basamento material de lo que en sus épocas de gloria fuera la "burguesía nacional" más poderosa de América Latina.

Un proceso semejante se ha vivido en el Brasil, donde la transnacionalización de su atractivo mercado interno -potencialmente enorme- ha ido desplazando a los viejos sectores burgueses nacionales hacia las áreas menos rentables de la economía. Las grandes empresas públicas fueron o bien privatizadas o desmanteladas, para su venta por partes, y las políticas de atracción del capital extranjero a cualquier costo, facilitadas por la estructura federal del estado brasileño, impulsó una suicida race to the bottom de los gobiernos estaduales que ofrecían una escalada sin límites de exenciones tributarias y fiscales a las empresas extranjeras para atraerlas a que se radiquen en su territorio, arrojando por la borda no sólo eventuales ingresos fiscales sino también controles medioambientales y laborales de diverso tipo. La Argentina, por su parte, ostenta el dudoso honor de ser el país con mayor grado de extranjerización de su economía, donde todo fue malvendido y enajenado durante el fatídico decenio del capitalismo salvaje presidido por Carlos S. Menem. Venezuela, Bolivia, Colombia, además de Brasil y México, se las ingeniaron para preservar el control estatal de la riqueza petrolera; en Argentina, en cambio, YPF fue privatizada. Y si México pudo hasta hoy conservar el control público sobre la Comisión Federal de Electricidad, en la Argentina su homóloga fue seccionada en dos partes y privatizada a precio vil. Lo mismo ocurrió con el gas, los teléfonos, la aeronavegación, el agua y un sinfín de empresas públicas que habían sido fundadas con los ahorros de los argentinos y que, en medio de un festival sin precedentes de corruptelas de todo tipo, fueron transferidas a manos extranjeras. En algunos casos, a empresas estatales extranjeras, como lo era Repsol cuando se adueñó de YPF. O, en otros, facilitando que la segunda empresa petrolera argentina, de capitales privados, fuese adquirida por una empresa pública como Petrobrás, lo cual contradecía flagrantemente el discurso neoliberal acerca de la "ineficiencia" propia de las empresas públicas.. De ahí que la extranjerización de la economía argentina sea hoy un dato grotesco para un país cuyas empresas del estado fueron, en su mejor momento, puntales del desarrollo nacional cumpliendo importantísimas funciones económicas y sociales que la pusilánime "burguesía nacional" nunca se preocupó por asumir y que el gobierno actual no tiene intenciones de recuperar.

La declaración del Presidente Hugo Chávez Frías en el sentido de que dentro del capitalismo no hay solución para los problemas de América Latina sintetiza adecuadamente el resultado de numerosos estudios e investigaciones.
Para resumir: la sucinta enumeración anterior ilustra con elocuencia el proceso de descomposición e irreversible debilitamiento de las "burguesías nacionales", fenómeno que como asegura Chibber se reproduce por doquier en la periferia del sistema.. En las tres economías más grandes de América Latina se verifica el mismo proceso de debilitamiento/descomposición y nada autoriza a pensar que en las demás la tendencia histórica se mueva en una dirección contraria. Los avances de los diversos TLCs (bilaterales: con Chile, Colombia, Perú; o multilaterales, como los de las economías centroamericanas y República Dominicana) si algo van a hacer es practicar con fruición la eutanasia del empresariado nacional, y concentrar los negocios en manos de los grandes conglomerados norteamericanos que impulsan los proyectos que ejecuta la Casa Blanca.

