quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Abrindo a carta de Marina

Por Tadeu Breda, Latitude Sul - 26/10/2010

Falar em mudança de paradigmas e caminhar ao lado de baluartes do capitalismo e do pragmatismo nacional está longe de ser uma postura utópica

Acabou o suspense: Marina Silva escolheu a neutralidade. Uns apostavam que, neste segundo turno, as lideranças paulistas e cariocas do PV a empurrariam na direção de José Serra. Outros acreditavam que seus antigos laços políticos com o PT a fariam apoiar Dilma Rousseff. No fim, porém, a candidata não ficou nem lá nem cá: preferiu subir no muro e, assim, não manchar a áurea que construiu ao redor de si durante a campanha.

A decisão foi tomada durante a convenção nacional que o PV realizou em São Paulo, no dia 17 de outubro, dentro do prazo de duas semanas que o partido havia estabelecido para tomar uma posição. O eleitor se lembrará que, após conhecer seu surpreendente desempenho nas urnas, Marina declarou-se temporariamente neutra e pediu um tempo para consolidar as ideias. Sua independência, agora, é o resultado deste período de reflexão.

Praticamente todos os convencionais do PV a seguiram: apenas quatro das 92 lideranças presentes manifestaram o desejo de apoiar o nome de Serra ou Rousseff. Os demais preferiram pensar a longo prazo e preservar o potencial eleitoral do símbolo criado pela candidata verde: foram 20 milhões de votos, pouco para levar Marina Silva ao segundo turno, mas suficientes para elegê-la como representante de uma espécie de “terceira via” no Brasil e alçá-la nacionalmente como defensora de uma “nova forma de fazer política”.

São conceitos ainda vagos e fartamente explorados pelo marketing do PV, mas que aos poucos vão se esclarecendo. Agora, por exemplo, temos mais elementos para analisá-los. Junto com o anúncio de que manteria sua neutralidade em relação ao duelo presidencial, Marina Silva lançou uma Carta Aberta aos candidatos que continuam na disputa.

O documento, quase um manifesto, deixa transparecer pelo menos cinco pontos que definem (e possivelmente continuarão definindo) o discurso “marinopevista” de cara à sucessão presidencial de 2014.

1. A utopia verde

Antes de mais nada, Marina Silva se enxerga – e é enxergada pelo PV – como “mantenedora de utopias”. Não na acepção ingênua e imatura da palavra, que confunde utopia com sonhos impossíveis ou delírios juvenis, mas no sentido mais profundo e filosófico do termo, que interpreta o pensamento utópico como catapulta das mudanças que podem ser aplicadas à realidade futura. Os utópicos veem o mundo não apenas como ele é, mas principalmente como ele deveria ser.

Utopia, portanto, é analisar o tempo presente, identificar mazelas, projetar transformações e lutar para que, um dia, possam se concretizar. O objetivo óbvio de todo utopista é modificar o estado atual das coisas. Portanto, ser utópico é caminhar na contramão do fatalismo, do “não tem mais jeito”. A utopia reconhece que o homem é dono de sua história e que, ao contrário do que dizia Francis Fukuyama, ainda não chegamos nem vamos chegar nunca ao fim dela. A organização das sociedades é dinâmica e tudo que nelas acontece é resultado direto da ação humana.

O comportamento utópico, contudo, não remete necessariamente às crenças marxistas. Na década de 1930, o sociólogo alemão Karl Mannheim identificou quatro tipos de utopia vigentes no mundo pré-nazista de então: comunista, conservadora, liberal e anarquista. As diferenças entre cada um dos modelos utópicos dependem da ideologia que professam. E é a natureza da ideologia que localiza o ser humano em posições distintas na linha da história e define a maneira como irá interpretar a realidade (ou seja, de analisar o mundo como ele é) e traçar caminhos para construir o futuro (isto é, projetar como o mundo deve ser). Se há uma característica comum a todas utopias, porém, é a de que o presente necessita ser transformado e que esta transformação resultará numa vida melhor.

Com 19,3% dos votos válidos debaixo do braço, Marina Silva está tentando ocupar no imaginário dos brasileiros o espaço da utopia, da mudança e do outro mundo possível que era terreno ideológico exclusivo do PT. Pelo menos até 2002, quando o partido foi confrontado com o ápice do sucesso eleitoral. A vitória de Lula, o operário que virou presidente, inaugurou o período mais importante da história petista (em termos de projeção política e influência nos rumos do Brasil) mas também encerrou seu reinado como porta-voz da revolução social de esquerda no país.

Aliás, há quem diga que o PT perdeu o primado sobre os anseios da classe trabalhadora antes mesmo do êxito nas urnas, quando publicou a Carta aos Brasileiros para acalmar o mercado e as elites às vésperas do pleito. Até então, e a despeito do discurso conciliador, ainda se temiam as barbas de Lula nas altas rodas da grã-finagem.

Foi o início da desconstrução da imagem combativa do partido, que teve prosseguimento com as denúncias de corrupção, mensalão e afins, a profissionalização de quadros e hierarquização da cadeia de mando interna, a adoção de uma agenda menos pautada pelos movimentos sociais e sua adaptação às “regras do jogo” eleitoral – inclusive às mais sujas. O próximo passo foi a expulsão (e, depois, a saída voluntária) de militantes que, fiéis às antigas propostas do petismo, não assimilaram bem as mudanças. Plínio de Arruda Sampaio, Heloísa Helena, Luciana Genro, Babá, Ivan Valente… A lista dos que negaram a nova fase do PT é extensa. E uma das últimas a deixar o barco, ainda que por motivações e em momentos distintos, foi precisamente Marina Silva.

2. O joio no trigo

A Carta Aberta escrita pela presidenciável joga PT e PSDB na vala comum dos partidos brasileiros. Ao conceder a si mesma o título de “mantenedora de utopias”, Marina Silva automaticamente quer dizer que o PT passou a ser apenas mais um grupo político trabalhando para conquistar o poder – e apenas o poder. Nas entrelinhas, defende a tese de que já não se pode esperar, nem do PT nem do PSDB, as grandes e profundas transformações na estrutura política, econômica ou social que o Brasil precisa. Isso, Marina diz que precisa. Porque uma boa utopia, para ser convincente, deve projetar seu mundo ideal.

Não é a toa que ataca com tanta veemência o que chama de “signo da dualidade”, que, segundo a candidata, tem se expressado historicamente no país pela “redução da disputa política ao confronto de duas forças determinadas a tornar hegemônico e excludente o poder de Estado.”

A situação narrada por Marina é típica dos partidos esvaziados de utopia. Ou porque sua construção ideológica não cumpriu as promessas que fez, transformando-se numa grande mentira – caso típico do neoliberalismo tucano após os pífios indicadores do governo FHC e, mais recentemente, da derrocada dos mercados. Ou porque o partido deu um giro contundente em suas posições políticas a tal ponto de não ser mais reconhecido como portador da mudança. Ou ainda porque tanto a realidade presente como as necessidades futuras estão em rápida e constante transformação, deixando as lideranças partidárias a reboque dos acontecimentos sociais. Na falta de projetos inovadores para o país, as disputas políticas passam a ser apenas disputas de poder.

Em sua Carta Aberta, Marina Silva lembra que a situação não é nova e que as rixas partidárias existem desde a época de Dom Pedro II. Começou contrapondo republicanos e monarquistas. Depois, já no século 20, jogou UDN contra PSD. No regime militar a briga era MDB vs. Arena. Agora, diz o marinismo, a história estaria se repetindo com PT e PSDB.

Não sem certa dose de ironia, observa, já que ambos os partidos nasceram das entranhas do MDB justamente para denunciar a ineficácia do “bipartidarismo” em representar a diversidade social brasileira.

Resgatando os conceitos do “eterno retorno” e aplicando-os ao jogo partidário nacional, Marina Silva se apega à ideia de que PT e PSDB são hoje os fiadores do “conservadorismo renitente” que desde sempre tem colonizado a política tupiniquim e sacrificado qualquer utopia em nome do pragmatismo sem limites.

“O mergulho desses partidos na antiga lógica empobrece o horizonte da inadiável mudança que o país reclama”, alfineta. Em outras palavras, Marina está gritando bem alto que a política que se faz atualmente no Brasil está ultrapassada, vazia de conteúdo e pobre de projetos. Ou seja, nossas eleições estão envenenadas pela sede de poder. E, contra esse veneno, eis que surge Marina Silva: o antídoto capaz de fazer com que a utopia volte a correr nas veias da democracia partidária.