Pero hay además otra cuestión que debe ser considerada: en los casos de Brasil y México, los dos países con las más poderosas "burguesías nacionales", el proceso de acumulación que éstas supieron impulsar de ninguna manera logró que aquellos accedieran al rango de capitalismos desarrollados. (10) México conoció un período de extraordinario crecimiento económico entre 1940 y 1976, "el desarrollo estabilizador", un desempeño económico extraordinario sostenido por un inusualmente prolongado período de tiempo. Y sin embargo, después de tanto esfuerzo lo que se encontró al final del camino no fue el límpido cielo del desarrollo sino la tremenda crisis de 1982 y, luego, la recomposición regresiva y reaccionaria del capitalismo mexicano bajo la égida del capital financiero, las empresas transnacionales y la presión de la Casa Blanca. Por lo tanto, lo que esto demuestra es que pese a las elevadas tasas de crecimiento sostenidas durante treinta y seis años el capitalismo periférico fue incapaz de dar el salto que le permitiera superar la barrera que separa subdesarrollo de desarrollo. Resultado similar se obtuvo luego de mal llamado "milagro económico" de los militares brasileños, que por algunos años registró tasas elevadas de crecimiento económico. Y otro tanto ocurrió en la Argentina, a comienzos de los noventas y, de modo aún más rotundo en los últimos cuatro años, cuando el país luego de la gran crisis del período 1998-2002 -y que tuvo su climax en las grandes movilizaciones populares de Diciembre de 2001- se embarcó en un período de 47 meses de crecimiento económico ininterrumpido con tasas tan elevadas como las de China y, sin embargo, los problemas crónicos del subdesarrollo, que afectan a Brasil y a México, también se exhiben con singular nitidez en la Argentina: pobreza, exclusión social, desempleo, altas tasas de analfabetismo abierto y funcional, baja productividad media, profundos desequilibrios regionales, debilidad estatal para imponer reglas del juego en la economía, retraso tecnológico, vulnerabilidad externa, fragilidad de las instituciones democráticas (cuando las hay), y múltiples formas de dependencia económica de los centros imperialistas del poder mundial. (11)

En síntesis: en estos tres países hubo crecimiento económico, y en algunos casos el crecimiento, evidentemente con discontinuidades, llegó a ser realmente impresionante. Sin embargo, ninguno dejó de ser un país subdesarrollado y, por eso, al día de hoy exhiben los rasgos que caracterizan tal situación. Hubo una sola excepción en la historia económica contemporánea: Corea, el único país que en el siglo veinte trascendió las fronteras que separan subdesarrollo de desarrollo. Uno de los pocos, también, que a diferencia de los países de América Latina, jamás aplicó los "buenos consejos" del FMI, el BM y el Consenso de Washington y que, por eso mismo, fue el último en subirse al tren del desarrollo capitalista antes de que se alejara definitivamente de la estación a mediados del siglo veinte. Todos los demás llegaron tarde y ahora quedarse a esperar su regreso es un arrebato de nostalgia destinado inexorablemente al fracaso. (12)

Para resumir: la sucinta enumeración anterior ilustra con elocuencia el proceso de descomposición e irreversible debilitamiento de las "burguesías nacionales", fenómeno que como asegura Chibber se reproduce por doquier en la periferia del sistema.. En las tres economías más grandes de América Latina se verifica el mismo proceso de debilitamiento/descomposición y nada autoriza a pensar que en las demás la tendencia histórica se mueva en una dirección contraria. Los avances de los diversos TLCs (bilaterales: con Chile, Colombia, Perú; o multilaterales, como los de las economías centroamericanas y República Dominicana) si algo van a hacer es practicar con fruición la eutanasia del empresariado nacional, y concentrar los negocios en manos de los grandes conglomerados norteamericanos que impulsan los proyectos que ejecuta la Casa Blanca.
Repensar al socialismo

La conclusión de estas breves reflexiones sobre la historia económica comparada es la siguiente: quien quiera hoy hablar de desarrollo tiene que estar dispuesto a hablar de socialismo; y si no quiere hablar de socialismo debe callar a la hora de hablar del desarrollo económico. La experiencia internacional es taxativa: países considerados "la gran promesa", poseedores de un futuro brillante en el concierto capitalista mundial, se debaten en medio del subdesarrollo, la pobreza y la dependencia un siglo después de aquellos pronósticos tan favorables. Los gobiernos y el público en general tienen que admitir que, como dijera de Schweinitz, esa ruta está clausurada y que es necesario crear una opción nueva. La declaración del Presidente Hugo Chávez Frías en el sentido de que dentro del capitalismo no hay solución para los problemas de América Latina sintetiza adecuadamente el resultado de numerosos estudios e investigaciones. Si hay una solución -y si tenemos tiempo de encontrar una solución dada la amenaza de holocausto ecológico que se cierne sobre el planeta- habrá que buscarla fuera del capitalismo, en el campo del socialismo. (13)

Por lo tanto, la propuesta de avanzar en la construcción del socialismo del siglo veintiuno es una invitación que no debe ser desechada. Claro está que, en el terreno económico, se trata de un socialismo superador de la anacrónica antinomia "planificación centralizada o mercado incontrolado" y que, en cambio, abre espacios para la imaginación creadora de los pueblos en la búsqueda de nuevos dispositivos de control popular de los procesos económicos, dotados de la flexibilidad suficiente para responder con rapidez al torrente de innovaciones que día a día modifica la fisonomía del capitalismo contemporáneo. Un socialismo que potencie la descentralización y la autonomía de las empresas y unidades productivas y, al mismo tiempo, haga posible la efectiva coordinación de las grandes orientaciones de la política económica. Un socialismo que promueva diversas formas de propiedad social, desde empresas cooperativas hasta empresas estatales y asociaciones de éstas con capitales privados, pasando por una amplia gama de formas intermedias en donde trabajadores, consumidores y técnicos estatales se combinen de diversa forma para engendrar nuevas relaciones de propiedad sujetas al control popular. Uno de los problemas más serios que tuvo la experiencia soviética, y todas las que en ellas se inspiraron, fue la de confundir la propiedad pública con la propiedad estatal. Uno de los desafíos más grandes del socialismo del siglo veintiuno será demostrar que existen formas alternativas de control público de la economía distintas a las del pasado. Pero, es preciso tener en claro que tal como lo dijera en su tiempo Rosa Luxemburgo, el futuro, sobre todo para los sobrevivientes del holocausto social del neoliberalismo, es el socialismo o, en caso de que no logremos construirlo, ser testigos de la perpetuación y agravamiento de esta barbarie que pone en peligro la sobrevivencia misma de la especie humana.

Estamos ante una situación crítica en la cual, como dijera Simón Rodríguez, "o inventamos o erramos". No hay modelos por imitar, Puede haber experiencias que sirvan como fuentes de inspiración, pero nada más. Una China que alimenta a diario a mil trescientos millones de personas seguramente que tendrá algo digno de ser aprendido en el terreno de la producción agraria. Un Vietnam que renace de las cenizas de la destrucción de que fuera objeto a manos de los Estados Unidos también tiene algo que enseñarnos. Los extraordinarios logros de Cuba en materia de salud y educación contienen valiosísimas lecciones que los países subdesarrollados deben estudiar con suma atención. Pero la construcción del socialismo del siglo veintiuno, condición necesaria para el desarrollo de nuestras sociedades, no puede ser producto de actos imitativos. Fidel dijo reiteradamente que "cada vez que copiamos nos equivocamos", subrayando la sabiduría contenida en la sentencia de Simón Rodríguez. Y un gran teórico marxista latinoamericano, José Carlos Mariátegui, ya había advertido los alcances de este desafío cuando dijera que el "socialismo en América Latina no puede ser calco y copia sino invención heroica de nuestros pueblos." Es con este predicamento que nuestros pueblos deberán construir el socialismo del siglo veintiuno, condición necesaria para salir definitivamente del subdesarrollo.