3. Voto revolucionário

Marina Silva expressa o bem-vindo desejo de que a política nacional seja mais do que a escolha compulsória entre tucanos azuis e estrelas vermelhas. Ainda que a polarização entre PT e PSDB não seja de todo verdadeira em nosso presidencialismo de coalizão. O nó górdio do fisiologismo parece descansar muito mais na imensa influência institucional do PMDB. Trata-se do maior partido do Brasil, uma sigla gigante, difusa e incoerente, repleta de caciques e interesses regionais, mas cujo apoio garante no Congresso a governabilidade de quem quer que venha a ocupar o Palácio da Alvorada. E a cor da camisa nunca foi problema: o PMDB quer estar sempre no poder e tem força suficiente para barganhá-lo com o vencedor das eleições.

A Carta Aberta deixa claro que Marina Silva anseia por um país onde a democracia seja mais do que ceder aos totens do tradicionalismo. Mas não só. A candidata quer uma política multicolorida, diversa e que admita o verde como alternativa eleitoral. Só nos resta saber se o verde que se reclama é o do ambientalismo, que propõe novos paradigmas de desenvolvimento para o mundo e para o país, ou o que veste 43 e pede nosso voto na tevê de dois em dois anos.

Essa dúvida sobre as intenções do PV é a mesma que paira sobre o perfil dos eleitores de Marina Silva. Quem são eles? Será a comunidade evangélica, identificada pela fé da candidata? Será gente que, fazendo eco à Carta Aberta, está cansada da mesmice eleitoral dos últimos 16 anos? Serão pessoas que votavam no PT e se desiludiram com a guinada pragmática do partido? Ou cidadãos que mal acompanham o noticiário, não se interessam por política e gostaram da estética clean da campanha pevista? Fiéis adoradores dos produtos Natura, talvez? Quem sabe gente antenada com as principais consequências da crise ambiental, que acompanhou com amargura os fracassos de Copenhague e realmente acredita num mundo onde é possível viver bem e dignamente sem consumir tanto? Quem são os eleitores de Marina: intelectuais, trabalhadores, empresários, ateus, cristãos, ricos, pobres?

Talvez haja de tudo um pouco. A candidata do PV, porém, não acredita que seus votos tenham emanado de uma “soma indistinta de pendores setoriais”. Marina responde a uma das perguntas. Na Carta Aberta, escreve que seus eleitores são pessoas que repelem o fatalismo partidário que os empurra a votar ou PT ou PSDB para os altos cargos. Mas prefere pensar que, mais que o descontentamento com esta dualidade, os brasileiros que apertaram 43 para presidente estão unidos no desejo por “outros valores e outros conteúdos para o desenvolvimento nacional”.

4. O novo modelo

Infelizmente, é difícil acreditar que 20 milhões de pessoas estejam repensando padrões de vida e bem-estar num momento em que o país festeja o aquecimento da economia, o crescimento do PIB, a geração de empregos e a redução da pobreza. Pela simples razão de que o “bom momento” que se vive no Brasil é consequência direta de um nível de consumo maior (e cada vez maior) dos brasileiros, inclusive de gente que antes não consumia quase nada e que, depois do Bolsa Família e dos programas de microcrédito, pôde consumir o necessário para viver com o mínimo de dignidade. No sistema capitalista, as compras geram demanda, as demandas geram empregos, que geram mais compras e assim por diante.

Para o bem ou para o mal, ainda estamos presos neste esquema. E, agora que as coisas vão ou parecem ir melhor do que antes, aparentamos certa dose de satisfação em poder assistir o futebol e a novela numa televisão grande, viajar de avião nas férias, fazer churrasco aos finais-de-semana ou ir de carro para o trabalho. Talvez sem atentar, ou sem dar tanta importância, para os limites do planeta em aguentar nosso conceito de satisfação pessoal. Marina, porém, acredita que os 19,3% da população que votaram nela está ligada nesta problemática.

O caso do Brasil e demais países emergentes é extremamente complicado. A maioria de nós jamais teve acesso aos confortos da vida moderna. Mas agora está tendo: desde o pequeno prazer de poder escolher entre milhares de produtos em exposição nos supermercados até concretizar o sonho da casa própria.

Não dá para dizer aos que passaram toda a vida excluídos das delícias do consumo que, agora que lhes é permitido usufruir do bem-estar que nunca tiveram, deverão permanecer a uma distância segura da fartura. Do tipo: Nunca comeu filé mignon? Pois continue comendo ovo, mesmo que seu ordenado dê para um bom bife. Afinal, amigo, o planeta já não aguenta mais. Seria a maior das hipocrisias pedir que os recém-saídos das classes E, F, G e H, que não têm culpa nenhuma pela crise ambiental, se contentem com uma vida de austeridade porque os mais ricos fizeram o favor de usufruir da Terra para além da conta.

O carro-chefe da campanha de Marina Silva, portanto, é dos assuntos mais complexos que a humanidade já está enfrentando. Mas há dúvidas de que o PV possa conduzir a pauta verde com a devida legitimidade e competência. Primeiro porque a maioria de seus quadros estão historicamente alinhados com os setores mais conservadores da sociedade. Fernando Gabeira e Fábio Feldmann, que certamente ocupariam ministérios num eventual governo de Marina Silva, apoiam PSDB e DEM no Rio de Janeiro e São Paulo. E, apesar da neutralidade do partido neste segundo turno, estão trabalhando para a campanha de José Serra. Depois, porque o programa econômico apresentado por Marina Silva para estas eleições não questiona o ponto nevrálgico do modelo de desenvolvimento: o capitalismo.

Vivemos num planeta com recursos limitados, mas professamos uma economia que se pauta pelo crescimento infinito da produção, do consumo e da acumulação. Temos uma minoria que através dos séculos usufruiu à vontade das riquezas e só agora chegou à conclusão de que, se todos quiserem viver como as elites, o mundo não aguentaria.

Entretanto, José Eli da Veiga, um dos gurus econômicos da campanha do PV, diz que as nações subdesenvolvidas não podem sequer cogitar a possibilidade de não crescer. “A lei é consumo ou morte”, diz. “Os únicos que já podem colocar em questão o crescimento econômico são os países escandinavos. Lá existe uma situação em que a melhoria da qualidade de vida não necessariamente exige mais produção e consumismo.” Para Eli da Veiga, o Brasil e seus parceiros emergentes não se encontram em nenhum destes dois extremos: nem podem se dar ao luxo de deixar de crescer, nem devem crescer a qualquer custo. “A questão para nós é a qualidade do crescimento.”

5. Ecocapitalismo

O capitalismo está na encruzilhada de um mundo verde – mas não do mundo verde do PV. Enquanto o sistema econômico não for radicalmente modificado (e assim também seus padrões de bem-estar, conforto e riqueza) não haverá prosperidade suficiente para todos. O mundo acabaria antes. E não é uma questão de capitalismo ou socialismo ou o retorno da Guerra Fria. Trata-se de pós-capitalismo. Contudo, como bem apontava o presidenciável do PSOL Plínio de Arruda Sampaio durante os debates eleitorais, Marina Silva diagnostica com perfeição o grande problema do nosso tempo, mas não o encara de frente. Daí a pecha de ecocapitalista.

Sua Carta Aberta diz que “o mega-fenômeno com o qual temos que lidar é o do encontro da humanidade com os limites de seus modelos de vida e com o grande desafio de mudar. De recriar sua presença no planeta não só por meio de novas tecnologias e medidas operacionais de sobrevivência, mas por um salto civilizatório, de valores. Não se trata apenas de ter políticas ambientais corretas ou incentivar os cidadãos a reverem seus hábitos de consumo. É necessária nova mentalidade, novo conceito de desenvolvimento, parâmetros de qualidade de vida com critérios mais complexos do que apenas o acesso crescente a bens materiais.”

É simplesmente maravilhoso ouvir uma candidata à presidência com este discurso, mas é difícil acreditar que uma mudança de tal magnitude virá de um partido tão comprometido com as elites tradicionais, como o PV, ou da associação da figura ambientalista de Marina Silva com o empresário Guilherme Leal, um dos mais ricos do país. Graças a ele, o jatinho da campanha do PV era o mais luxuoso entre os presidenciáveis.

Que salto civilizatório pode-se esperar de tais alianças? Se a Carta Aberta diz que “o novo milênio exige mais justiça dentro de cada sociedade”, devemos esperar que os milionários nos deem a solução para a crise que se agrava? Estariam os mais ricos dispostos a abrir mão de seu alto padrão de vida e nível de consumo para começar a construir na realidade a utopia marinista?

A mudança civilizatória rumo ao ecologismo dificilmente virá da minoria mais abastada. A elite tem muito a perder com uma transformação tão radical. Talvez as classes de baixo poder aquisitivo, que jamais se lambuzaram na festa do consumo desenfreado, é que possam, agora que as portas dos shoppings se abrem para seus salários, escolher um novo caminho. Mas isso dificilmente ocorrerá dentro de um sistema que só prospera na gastança e que neste momento está possibilitando aos brasileiros contar com mais dinheiro no bolso. Marina Silva acredita que os 20 milhões de votos que recebeu refletem o “sentimento de superação de um modelo”. Pode até ser que seja o modelo neoliberal (em prol do desenvolvimentismo de estado, quiçá) mas definitivamente não é o capitalismo.