Notas:

1) El Che participó, como Ministro de Industrias de Cuba, en la Conferencia del Consejo Interamericano Económico y Social (CIES), un organismo dependiente de la OEA, que sesionó en Punta del Este entre el 5 y el 18 de Agosto de 1961, a escasos cuatro meses de la fallida invasión a Playa Girón. En su primera intervención en la Conferencia el Che pronunció un vibrante alegato denunciando los modestísimos alcances de un supuesto programa de desarrollo económico auspiciado por los Estados Unidos, la fallida Alianza para el Progreso, representado en la Conferencia por su Secretario del Tesoro, Douglas Dillon, que por su énfasis en la construcción de redes cloacales el revolucionario argentino-cubano denominó sarcásticamente como "la letrinización de América Latina". Los modestos objetivos que se proponía la Alianza, que ni siquiera fueron alcanzados por ningún país, contrastaban llamativamente con las grandes realizaciones que Cuba había logrado en dos años y medio de revolución y que la habían convertido, entre otras cosas, en el primer territorio libre de analfabetos de las Américas.

2) Para un análisis sobre la naturaleza y el impacto de las ideas de Rostow véase Roffinelli y Kohan, 2003.

3) No deja se ser asombrosa la coincidencia de perspectivas entre la obra de un teórico conservador como Walter W. Rostow y la de quienes, desde una perspectiva presuntamente crítica, se inspiran en la obra de Hardt y Negri. En una entrevista concedida al matutino argentino Página/12 Cocco y Negri descalifican al concepto de imperialismo y juzgan como lamentable al "antiimperialismo". No podrían haber estado más de acuerdo con el teórico preferido de la Administración Kennedy. Cf. Gago, 2006

4) Un ejemplo de nuestros días lo ofrece la obra de Hardt y Negri, Imperio, en la cual se asegura que países como Bangladesh y Haití se encuentran al interior del imperio puesto que éste todo lo abarca. Pero, ¿se hallan por eso en una posición comparable a la de los Estados Unidos, Francia, Alemania o Japón? Si bien afortunadamente admiten que no son idénticos desde el punto de vista de la producción y circulación capitalistas Hardt y Negri concluyen, para estupor de los estudiosos, que entre "Estados Unidos y Brasil, Gran Bretaña y la India no hay diferencias de naturaleza, sólo diferencias de grado", tesis ésta que suscribiría con entusiasmo el propio Rostow. (Hardt y Negri, p. 307) Como bien recuerda Amin, las periferias del sistema mundial no son tan sólo "formaciones desigualmente desarrolladas" sino que se trata de formaciones sociales interdependientes precisamente en función de esa desigualdad. Para una crítica a la visión radicalmente equivocada y funcional al imperialismo de Hardt y Negri ver Boron, 2002.

5) Al momento de escribir su libro nuestro autor era profesor de la Northwestern University, una universidad de elite radicada nada menos que en Chicago y muy influenciada por el prestigio intelectual que por entonces gozaba la Escuela de Chicago de donde saldría, entre otros, uno de los grandes ideólogos de la contrarrevolución neoliberal de los años setentas. Nos referimos a Milton Friedman, por supuesto.

6) Antes de proseguir con nuestra argumentación se impone una aclaración. Las usinas ideológicas de la derecha, con el auxilio invalorable de algunos ex -izquierdistas, ha impuesto un lugar común que podría sintetizarse así: si bien se produjo en América Latina un "giro a la izquierda" Washington no debe reaccionar indiscriminadamente ante el peligro que esto podría entrañar para la "seguridad nacional" norteamericana, el normal funcionamiento de los mercados y la seguridad jurídica de las inversiones extranjeras en la región. Existen, según los Castañedas, Vargas Llosas, Fuentes y tantos otros, dos izquierdas: una "seria y racional", que comprende la importancia de no interferir con la lógica de los mercados y otra, anatemizada como "radical", "populista" o "demagógica" según los diversos autores, empeñada en contradecirla. La primera vertiente incluye como ejemplos paradigmáticos los casos de la Concertación chilena y el gobierno de Lula en Brasil, si bien hay otros en la región que también podrían encuadrarse en este modelo como el de Tabaré Vázquez en Uruguay y Alan García en el Perú. Ejemplos rotundos de la segunda serían los de Cuba y Venezuela, a los que posteriormente se agregó el de Evo Morales en Bolivia y, más recientemente todavía, el de Rafael Correa en el Ecuador. El caso de Kirchner ocupa un lugar muy especial porque si bien por su retórica podría encasillárselo junto a Chávez y Evo, la orientación de sus políticas económicas -hecha excepción de la quita en los bonos de la deuda externa- se encuadra en los grandes lineamientos del Consenso de Washington. En realidad, cuando se habla de "izquerda" en América Latina tal caracterización le cabe exclusivamente a los gobiernos de Cuba, Venezuela, Bolivia y Ecuador. Los demás son, en el mejor de los casos, gobiernos de centro a los cuales el rótulo de "centro izquierda" les queda demasiado grande y constituye una distinción inmerecida en función de sus pobres desempeños en materia de justicia social.