Muitas comunidades indígenas na cordilheira dos Andes e na Amazônia têm um discurso bastante semelhante ao de Marina Silva. A imensa diferença é que elas não se aliam a milionários para lutar por seus valores ambientais, que são profundos e definem o âmago de suas sociedades. Os povos tradicionais andinos, atropelados pela máquina colonialista, há tempos exigem uma mudança civilizacional. E, com todos os problemas e contradições, a praticam diariamente. Seja por meio da organização comunal da propriedade e na tomada coletiva de decisões, seja pela agricultura familiar e preservação da natureza, os indígenas latinoamericanos dedicam suas vidas para superar a concepção ocidental de mundo.

É assim que começa uma utopia verde. Falar em mudança de paradigmas e caminhar ao lado de baluartes do capitalismo e do pragmatismo nacional está longe de ser uma postura utópica. É muito mais uma atitude meramente ideológica, no pior sentido do termo, que manipula o discurso e os dados da realidade como plano de ação para enganar a opinião pública e alcançar o poder. Nesta trilha, Marina caminha para a mesmice que tão oportunamente critica em seus adversários.

Fala Fernando II... cala a boca Fernando II

CARTA ABERTA DE FERNANDO HENRIQUE A LULA...
Aos que não tiveram acesso à carta de Fernando Henrique segue abaixo seu conteúdo.

SEM MEDO DO PASSADO

Fernando Henrique Cardoso

O presidente Lula passa por momentos de euforia que o levam a inventar inimigos e enunciar inverdades. Para ganhar sua guerra imaginária, distorce o ocorrido no governo do antecessor, autoglorifica-se na comparação e sugere que se a oposição ganhar será o caos. Por trás dessas bravatas está o personalismo e o fantasma da intolerância: só eu e os meus somos capazes de tanta glória. Houve quem dissesse “o Estado sou eu”. Lula dirá, o Brasil sou eu! Ecos de um autoritarismo mais chegado à direita.

Lamento que Lula se deixe contaminar por impulsos tão toscos e perigosos. Ele possui méritos de sobra para defender a candidatura que queira. Deu passos adiante no que fora plantado por seus antecessores. Para que, então, baixar o nível da política à dissimulação e à mentira?

A estratégia do petismo-lulista é simples: desconstruir o inimigo principal, o PSDB e FHC (muita honra para um pobre marquês…). Por que seríamos o inimigo principal? Porque podemos ganhar as eleições. Como desconstruir o inimigo?

Negando o que de bom foi feito e apossando-se de tudo que dele herdaram como se deles sempre tivesse sido. Onde está a política mais consciente e benéfica para todos? No ralo.

Na campanha haverá um mote – o governo do PSDB foi “neoliberal” – e dois alvos principais: a privatização das estatais e a suposta inação na área social. Os dados dizem outra coisa. Mas os dados, ora os dados… O que conta é repetir a versão conveniente. Há três semanas Lula disse que recebeu um governo estagnado, sem plano de desenvolvimento. Esqueceu-se da estabilidade da moeda, da lei de responsabilidade fiscal, da recuperação do BNDES, da modernização da Petrobras, que triplicou a produção depois do fim do monopólio e, premida pela competição e beneficiada pela flexibilidade, chegou à descoberta do pré-sal.

Esqueceu-se do fortalecimento do Banco do Brasil, capitalizado com mais de R$ 6 bilhões e, junto com a Caixa Econômica, libertados da politicagem e recuperados para a execução de políticas de Estado.

Esqueceu-se dos investimentos do programa Avança Brasil, que, com menos alarde e mais eficiência que o PAC, permitiu concluir um número maior de obras essenciais ao país. Esqueceu-se dos ganhos que a privatização do sistema Telebrás trouxe para o povo brasileiro, com a democratização do acesso à internet e aos celulares, do fato de que a Vale privatizada paga mais impostos ao governo do que este jamais recebeu em dividendos quando a empresa era estatal, de que a Embraer, hoje orgulho nacional, só pôde dar o salto que deu depois de privatizada, de que essas empresas continuam em mãos brasileiras, gerando empregos e desenvolvimento no país.

Esqueceu-se de que o país pagou um custo alto por anos de “bravata” do PT e dele próprio. Esqueceu-se de sua responsabilidade e de seu partido pelo temor que tomou conta dos mercados em 2002, quando fomos obrigados a pedir socorro ao FMI – com aval de Lula, diga-se – para que houvesse um colchão de reservas no início do governo seguinte. Esqueceu-se de que foi esse temor que atiçou a inflação e levou seu governo a elevar o superávit primário e os juros às nuvens em 2003, para comprar a confiança dos mercados, mesmo que à custa de tudo que haviam pregado, ele e seu partido, nos anos anteriores.

Os exemplos são inúmeros para desmontar o espantalho petista sobre o suposto “neoliberalismo” peessedebista. Alguns vêm do próprio campo petista. Vejam o que disse o atual presidente do partido, José Eduardo Dutra, ex-presidente da Petrobras, citado por Adriano Pires, no Brasil Econômico de 13/1/2010.

“Se eu voltar ao parlamento e tiver uma emenda propondo a situação anterior (monopólio), voto contra. Quando foi quebrado o monopólio, a Petrobras produzia 600 mil barris por dia e tinha 6 milhões de barris de reservas. Dez anos depois, produz 1,8 milhão por dia, tem reservas de 13 bilhões. Venceu a realidade, que muitas vezes é bem diferente da idealização que a gente faz dela”. (José Eduardo Dutra)

O outro alvo da distorção petista refere-se à insensibilidade social de quem só se preocuparia com a economia. Os fatos são diferentes: com o Real, a população pobre diminuiu de 35% para 28% do total. A pobreza continuou caindo, com alguma oscilação, até atingir 18% em 2007, fruto do efeito acumulado de políticas sociais e econômicas, entre elas o aumento do salário mínimo. De 1995 a 2002, houve um aumento real de 47,4%; de 2003 a 2009, de 49,5%. O rendimento médio mensal dos trabalhadores, descontada a inflação, não cresceu espetacularmente no período, salvo entre 1993 e 1997, quando saltou de R$ 800 para aproximadamente R$ 1.200. Hoje se encontra abaixo do nível alcançado nos anos iniciais do Plano Real.

Por fim, os programas de transferência direta de renda (hoje Bolsa-Família), vendidos como uma exclusividade deste governo. Na verdade, eles começaram em um município (Campinas) e no Distrito Federal, estenderam-se para Estados (Goiás) e ganharam abrangência nacional em meu governo. O Bolsa-Escola atingiu cerca de 5 milhões de famílias, às quais o governo atual juntou outras 6 milhões, já com o nome de Bolsa-Família, englobando em uma só bolsa os programas anteriores.

É mentira, portanto, dizer que o PSDB “não olhou para o social”. Não apenas olhou como fez e fez muito nessa área: o SUS saiu do papel à realidade; o programa da aids tornou-se referência mundial; viabilizamos os medicamentos genéricos, sem temor às multinacionais; as equipes de Saúde da Família, pouco mais de 300 em 1994, tornaram-se mais de 16 mil em 2002; o programa “Toda Criança na Escola” trouxe para o Ensino Fundamental quase 100% das crianças de sete a 14 anos. Foi também no governo do PSDB que se pôs em prática a política que assiste hoje a mais de 3 milhões de idosos e deficientes (em 1996, eram apenas 300 mil).

Eleições não se ganham com o retrovisor. O eleitor vota em quem confia e lhe abre um horizonte de esperanças. Mas se o lulismo quiser comparar, sem mentir e sem descontextualizar, a briga é boa. Nada a temer.

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OLHA O QUE UM AMIGO DO FERNANDO HENRIQUE DIZ SOBRE A CARTA ABERTA:
O professor Emérito da Universidade Federal Fluminense, Theotonio dos Santos responde a carta aberta que o Fernando Henrique Cardoso dirigiu ao presidente Lula. Foto: Ag. Brasil

Meu caro Fernando,

Vejo-me na obrigação de responder a carta aberta que você dirigiu ao Lula, em nome de uma velha polêmica que você e o José Serra iniciaram em 1978 contra o Rui Mauro Marini, eu, André Gunder Frank e Vânia Bambirra, rompendo com um esforço teórico comum que iniciamos no Chile na segunda metade dos nos 1960. A discussão agora não é entre os cientistas sociais e sim a partir de uma experiência política que reflete comtudo este debate teórico. Esta carta assiada por você como ex-presidente é uma defesa muito frágil teórica e politicamente de sua gestão. Quem a lê não pode compreender porque você saiu do governo com 23% de aprovação enquanto Lula deixa o seu governo com 96% de aprovação. Já discutimos em várias oportunidades os mitos que se criaram em torno dos chamados êxitos do seu governo. Já no seu governo vários estudiosos discutimos, já no começo do seu governo, o inevitável caminho de seu fracasso junto à maioria da população. Pois as premissas teóricas em que baseava sua ação política eram profundamente equivocadas e contraditórias com os interesses da maioria da população. (Se os leitores têm interesse de conhecer o debate sobre estas bases teóricas lhe recomendo meu livro já esgotado: Teoria da Dependencia: Balanço e Perspectivas, Editora Civilização Brasileira, Rio, 2000).

Contudo nesta oportunidade me cabe concentrar-me nos mitos criados em torno do seu governo, os quais você repete exaustivamente nesta carta aberta.

O primeiro mito é de que seu governo foi um êxito econômico a partir do fortalecimento do real e que o governo Lula estaria apoiado neste êxito alcançando assim resultados positivos que não quer compartir com você… Em primeiro lugar vamos desmitificar a afirmação de que foi o plano real que acabou com a inflação. Os dados mostram que até 1993 a economia mundial vivia uma hiperinflação na qual todas as economias apresentavam inflações superiores a 10%. A partir de 1994, TODAS AS ECONOMIAS DO MUNDO APRESENTARAM UMA QUEDA DA INFLAÇÃO PARA MENOS DE 10%. Claro que em cada pais apareceram os “gênios” locais que se apresentaram como os autores desta queda. Mas isto é falso: tratava-se de um movimento planetário.

No caso brasileiro, a nossa inflação girou, durante todo seu governo, próxima dos 10% mais altos. TIVEMOS NO SEU GOVERNO UMA DAS MAIS ALTAS INFLAÇÕES DO MUNDO. E aqui chegamos no outro mito incrível. Segundo você e seus seguidores (e até setores de oposição ao seu governo que acreditam neste mito) sua política econômica assegurou a transformação do real numa moeda forte. Ora Fernando, sejamos cordatos: chamar uma moeda que começou em 1994 valendo 0,85 centavos por dólar e mantendo um valor falso até 1998, quando o próprio FMI exigia uma desvalorização de pelo menos uns 40% e o seu ministro da economia recusou-se a realizá-la “pelo menos até as eleições”, indicando assim a época em que esta desvalorização viria e quando os capitais estrangeiros deveriam sair do país antes de sua desvalorização, O fato é que quando você flexibilizou o cambio o real se desvalorizou chegando até a 4,00 reais por dólar. E não venha por a culpa da “ameaça petista” pois esta desvalorização ocorreu muito antes da “ameaça Lula”. ORA, UMA MOEDA QUE SE DESVALORIZA 4 VEZES EM 8 ANOS PODE SER CONSIDERADA UMA MOEDA FORTE? Em que manual de economia? Que economista respeitável sustenta esta tese?

Conclusões: O plano real não derrubou a inflação e sim uma deflação mundial que fez cair as inflações no mundo inteiro. A inflação brasileira continuou sendo uma das maiores do mundo durante o seu governo. O real foi uma moeda drasticamente debilitada. Isto é evidente: quando nossa inflação esteve acima da inflação mundial por vários anos, nossa moeda tinha que ser altamente desvalorizada. De maneira suicida ela foi mantida artificialmente com um alto valor que levou à crise brutal de 1999.

Segundo mito; Segundo você, o seu governo foi um exemplo de rigor fiscal. Meu Deus: um governo que elevou a dívida pública do Brasil de uns 60 bilhões de reais em 1994 para mais de 850 bilhões de dólares quando entregou o governo ao Lula, oito anos depois, é um exemplo de rigor fiscal? Gostaria de saber que economista poderia sustentar esta tese. Isto é um dos casos mais sérios de irresponsabilidade fiscal em toda a história da humanidade.

E não adianta atribuir este endividamento colossal aos chamados “esqueletos” das dívidas dos estados, como o fez seu ministro de economia burlando a boa fé daqueles que preferiam não enfrentar a triste realidade de seu governo. UM GOVERNO QUE CHEGOU A PAGAR 50% AO ANO DE JUROS POR SEUS TÍTULOS, PARA EM SEGUIDA DEPOSITAR OS INVESTIMENTOS VINDOS DO EXTERIOR EM MOEDA FORTE A JUROS NORMAIS DE 3 A 4%, NÃO PODE FUGIR DO FATO DE QUE CRIOU UMA DÍVIDA COLOSSAL SÓ PARA ATRAIR CAPITAIS DO EXTERIOR PARA COBRIR OS DÉFICITS COMERCIAIS COLOSSAIS GERADOS POR UMA MOEDA SOBREVALORIZADA QUE IMPEDIA A EXPORTAÇÃO, AGRAVADA AINDA MAIS PELOS JUROS ABSURDOS QUE PAGAVA PARA COBRIR O DÉFICIT QUE GERAVA. Este nível de irresponsabilidade cambial se transforma em irresponsabilidade fiscal que o povo brasileiro pagou sob a forma de uma queda da renda de cada brasileiro pobre. Nem falar da brutal concentração de renda que esta política agravou dráticamente neste pais da maior concentração de renda no mundo. VERGONHA FERNANDO. MUITA VERGONHA. Baixa a cabeça e entenda porque nem seus companheiros de partido querem se identifica com o seu governo…te obrigando a sair sozinho nesta tarefa insana.

Terceiro mito – Segundo você, o Brasil tinha dificuldade de pagar sua dívida externa por causa da ameaça de um caos econômico que se esperava do governo Lula. Fernando, não brinca com a compreensão das pessoas. Em 1999 o Brasil tinha chegado à drástica situação de ter perdido TODAS AS SUAS DIVISAS. Você teve que pedir ajuda ao seu amigo Clinton que colocou à sua disposição ns 20 bilhões de dólares do tesouro dos Estados Unidos e mais uns 25 BILHÕES DE DÓLARES DO FMI, Banco Mundial e BID. Tudo isto sem nenhuma garantia.

Esperava-se aumentar as exportações do pais para gerar divisas para pagar esta dívida. O fracasso do setor exportador brasileiro mesmo com a espetacular desvalorização do real não permitiu juntar nenhum recurso em dólar para pagar a dívida. Não tem nada a ver com a ameaça de Lula. A ameaça de Lula existiu exatamente em conseqüência deste fracasso colossal de sua política macro-econômica. Sua política externa submissa aos interesses norte-americanos, apesar de algumas declarações críticas, ligava nossas exportações a uma economia decadente e um mercado já copado. A recusa dos seus neoliberais de promover uma política industrial na qual o Estado apoiava e orientava nossas exportações. A loucura do endividamento interno colossal. A impossibilidade de realizar inversões públicas apesar dos enormes recursos obtidos com a venda de uns 100 bilhões de dólares de empresas brasileiras. Os juros mais altos do mundo que inviabilizava e ainda inviabiliza a competitividade de qualquer empresa. Enfim, UM FRACASSO ECONOMICO ROTUNDO que se traduzia nos mais altos índices de risco do mundo, mesmo tratando-se de avaliadoras amigas. Uma dívida sem dinheiro para pagar… Fernando, o Lula não era ameaça de caos. Você era o caos. E o povo brasileiro correu tranquilamente o risco de eleger um torneiro mecânico e um partido de agitadores, segundo a avaliação de vocês, do que continuar a aventura econômica que você e seu partido criou para este pais.

Gostaria de destacar a qualidade do seu governo em algum campo mas não posso faze-lo nem no campo cultural para o qual foi chamado o nosso querido Francisco Weffort (neste então secretário geral do PT) e não criou um só museu, uma só campanha significativa. Que vergonha foi a comemoração dos 500 anos da “descoberta do Brasil”. E no plano educacional onde você não criou uma só universidade e entou em choque com a maioria dos professores universitários sucateados em seus salários e em seu prestígio profissional. Não Fernando, não posso reconhecer nada que não pudesse ser feito por um medíocre presidente.

Lamento muito o destino do Serra. Se ele não ganhar esta eleição vai ficar sem mandato, mas esta é a política. Vocês vão ter que revisar profundamente esta tentativa de encerrar a Era Vargas com a qual se identifica tão fortemente nosso povo. E terão que pensar que o capitalismo dependente que São Paulo construiu não é o que o povo brasileiro quer. E por mais que vocês tenham alcançado o domínio da imprensa brasileira, devido suas alianças internacionais e nacionais, está claro que isto não poderia assegurar ao PSDB um governo querido pelo nosso povo. Vocês vão ficar na nossa história com um episódio de reação contra o vedadeiro progresso que Dilma nos promete aprofundar. Ela nos disse que a luta contra a desigualdade é o verdadeiro fundamento de uma política progressista. E dessa política vocês estão fora.

Apesar de tudo isto, me dá pena colocar em choque tão radical uma velha amizade. Apesar deste caminho tão equivocado, eu ainda gosto de vocês ( e tenho a melhor recordação de Ruth) mas quero vocês longe do poder no Brasil. Como a grande maioria do povo brasileiro. Poderemos bater um papo inocente em algum congresso internacional se é que vocês algum dia voltarão a freqüentar este mundo dos intelectuais afastados das lides do poder.