7) Sobre este tema, ver Katz, 2004b.

8) Recordar la visita de Milton Eisenhower a la Argentina, testificando el cambio en las relaciones con los Estados Unidos, luego de que el gobierno peronista admitiera el ingreso de las firmas petroleras norteamericanas y abandonara las políticas heterodoxas utilizadas en el período 1946-1951. Para testimoniar esa reorientación, que implicaba un primer acercamiento al FMI, Eisenhower, enviado personal de su hermano Ike, a la sazón presidente de los Estados Unidos, fue condecorado con la medalla de la lealtad peronista, el máximo galardón otorgado por el partido a quienes sobresalían en su lucha por los principios de justicia social que supuestamente encarnaba el peronismo.

9) El superministro de las fuerzas armadas brasileñas en ese período no fue otro que Delfím Netto quien, en la actualidad, se cuenta como uno de los principales asesores del Presidente Lula. Este ha repetidamente señalado la excelente vinculación que lo une con el ex -funcionario del régimen militar. En una entrevista reciente Lula dijo que 'Pasé más de 20 años criticando a Delfim (cuando Lula militaba en el sindicato metalúrgico y luego en la Central Unica de Trabajadores) y ahora él es mi amigo y yo soy su amigo', afirmó. Luego aseguró que 'quien va más de derecha, va quedando más de centro. Quien está más de izquierda, va quedando más socialdemócrata, menos a la izquierda'. En esa misma entrevista Lula declaró que, habiendo cumplido los 60 años, "ya no está en edad para ser de izquierda." (Clarín, 2006)

10) Pese a que, bajo fuerte presión de EEUU, la OECD le confirió esa condición a México una vez que firmó el TLC con Estados Unidos y Canadá. Pero se trató de una maniobra propagandística del imperio y nada más. Los 500.000 mexicanos que cada año arriesgan su vida para cruzar la frontera demuestran con elocuencia la falacia de esa calificación.

11) Es preciso recordar que más allá de las etapas de altas tasas de crecimiento de corta duración un país como la Argentina registró muy elevados índices durante el período 1880-1914, sin que ello fuera suficiente para dar lugar a un capitalismo desarrollado. Otro tanto ocurrió con Brasil y México a lo largo de gran parte del siglo veinte, y los resultados fueron los mismos. Está fuera de toda discusión el hecho de que el crecimiento produjo una transformación económica importante en la periferia del sistema, pero en ningún caso ese desempeño sirvió para instalar a esos tres países en el selecto club de los capitalismos desarrollados.

12) Alguien podría aducir, sin embargo, que el desarrollo de España, Portugal, Grecia e Irlanda demuestra que el tren del desarrollo capitalista retorna recurrentemente posibilitando que nuevos países se incorporen al mundo desarrollado. Pero, en realidad, esto no es así. España y Portugal fueron grandes metrópolis imperiales durante siglos, y su prolongada decadencia de ninguna manera puede equipararse a la situación de cualquiera de las sociedades coloniales de América Latina y el Caribe. Grecia fue durante siglos volátil botín del Imperio Otomano, Francia, Inglaterra y Rusia, e Irlanda una provincia sometida de la corona británica pero integrada a ese espacio económico. En todo caso el desarrollo de estos cuatro países es una proyección del proceso de acumulación capitalista en curso primero en las grandes potencias europeos y, posteriormente, en la Unión Europea. Lo que ésta ha hecho es equivalente a lo ocurrido cuando, por ejemplo, Italia aplicó desde los años sesenta del siglo pasado una política específica para promover el desarrollo de sus regiones más atrasadas, el Mezzogiorno. Eso mismo hizo la UE con los cuatro países mencionados. En el caso de América Latina, ¿quién está interesado en promover y financiar nuestro desarrollo?

13) Existe ya una abundante bibliografía en torno a la cuestión del socialismo del siglo XXI. Aparte de las diferentes intervenciones del Presidente Hugo Chávez Frías consúltese Katz, 2004 a, Katz, 2006; Kohan 2002; Martínez Heredia, 2005; Monedero, 2005; Petras, 2006; Puerta, 2006; Regalado Alvarez, 2005 Valdés Gutiérrez, 2006.

Bibliografía:

Baron, Ana 2006 "Cristina defendió el capitalismo y cuestionó otra vez el papel del FMI", en Clarín (Buenos Aires) 19 de Septiembre, p. 5

Boron, Atilio A. 2002 Imperio & Imperialismo. Una lectura crítica de Michael Hardt y Antonio Negri (Buenos Aires: CLACSO)

Chibber, Vivek 2005 "El mito del estado desarrollista", en Socialist Register en Español (Buenos Aires: CLACSO) Clarín 2006

"Declaraciones del Presidente de Brasil: Lula dice que es viejo para ser de izquierda", 13 de Diciembre.

de Schweinitz Jr, Karl 1964 Industrialization and Democracy. Economic necessities and political possibilities (Glencoe: The Free Press)

Frank, André Gunder 1964 Capitalism and Underdeveloment in Latin America: Historical Studies of Chile and Brazil (New York: Monthly Review Press)

Gago, Verónica 2006 "América Latina está viviendo el momento de una ruptura. Entrevista a Toni Negri y Giuseppe Cocco" en Página/12 (Buenos Aires) |Lunes 14 de Agosto.

Garcés, Homar. 2006 "El socialismo del siglo XXI" Argenpress, 31 de Enero

Hardt, Michael y Antonio Negri, 2000 Imperio (Buenos Aires: Paidós)

Katz, Claudio 2004 a El porvenir del Socialismo (Buenos Aires: Herramienta)

Katz, Claudio 2004 b "Argentina: burguesías imaginarias y existentes", en www.rebelion.org 8 de Febrero

Katz, Claudio 2006 "Socialismo o neodesarrollismo", www.rebelion.org 28 de Noviembre.

Kohan, Néstor 2002 Marx en su Tercer Mundo. Hacia un socialismo no colonizado (Buenos Aires: Biblos)

Martínez Heredia, Fernando 2005 "Movimientos sociales, política y proyectos socialistas", en En el horno de los 90 (La Habana, Editorial Ciencias Sociales)

Monedero, Juan Carlos 2005 "Socialismo del siglo XXI: modelo para armar y desarmar", en Red Voltaire, 16 de Septiembre.

Petras, James.2006 "Propuesta para el nuevo orden social, económico y cultural" www.rebelion.org 21 de Mayo

Puerta, Jesús 2006 "Socialismo y desarrollo endógeno" en Participación y socialismo, N° 2, Abril-Mayo.

Regalado Alvarez, Roberto 2005 "La izquierda latinoamericana hoy", Cuadernos del CEA (La Habana, Cuba)

Rodríguez Yebra, Martín 2006 "Kirchner hizo promesas en Wall Street" en La Nación (Buenos Aires) 21 de Septiembre.

Roffinelli, Gabriela y Néstor Kohan, entrevista a Samir Amin, 'He sido y sigo siendo comunista', en www.rebelion.org 27 de Septiembre.

Valdés Gutiérrez, Gilberto.2006 "Desafíos de la sociedad más allá del capital". www.emancipación.org,

Zibechi, Raúl 2003 ALAI-AMLATINA, Octubre 9. http://alainet.org/listas/info/alai-amlatina



http://www.eleconomista.cubaweb.cu/2007/nro303/atilio-boron.html