Com a melhor disposição possível mas com amor à verdade, me despeço

Theotonio Dos Santos

Theotonio Dos Santos é Professor Emérito da Universidade Federal Fluminense, Presidente da Cátedra da UNESCO e da Universidade das Nações Unidas sobre economia global e desenvolvimentos sustentável. Professor visitante nacional sênior da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A batalha de Campo Grande

Antonio Martins – 26/10/2010

Produzir um incidente grave, e atribuí-lo ao adversário, é uma das formas de virar uma eleição quase perdida. Serra e a Globo parecem ter tentado esta estratégia, em 20 de outubro. Foram derrotados por milhões de internautas – e pelo Twitter

Por volta da meia noite de quinta-feira (21/10), o professor José Antonio Meira da Rocha sentiu a aguilhoada de uma pulga, atrás da orelha. Três horas antes, ele havia assistido ao Jornal Nacional, e “quase” se convencera com as explicações do “perito” Ricardo Molina. Claro, havia exagero e encenação: é insólito fazer tomografia no cérebro depois de sentir na testa o choque de um rolo de fita adesiva. Mas as imagens pareciam mostrar que José Serra havia sido, de fato, atingido por um objeto um pouquinho mais pesado que uma bola de papel.

Como complemento a suas aulas de Jornalismo Gráfico, no campus de Frederico Westfalen da Universidade Federal de Santa Maria, José Antonio tem o hábito de debater, com os alunos, tratamento de imagens na internet ou na TV. Instalou em seu computador uma placa de captura de vídeo de 120 reais. Usa o programa Avidemux (eu Ubuntu-Linux) para examinar quadro a quadro tudo o que assiste.

Algo chamou a atenção de José Antonio, quando analisava as imagens da Globo. A suposta fita adesiva surgia do nada. Não aparecia nem antes, nem depois de tocar a cabeça de Serra. O professor comparou com as cenas da bolinha de papel. Nestas, há uma trajetória, um antes e um depois – ainda que o objeto surja naturalmente distorcido, como um risco de luz.

O professor José Antonio considera risível o trecho em que o “perito” Ricardo Molina assegura, em seu laudo das 23h09 de 22/10, que Serra foi atingido por um objeto real, descartando uma fusão de imagens. “Molina, um especialista em áudios, não deveria aventurar-se a análises de vídeo. Ao argumentar que o ‘objeto’ que aparece sobre a cabeça Serra não é ilusório porque tem formas definidas, ele reforça a hipótese contrária. A característica principal do efeito artifact é ser uma distorção. Imagens tênues assumem, quando muito comprimidas, a aparência de objetos com formas exageradamente geométricas. Enxergar o resultado como prova é grosseiro”.

Inquieto com uma fita adesiva que se materializava num único quadro, sem existência anterior ou posterior, José Antonio decidiu escrever uma mensagem a seus alunos e às listas de internet especializadas em jornalismo: uma na Universidade do Texas (seguida por dezenas de jornalistas brasileiros), outra no Fórum pela Democratização das Comunicações. Animou-se, enquanto redigia. Ao final, decidiu postar a análise também em seu blog. Foi dormir às três da madrugada de sexta (22/10). Ao acordar, às onze, estava fora do ar, devido ao excesso de audiência… O desmascaramento do Jornal Nacional de quinta-feira – o feito mais decisivo na batalha que a velha e a nova mídia travaram, durante 48 horas e em dois rounds, começava a ganhar a blogosfera.

* * *

A disputa começou na tarde de quarta-feira. Ao decidir deslocar-se ao Calçadão de São Cristóvão, José Serra contrariou todas as estratégias razoáveis para a campanha de um candidato em segundo turno. Ao menos, para uma campanha normal: de convencimento, diálogo com formadores de opinião e geração de emoções positivas, capazes de se converter em votos.

No Rio de Janeiro, Serra teve seu quinto pior resultado no primeiro turno: apenas 22,5% dos votos1. Entre as centenas de zonas eleitorais do Rio, as sete que atendem os eleitores de Campo Grande2 estão entre as menos favoráveis ao candidato tucano. Nelas, sua média cai para 18%. Ele perde invariavelmente de Dilma e de Marina, chegando a 15,9% na 246ª zona – onde por pouco não ficou atrás de brancos e nulos (12,3%).

Por fim, em todo o extenso bairro de Campo Grande (o terceiro em área, no Rio), o Calçadão é, talvez, o setor mais adverso ao candidato. São três ruas curtas e muito estreitas, dominadas por comércio popular e ambulante (veja fotos e visão de rua, no Google). A dez dias das urnas, e cerca de dez milhões de votos atrás de sua adversária, quantos sufrágios seria possível recuperar por lá?

Milhões – caso se criasse um fato político capaz de provocar comoção nacional. A cinco minutos do Calçadão3, está localizada a sede do SintSaúde, o sindicato dos “mata-mosquitos”, agentes da Fundação Nacional de Saúde encarregados de parte do combate à dengue. Entre as milhares categorias profissionais em que se dividem os trabalhadores brasileiros, é, provavelmente, a que mais teme José Serra. No rastro do “ajuste fiscal” determinado por Fernando Henrique Cardoso em 1999, ele demitiu 6 mil destes trabalhadores de uma vez – um ato tido por muitos como causa do alastramento da epidemia, no período seguinte. A maior parte foi readmitida por Lula, anos depois.

A presença de Serra soaria aos “mata-mosquitos”, é evidente, como uma provocação. Na tarde de quarta-feira, um número expressivo deles preparou cartazes às pressas e se dirigiu ao Calçadão para contrapor-se ao candidato. Fizeram-no de modo pacífico. Foram agredidos pelos segurança do candidato e se exaltaram, o que permitiu à mídia gerar fotos e vídeos de tumulto.

Ainda assim, nenhuma imagem é capaz, até agora, de justificar as duas cenas em que Serra leva as mãos à cabeça – numa delas, produzindo impressão de dor; noutra, imediatamente após falar ao telefone. Foi em torno destas fotos e vídeos que se produziram as duas etapas da disputa.

* * *

A primeira vai da tarde de quarta-feira até a noite de quinta. Por volta das 15h, o site G1, da Globo “informa” que José Serra fora “atingido na cabeça”, após tumulto provocado por “militantes petistas” em Campo Grande. O filme que acompanha a narrativa, porém não sugere nada grave. O candidato aparece sereno, em todas as cenas. Na última, em que se retira da área, acena e sorri.

Na sequência, produz-se algo curioso. A Globo deixa de destacar, em seus sites, o vídeo que ela própria produzira. Ele é substituído por uma foto estática, na qual Serra curva-se para baixo, leva as mãos à cabeça e é circundado por pessoas que gritam. A notícia ganha dramaticidade crescente. O candidato submete-se a tomografia e é aconselhado, por um oncologista (!) ligado ao PSDB e ao DEM4, a 24 horas de repouso.

O jornalista Paulo Henrique Amorim reage quase de imediato, em seu blog. Percebendo grande exagero na repercussão dada ao incidente, compara José Serra a Roberto Rojas, o goleiro da seleção chilena que, em 1989, simulou ter sido atingido por um rojão em jogo contra o Brasil, em 1989. Começa, com este mote, a primeira grande onda de resistência à manipulação. Seu meio principal é o Twitter, onde toda postagem pode associada a um assunto (“tag”) e é possível, graças a isso, acompanhar o que milhões de pessoas escrevem sobre o mesmo tema.

Em algumas horas, a “tag” #serrarojas espalha-se. A corrente leva milhares de pessoas à investigação jornalística – um fenômeno muito mais potente que o antigo “esforço de reportagem” dos jornalões. Na busca, descobre-se o vídeo do SBT sobre a caminhada.

A novidade desperta uma catarse. Parece desnudar-se, de forma patética, um comportamento farsesco, presente em toda a campanha de Serra. “Hoje aprendemos que, quando atingidos por uma bolinha de papel, devemos fazer tomografia”, diz uma postagem de ironia sutil, no Twitter. Centenas de outras debocham do fato de o candidato ter manifestado dor vinte minutos depois do choque com a folha de papel A4 amassada – e logo após ter recebido um telefonema.

Lula, que na quarta-feira estivera a ponto de telefonar a José Serra, solidarizando-se com ele contra a “agressão” sofrida, executou um giro. Na manhã de quinta, ao inaugurar o polo naval do Rio Grande do Sul, fez uma declaração que mudaria o curso da campanha, por obrigar Serra a atacá-lo diretamente. “A mentira que foi produzida ontem pela equipe de publicidade do candidato José Serra é uma coisa vergonhosa. Ontem deveria ser conhecido como dia da farsa, dia da mentira. (…)Espero que o candidato tenha um minuto de bom senso e peça desculpas ao povo brasileiro pela mentira descarada”

Entre a manhã e a tarde de quinta-feira, #serrarojas tornou-se uma preferência mundial, um fenômeno tão impressionante quanto o “Cala Boca, Galvão” — que chegou a merecer, durante a Copa do Mundo, uma capa de Veja… Nesse mesmo período, começou, porém, uma reação. Diante da chacota que se seguiu à revelação de que uma bolinha de papel “ferira” José Serra, surgia – vinte e quatro horas depois do incidente de Campo Grande – um “novo” vídeo. Feito pelo repórter Ítalo Nogueira, num telefone celular, tem qualidade muito precária. Apareceu primeiro no site da Folha de S.Paulo, no meio da tarde de quinta. Embora tenha tomado a iniciativa de divulgá-lo, a sucursal carioca do jornal jamais chegou às conclusões que a Rede Globo sacaria (leia coluna de Jânio de Freitas a respeito).

À noite, poucas horas depois de difundidas, as novas imagens ganhavam o país por meio do Jornal Nacional. Eram uma espécie de revanche: por isso, precisavam ser tratadas como verdade absoluta. Ocuparam sete minutos do noticiário – um tempo só concedido, em condições normais, aos grandes acontecimentos nacionais ou internacionais. Zombavam de milhões de usuários do Twitter, e do próprio Lula. Ressuscitavam a foto dramática em que Serra leva as mãos a cabeça. “Explicavam” que, além da bolinha, o candidato havia sido atingido por outro objeto, “mais consistente”. Vinham com a suposta chancela do “perito” Ricardo Molina – um “especialista” cultivado pela Globo, cujo currículo inclui a tentativa de culpar o MST pelo massacre de Eldorado de Carajás; de “demonstrar” que PC Farias suicidou-se; e de inocentar o casal Nardoni pela morte da menina Isabela.

Tinham o poder da Rede Globo: sua audiência, sua capacidade de repercutir imediatamente e influenciar outras mídias. Tudo indica que teriam promovido um tufão. Em especial, porque supostamente desautorizavam os dois pilares essenciais à candidatura Dilma: a mobilização social e o apoio do presidente mais popular da história do país. Em outras condições, teriam permitido à emissora exercer o mesmo papel que desempenhou nas eleições de 1989 – e que tentou cumprir em 2006.

Agora, foi diferente. O professor José Antonio Meira Rocha foi o primeiro a contestar o Jornal Nacional e seu “perito”. A partir das primeiras horas da manhã de sexta, o Twitter deu publicidade intensa e rápida a seu esforço. Em algumas horas, desenhava-se um novo fenômeno na internet, mais consistente que o anterior. Agora, a “tag” #globomente substituía #serrarojas. Já não era apenas o desprezo às mistificações de um candidato – mas o protesto claro contra um sinal evidente de manipulação mediática, praticado pela maior emissora do Brasil.

A análise de Meira Rocha fora feita com equipamento amador, nas últimas horas de vigília após um dia de trabalho. Mas o Twitter deslanchou uma nova onda de esforço coletivo. Na trilha aberta pelo professor, e dispondo de mais tempo, outros estudos evidenciaram com clareza ainda maior os sinais de fraude imagética. Vice-presidente do grupo Tortura Nunca Mais, o advogado Marcelo Zelic publicou no YouTube um estudo intitulado “Farsa em 6 partes”. Nele, além de destacar a ausência de trajetória na “fita crepe”, no vídeo exibido pela Globo, aponta os primeiros sinais de fusão deturpadora de imagens. Ao contrário do que ocorrera ao ser atingido por uma bolinha de papel, Serra permanecia inteiramente impassível, diante do choque com o que Molina chamara, na véspera, um “objeto maior e mais consistente”. Além disso, as cenas da “fita crepe” haviam sido fundidas com a foto em que o candidato leva as mãos à cabeça, em sinal de dor. Houvera um lapso de vinte minutos, entre os dois momentos. Juntá-los, como se fizessem parte de uma mesma sequência, era sinal evidente de má-fé.

Mas o estudo em que os sinais de falsificação são mais consistentes – e mais úteis, para uma investigação futura – é, provavelmente, “Bolinhagate”, postado também YouTube pelo cineasta Daniel Florêncio. Graças a sua experiência no tratamento de imagem, Florếncio aponta com clareza dois fatos eloquentes. O suposto rolo de fita crepe que teria “atingido” o candidato é, na verdade, distorção da cabeça de um correligionário, que está bem atrás de Serra. Ele permanece impassível simplesmente porque não pode sentir um impacto que não houve. O vídeo foi fundido com outra cena (Florêncio aponta o instante preciso da fusão, destacando objetos que surgem e desaparecem, em cada um dos trechos), para transmitir a falsa impressão de que, depois de “atingido”, Serra leva as mãos à cabeça.

A multiplicação das evidências de fraude, apontadas cada vez com mais detalhe, produz um novo fenômeno no Twitter. Na sexta-feira (22/10) à tarde, a “tag” #globomente está entre as três mais mencionadas, em todo o mundo. A Globo foi nocauteada no segundo round. O assunto desaparece por completo do Jornal Nacional, nesse dia e em todos os seguintes. Às 23h09, entra a nota do “perito” Molina, a tentativa de colocar uma pedra sobre o assunto.

No final da noite de sexta, o jornalista Paulo Cesar Rosa, diretor da Veraz Comunicação, de Porto Alegre, posta, via Twitter, uma hipótese perturbadora: “Se bobear, o Serra saiu, da entrevista que deu no dia anterior à Globo, com o roteiro da bolinha pronto”… Mais dois estudos – estes postados por Arcosta, no YouTube, dão força a esta possibilidade dramática. Eles (1 2) reúnem evidências de que a própria bolinha de papel que atingiu Serra tucano foi atirada não por “militantes petistas”, como a Globo fez questão de difundir desde o primeiro momento – mas por um guarda-costas do próprio candidato tucano…


1.Serra obteve 40,5% em São Paulo, 35,4% no Espírito Santo e 30,7% em Minas Gerais.

2.120ª, 122ª, 242ª, 243ª, 244ª, 245ª e 246ª

3. Rua Mauá, 34

4. Jacob Klingerman foi diretor-geral do Instituto Nacional do Câncer, na gestão de José Serra como ministro da Saúde e secretário da Saúde do prefeito César Maia, do Rio.

A semana em que as elites perderam a noção


Antonio Martins – 26/10/2010

Como a velha mídia manipulou imagens e fatos, para tentar forçar a vitória de Serra. O papel da blogosfera na desmontagem da farsa e a necessidade de uma democratização radical das comunicações

A esta altura, restam muito poucas dúvidas: tudo indica que também o vídeo da suposta “segunda agressão” a José Serra no bairro carioca de Campo Grande (20/10) foi manipulado pela Rede Globo. Denunciada mundialmente no Twitter, na sexta-feira (22/10), após a aparição de análises que demonstram fusão falsificadora de imagens, a emissora não procurou se defender, nas edições seguintes do Jornal Nacional. Sua redação paulista fora palco, na véspera, de uma cena insólita. Os próprios jornalistas vaiaram a “edição” das cenas em que o candidato do PSDB é atingido por um rolo de fita adesiva, materializado do nada. (leia relato de Rodrigo Vianna). Na madrugada posterior às denúncias de fraude (23h09 de 22/10), o site da Globo exibiu discretamente uma nota do “perito” “Ricardo Molina. Redigido depois que os sinais de fusão fraudulenta de imagens tornaram-se evidentes, o texto procura, em essência isentar a emissora em investigações futuras sobre falsificação. Molina alega que analisou material “encontrado na internet” (veja análise de CDM, no Blog do Nassif).

À medida em que a primeira certeza se consolida, começa a se desenhar uma segunda. A provável manipulação de imagens não foi um fato isolado. Ela articula-se com outro assunto que dominou o noticiário da velha mídia esta semana. Vazaram os depoimentos que o jornalista Amaury Ribeiro prestou à Polícia Federal, no inquérito sobre a quebra dos sigilos fiscais de Verônica Serra e outros expoentes do PSDB. O processo corre em sigilo de justiça. Porém, por serem parte envolvida, os advogados de Eduardo Jorge Caldas, ex-tesoureiro de campanha do partido, pediram, através de liminar, acesso às peças. São a fonte óbvia da inacreditável sequência de matérias publicadas, também a partir de 22/10, pela Folha de S.Paulo e Jornal Nacional.

Aqui, já não se trata, como se verá no terceiro texto desta série, de manipulação de imagens – mas de substituição explícita do jornalismo pelo panfleto partidário. Tendo acesso exclusivo ao depoimento de Amary Ribeiro, a Folha e o JN esconderam de seus leitores uma série assombrosa de informações ou pistas de grande relevância. Preferiram destacar em manchete, durante quatro dias, uma penca de ninharias, pinçadas com claro intuito de servir à campanha de José Serra. A tentativa foi reforçada pela edição de Veja que circula este fim-de-semana.

Iniciado na quarta-feira – poucas horas, portanto, depois de o candidato tucano comparecer à Globo para uma entrevista ao vivo no Jornal Nacional – o movimento inclui sinais de ataque flagrante ao direito à informação, praticado por empresas que se beneficiam de concessão e pesados subsídios públicos. Foi, provavelmente, concebido para desencadear, a onze dias do pleito, a última tentativa de vitória do candidato conservador, numa disputa em que está em jogo, também, o destino das reservas do Pré-Sal.

A força da velha mídia chocou-se, porém, com a rebeldia da internet. Entre quarta e sexta-feira, as manipulações imagéticas e factuais foram desfeitas por uma rede – auto-organizada e informal, porém muito potente – de busca e difusão da verdade. Personagens quase-anônimos desmontaram, com inteligência e conhecimento, as tentativas da Globo de fabricar a “agressão” a Serra. Jornalistas como Luís Nassif demonstraram o caráter partidista das “reportagens” da Folha. Graças ao Twitter e ao Facebook, cada nova descoberta era retransmitida instantaneamente por milhares de pessoas, o que estimulava novas investigações.

No momento em que este texto é concluído, a batalha não está decidida. O contra-ataque da blogosfera – reforçado por uma fala corajosa, de Lula, denunciando a farsa pró-Serra (na quinta-feira, 21/10) – amedrontou temporariamente a Rede Globo, a Folha e a própria campanha do PSDB. Desde sexta à noite, quando difundiram-se os vídeos que desmentiam o Jornal Nacional, a investida refluiu. O recuo, a esta altura, pode ter sido fatal para as Serra. Após as eleições será indispensável investigar o episódio da semana passada. A depender da mobilização social, ele poderá ser conhecido, no futuro, como o GloboGate. Ou o momento em que o setor mais conservador das elites brasileiras abusou descontroladamente do controle que exerce sobre a mídia, a ponto de provocar, como resposta, um amplo movimento pela democratização das comunicações.

Jogue você também a sua bolinha ---> http://www.sitedegames.com/humor/atire_bolinhas_de_papel_no_jose_serra.htm

sábado, 23 de outubro de 2010

E o blackout - o "apagão" - da Era FHC?

Os verdadeiros culpados


JÂNIO DE FREITAS

Seja pela ira mal dirigida de uns ou pela ansiedade de exibicionismo de outros ministros, uma face do governo Fernando Henrique está lembrando muito o início do governo Collor: é a irracionalidade algo furiosa que se despeja sobre o funcionário público em geral, como se aí, e não nos próprios governantes -incluídos muitos dos atuais-, estivesse a causa de todos os males brasileiros.

Nos dez primeiros dias de governo, o secretário de Administração, Bresser Pereira, já havia sentenciado que a estabilidade dos funcionários tem que acabar.
A isonomia que deveria dar-lhes tratamentos equivalentes tem que ser apagada da Constituição e os funcionários não-estáveis devem ser demitidos logo.

Façamos uma pequena comparação para avaliar a fúria bresseriana. A maioria dos funcionários públicos é relapsa, carente da noção de serviço público, incompetente também? Não há levantamento que permita afirmar ou negar a condenação, mas admitamos que a maioria seja assim. E o que dizer, então, dos políticos e governantes a respeito da sua omissão, privilégios, falta de espírito público, excesso de malandragem, mordomias e corrupção? E, no entanto, quem conduz o país não são os funcionários públicos, são os políticos e seus economistas.

Há funcionários "em excesso", é o que dizem os novos poderosos, com poucas exceções. Não foi esta, porém, a surpresa a que chegou o grupo de elaboradores do programa apresentado pelo candidato Fernando Henrique. Sua conclusão foi de que os 600 mil funcionários civis estão mal distribuídos, e são necessárias admissões para dotar o Estado de eficiência funcional. Ainda assim, digamos que haja excesso.
 
Nenhum funcionário se autonomeou. Todos foram nomeados por políticos. Grande massa de funcionários nem trabalha, é verdade. São os que têm a proteção de políticos. Mas não os políticos do PSDB, agora no governo, dirá um tucano apressado. E esquecido, na pressa, de que o PSDB de hoje era PMDB no governo Sarney e, como tal, foi conivente, por integrar o governo e por sua ação no Congresso, com os festivais de nomeações, com a corrupção, com a impunidade, com os privilégios.

Por que o furor contra os funcionários em geral, e não a racionalidade e o bom senso para identificar com segurança onde conviriam demissões e onde a estabilidade é essencial, dada a natureza do trabalho? Atrevo-me a dizer que, se esta geringonça chamada Brasil ainda guarda ares de nação, deve-se a técnicos-funcionários e a funcionários burocratas. A inflação, o déficit público, os maus acordos da dívida externa, as catástrofes sucessivas dos planos econômicos, a "década perdida", tudo isso é obra dos políticos e dos economistas por eles metidos nos governos.

Também cavaleiro do furor, o ministro do Planejamento, José Serra, comete dois desrespeitos ao sentenciar que a correção dos vencimentos do funcionalismo está adiada e sem data prevista. Desrespeita cada funcionário, como pessoa e como trabalhador, e desrespeita a lei. E não se satisfaz por aí: alega que está amparado pelo art. 169 da Constituição, segundo o qual "qualquer aumento de remuneração" só pode ser feito "se houver prévia dotação orçamentária suficiente".

Vê-se que o ministro leu a Constituição. E, portanto, leu também que a vigência do artigo citado depende da aprovação de lei complementar. Ora, segundo a tese encampada por José Serra desde 88, o limite de 12% anuais para as taxas de juros não poderia ser aplicado, e não foi, porque o artigo que o fixa na Constituição exige, também, uma lei complementar não votada até hoje. Logo, o 169 em que ele se ampara não está em vigor, pelo mesmo motivo. Como ele sabe muito bem.

A haver algum rancor, devia estar nos cento e tal milhões que, do meio da classe média para baixo, têm pago pelo que são os políticos e, sobretudo, pela alternância de incompetência e charlatanice de tantos economistas que têm passado pelo governo.
 
Data: 14/Jan/95   
Autor: Janio De Freitas   
Editoria: Brasil   
Página:    1-5   
Edição: Nacional   
Seção: Janio De Freitas   

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Lula, o que não entende de nada

Lula, que não entende de sociologia, levou 32 milhões de miseráveis e pobres à condição de consumidores; e que também não entende de economia; pagou as contas de FHC, zerou a dívida com o FMI e ainda empresta algum aos ricos; Lula, o analfabeto, que não entende de educação, criou mais escolas e universidades que seus antecessores juntos [14 universidades públicas e estendeu mais de 40 campi], e ainda criou o PRÓ-UNI, que leva o filho do pobre à universidade [meio milhão de bolsa para pobres em escolas particulares].

Lula, que não entende de finanças nem de contas públicas, elevou o salário mínimo de 64 para mais de 291 dólares [valores de janeiro de 2010], e não quebrou a previdência como queria FHC.

Lula, que não entende de psicologia, levantou o moral da nação e disse que o Brasil está melhor que o mundo. Embora o PIG-Partido da Imprensa Golpista, que entende de tudo, diga que não.

Lula, que não entende de engenharia, nem de mecânica, nem de nada, reabilitou o Proálcool, acreditou no biodiesel e levou o país à liderança mundial de combustíveis renováveis [maior programa de energia alternativa ao petróleo do planeta].

Lula, que não entende de política, mudou os paradigmas mundiais e colocou o Brasil na liderança dos países emergentes, passou a ser respeitado e enterrou o G-8 [criou o G-20].

Lula, que não entende de política externa nem de conciliação, pois foi sindicalista brucutu; mandou às favas a ALCA, olhou para os parceiros do sul, especialmente para os vizinhos da América Latina, onde exerce liderança absoluta sem ser imperialista. Tem fácil trânsito junto a Chaves, Fidel, Obama, Evo etc. Bobo que é, cedeu a tudo e a todos.

Lula, que não entende de mulher nem de negro, colocou o primeiro negro no Supremo (desmoralizado por brancos) e uma mulher no cargo de primeira ministra, e que pode inclusive, fazê-la sua sucessora.

Lula, que não entende de etiqueta, sentou ao lado da rainha (a convite dela) e afrontou nossa fidalguia branca de lentes azuis.

Lula, que não entende de desenvolvimento, nunca ouviu falar de Keynes, criou o PAC; antes mesmo que o mundo inteiro dissesse que é hora de o Estado investir; hoje o PAC é um amortecedor da crise.

Lula, que não entende de crise, mandou baixar o IPI e levou a indústria automobilística a bater recorde no trimestre [como também na linha branca de eletrodomésticos].

Lula, que não entende de português nem de outra língua, tem fluência entre os líderes mundiais; é respeitado e citado entre as pessoas mais poderosas e influentes no mundo atual [o melhor do mundo para o Le Monde, Times, News Week, Financial Times e outros...].

Lula, que não entende de respeito a seus pares, pois é um brucutu, já tinha empatia e relação direta com George Bush - notada até pela imprensa americana - e agora tem a mesma empatia com Barack Obama.

Lula, que não entende nada de sindicato, pois era apenas um agitador... é amigo do tal John Sweeny [presidente da AFL-CIO - American Federation Labor-Central Industrial Congres - a central de trabalhadores dos Estados Unidos, que lá sim, é única...] e entra na Casa Branca com credencial de negociador e fala direto com o Tio Sam lá, nos "States".

Lula, que não entende de geografia, pois não sabe interpretar um mapa é autor da maior mudança geopolítica das Américas na história.

Lula, que não entende nada de diplomacia internacional, pois nunca estará preparado, age com sabedoria em todas as frentes e se torna interlocutor universal.

Lula, que não entende nada de história, pois é apenas um locutor de bravatas; faz história e será lembrado por um grande legado, dentro e fora do Brasil.

Lula, que não entende nada de conflitos armados nem de guerra, pois é um pacifista ingênuo, já é cotado pelos palestinos para dialogar com Israel.

Lula, que não entende nada de nada... é bem melhor que todos os outros...!


Pedro Lima *
Economista e professor de economia da UFRJ

A humanidade de José Serra

No início de 1995, houve atraso no pagamento do funcionalismo público federal, nos primeiros meses do governo de Fernando Henrique Cardoso, popularmente conhecido como Fernando II, sucessor mais intelectualizado, mais esperto e, por incrível que pareça, mais egocêntrico do que Fernando I, de sobrenome Collor de Mello.

O funcionalismo reagiu e muitos levantaram a questão de que seria desumano atrasar o pagamento, o que, aliás, não acontecia há décadas. Além disso, os vencimentos passaram a ser pagos no quinto dia útil e o então ministro do Planejamento, José Serra, recusou-se a pagar o reajuste salarial previsto e acordado para janeiro daquele ano - mais "desumanidades" que diziam bem o que seriam os "tempos de FHC", provavelmente o pior governo da história da República.

Na Folha de São Paulo do dia 10 de março daquele ano, o tal ministro ganhava destaque por uma frase, que reproduzo abaixo.
“Data de pagamento não é uma questão de direitos humanos, mas de disponibilidade de caixa."José Serra, ministro do Planejamento, ontem no "Jornal do Brasil".

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Carta do cacique Seattle

É quase certo que o Cacique Seattle tenha proferido uma palestra de cunho ambientalista nos EUA, provavelmente entre 1853 e 1855. Naquela ocasião, um certo Dr. Henry Smith teria feito longas anotações a respeito, apesar de não ser fluente na língua nativa do líder indígena. É possível que suas anotações tenham sido baseadas em uma tradução do Lushootseed (idioma do cacique) para o idioma Chinook, que só então foi traduzido para a platéia em inglês. Mais de trinta anos mais tarde, o Dr. Smith (que a esta altura não tinha mais certeza da data da palestra) resolveu passar suas anotações para um formato de discurso, que foi publicado no jornal Seattle Star em 1887.

Outras dezenas de anos depois, em 1931, o discurso foi republicado na revista acadêmica Washington Historical Quarterly, com o aparecimento misterioso de algumas novas frases de impacto. Durante as décadas de 1960 e 1970, o texto passou por mais algumas modificações para adequar-se às novas posturas ambientalistas.

Surpreendentemente, o texto que vemos com mais freqüência hoje em dia é uma reinterpretação fictícia produzida por um roteirista e professor universitário dos EUA em 1970 apenas para fins literários. Ou seja, o que é hoje reproduzido por todo o planeta como sendo palavras reais do famoso cacique, nada mais é que ambientalismo ocidental moderno.

Veja abaixo uma das versões mais famosas do discurso/carta do Cacique Seattle.

CARTA DO CACIQUE SEATTLE

"O grande chefe de Washington mandou dizer que quer comprar nossa terra. O grande chefe assegurou-nos também da sua amizade e benevolência. É uma atitude gentil da parte dele, pois sabemos que não necessita da nossa amizade. Vamos pensar na oferta. Sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e se apossará dela. O grande chefe de Washington pode acreditar no que o chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na mudança das estações do ano. Minha palavra é como as estrelas: não perdem o brilho.

Mas como é possível comprar ou vender o céu, o calor da terra? É uma idéia estranha. Não somos donos da pureza do ar e do brilho da água. Como alguém pode então comprá-los de nós? Decidimos apenas sobre coisas do nosso tempo. Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias de areia, cada floco de neblina nas florestas escuras, cada clareira, todos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na crença do meu povo.

Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é o mesmo que outro. Porque ele é um estranho, que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, nem sua amiga, e depois de esgotá-la ele vai embora. Deixa para trás o túmulo de seu pai sem nenhum sentimento. Rouba a terra de seus filhos, nada respeita. Esquece os antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empobrece a terra e deixa atrás de si os desertos. Suas cidades são um tormento para os olhos do homem vermelho, mas talvez seja assim porque o homem vermelho seria um selvagem que nada compreende.

Não há paz nas cidades do homem branco. Nem lugar onde se possa ouvir o som do desabrochar da folhagem na primavera, o zumbir das asas dos insetos. Talvez por ser um selvagem que nada entende, o barulho das cidades é terrível para os meus ouvidos. E que espécie de vida é aquela em que o homem não pode ouvir a voz do corvo noturno ou a conversa dos sapos no brejo à noite? Um índio prefere o suave sussurro do vento sobre o espelho d'água e o próprio cheiro do vento, purificado pela chuva do meio-dia e com perfume de pinho. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todos os seres vivos respiram o mesmo ar, animais, árvores, homens. Não parece que o homem branco se importe com o ar que respira. Como um moribundo, ele é insensível ao mau cheiro.

Se eu me decidir a aceitar a venda, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo que possa ser de outra forma. Vi milhares de bisões apodrecendo nas pradarias abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais valioso que um bisão, que nós, peles vermelhas matamos apenas para sustentar a nossa própria vida. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem os homens morreriam de solidão espiritual, porque tudo quanto acontece aos animais pode também afetar os homens. Tudo quanto fere a terra, fere também os filhos da terra.

Nossos filhos viram os pais humilhados na derrota. Nossos guerreiros vergam sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio e envenenam seu corpo com alimentos doces e bebidas ardentes. Não importa muito onde passaremos nossos últimos dias. Eles não são muitos. Mais algumas horas ou até mesmo alguns invernos e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nestas terras ou que tem vagueado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará para chorar, sobre os túmulos, um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso povo.

Sabemos de uma coisa que o homem branco talvez venha um dia a descobrir: nosso Deus é o mesmo Deus. Julga, talvez, que pode ser dono Dele da mesma maneira como deseja possuir nossa terra. Mas não pode. Ele é Deus de todos. E quer bem da mesma maneira do homem vermelho como do branco. A terra é amada por Ele. Causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo Criador. O homem branco também vai desaparecer, talvez mais depressa que as outras raças. Continua sujando sua própria cama e há de morrer, uma noite, sufocado nos seus próprios dejetos. Depois de abatido o último bisão e domados todos os cavalos selvagens, quando as matas misteriosas federem à gente, quando as colinas escarpadas se encherem de fios que falam, onde ficarão então os sertões? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará dar adeus à andorinha da torre e à caça. É o fim da vida e o começo da sobrevivência.

Talvez compreendêssemos com que sonha o homem branco se soubéssemos que esperanças transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, que visões do futuro oferece para que possam tomar forma os desejos do dia de amanhã. Mas nós somos selvagens. Os sonhos do homem branco são desconhecidos para nós. E por serem desconhecidos, temos que escolher nosso próprio caminho. Se concordarmos com a venda é para garantir as reservas que foram prometidas. Lá talvez possamos viver nossos últimos dias. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem sobre as pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe. Se vendermos nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca se esqueçam de como era a terra quando tomaram posse dela. E com toda a sua força, o seu poder, e todo o seu coração, conserva-a para os seus filhos e ama-a como Deus ama a todos nós. Uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é querida por Ele. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino"
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Fonte: http://festivalecologicodepernambuco.blogspot.com/2009/05/fatos-e-mitos-sobre-o-cacique-seattle.html.Com as seguintes referências bibliográficas:


Clark, J.L. Thus Spoke Chief Seattle: The Story of An Undocumented Speech. Prologue, 18(1): Online.   1985.
 
McKenzie, J. I. Environmental Politics in Canada: Managing the Commons in the Twenty First Century. Oxford: Oxford University Press, 2002, p. 40.
 
Preece, R. Animals and Nature, Cultural Myths, Cultural Realities. University of British Columbia Press: Vancouver, 2000, p. 18-19.