quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A versão palatável da revolta juvenil

O jornal O Globo publica um caderno para “jovens”, essa faixa da população também conhecida como “teens” e que tem o adolescente congelado Mick Jagger (a definição é de Beatriz Sarlo) como uma de suas referências. O caderno se chama Megazine e sai todas as terças. Nele, são publicadas matérias “jovens” e sempre há espaço para o “bom e velho” rock’n’roll. Uma delas, do dia 4 de janeiro de 2010, trata de rebeldias diversas na relação entre fãs e ídolos roqueiros (rebeldia é o nome que Erich Fromm dá aos que são “do contra” e querem mudar tudo para que nada mude).

Há um box na matéria que tem o título: tudo nasceu com o rock’n’roll. Nele, o jornalista Alessandro Soler cita o livro de Jon Savage, “A Criação da Juventude” mas, lendo o texto do box, não se sabe bem o que nasceu com o rock’n’roll. Pode ter sido a relação desmedidamente apaixonada entre roqueiros e fãs, tudo bem, mas todo o élan que deu origem a tudo isso, a todo o contexto “jovem”, nasceu muito antes, segundo o livro de Savage. Daí que fica a dúvida se o jornalista leu o livro, o que provavelmente não fez.


Digo que não leu, pois, se o tivesse feito, inevitavelmente se remeteria à cultura jovem do século XIX, que, mais de meio século antes dos Beatles e dos necrosados Stones, já existia quase nos mesmos termos atuais. O que não havia era o rock, é claro. Havia as gangues de rua, famosas em Nova York, em Manchester e também em Paris, violentas e incensadas pela mídia da época, já pautada pelo sensacionalismo, como aponta o livro “Vida, o Filme”, de Neal Gabler.


Se formos compreender a juventude e o rock’n’roll sob o ponto de vista das manifestações juvenis do século XIX, abordadas por Savage, somos tentados a pensar que a cultura roqueira foi incentivada pela mídia de massa como uma forma ordeira e consumista de canalizar a energia jovem. Os jovens do século XIX não consumiam praticamente nada a não ser álcool e não havia um star system pronto para fazê-los canalizar a tal energia para objetos de consumo.


O que se deduz do livro de Savage é que tanto os jovens daquela época quanto os roqueiros eram, e são, a contraface dos valores dominantes, “in a raw and highly unpalatable form”, diz Savage. O que nasceu com o rock’n’roll, assim, foi uma nova versão da rebeldia juvenil, desta vez mais palatável, como nicho de consumo e lugar marcado e aceito na sociedade.


Tudo faz crer que o jornalista citou o livro sem saber exatamente do que o autor escreveu.

 
Luiz Geremias

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

A "pacificação" do Rio de Janeiro

O réveillon do Rio de Janeiro foi cantado em prosa e verso pelo jornal O Globo como o “da pacificação”. Na edição do dia primeiro de 2010, a manchete era essa e o subtítulo dizia que o “asfalto” e o morro celebraram em paz a chegada do ano novo. Uma foto mostrava pouco mais de vinte pessoas assistindo, do alto do morro do Pavão-Pavãozinho à queima de fogos da praia de Copacabana. Uma foto menor também mostrava a queima de fogos, mas vista do alto de um hotel do bairro. O objetivo foi mostrar a integração entre o tal “asfalto” e o morro, ou seja, entre classes sociais, tanto que as legendas falavam em lajes: a laje do morro e a “laje” do hotel.

Para quem não sabe, laje, no caso, é a parte de cima das casas, um local no qual, nas favelas e bairros periféricos, as pessoas se instalam para tomar sol, soltar pipa, admirar a noite etc. – uma espécie de “terraço”, que é uma laje mais bem elaborada arquitetonicamente e característica dos edifícios do “asfalto” e das casas da classe média. A laje é uma referência da população mais pobre na cidade do Rio. Ao falar de laje tanto para o morro – onde moram os pobres no Rio – e para o hotel – recanto de turistas e moradores aquinhoados – o jornal objetiva dizer que todos estavam irmanados.

Essa é uma versão oficial da situação na cidade. Essa versão é compartilhada pelo governo estadual e pela prefeitura e, possivelmente, também pelo governo federal. E essa versão somente é possível graças à ocupação militar das comunidades pobres do Rio. Digo ocupação militar, pois foi a polícia militar que invadiu os morros para “pacificá-los”.

A versão não é apenas dos governos, é da “grande” imprensa, como visto, e também de parte da população carioca. A lógica é a de que o Rio estava assolado por bandidos, “refém da violência” etc., e que a ação policial está começando a mudar esse quadro, “pacificando” com armas. Bem, é justo e compreensível que muitos pensem assim, afinal havia – e ainda há – um claro confronto entre morro e “asfalto” e para os governos, para a imprensa e para muitas pessoas, havia a necessidade de se fazer algo para reverter essa conjuntura.

Mas, aqui lembro de um rap de MV Bill, chamado “Só mais um maluco”, no qual há uma frase de notável inteligência e que enuncia o óbvio: "pedir paz, sem justiça, é utopia". Cabe pensar, então, se a tal “pacificação” está incluindo a tal justiça. Segundo a imprensa, tudo indica que não, pois não se fala de qualquer transformação no sentido do equilíbrio da distribuição de oportunidades e riqueza. E o presidente Lula que me perdoe, mas as “bolsas” e auxílios diversos que são oferecidos aos pobres não indicam ser eficazes instrumentos de equilíbrio: parecem mais justificáveis medidas paliativas, que precisam ser complementados com reais medidas de criação de oportunidades de trabalho e de distribuição de renda.

De todo modo, para a “grande” imprensa, o problema é quase de natureza médica: não há a realidade econômica, não há desigualdades sociais, há um problema cancerígeno que merece uma intervenção cirúrgica – leia-se policial militar – para se extirpar o tumor.

A imprensa trabalha com a noção simplória de que os bandidos são sujeitos maus – essencialmente maus – que oprimem não apenas o “asfalto”, mas também o morro. A presença da polícia militar, assim, estaria reprimindo esses indivíduos pérfidos e “libertando” a população, tanto a da laje do morro quanto a da laje do hotel. Em nenhum momento sugere pensar a complexidade da situação, que inclui a injustiça e, acima de tudo, a quase completa ausência de solidariedade existente entre as classes sociais em conflito. Não sugere, da mesma forma, pensar que o mesmo indivíduo que recorre ao banditismo para “ganhar a vida”, poderia trilhar outros caminhos, se houvessem outros caminhos tão fáceis e viáveis quanto a associação ao crime.

Essa mesma imprensa deu voz a um policial militar que ocupou o morro do Pavãozinho: ao ouvir a reclamação de uma moradora, de que sempre anda, ameaçadoramente, com armas nas mãos, responde que precisa fazer isso, pois “sabe” que ainda há traficantes por ali, rondando, como um poder diabólico. Lógica semelhante foi usada pelos militares paranóicos, durante a ditadura militar brasileira. Também foi usada por outros regimes, como o nazismo e o fascismo, e é diariamente constatada nos hospitais psiquiátricos, nos quais pessoas padecem, delirando haver perseguidores por toda parte. É uma lógica doentia e pobre de complexidade. Para lidar com os pobres, usa-se de uma outra pobreza, a de espírito.

Não há como engolir tranquilamente essa tal pacificação. No contexto do Rio de Janeiro, o que parece haver é efetivamente uma ocupação militar, como a que aconteceu tantas vezes e em tantos lugares na história. Trata-se da assunção de um estado de guerra e trata-se de uma pacificação que responde aos anseios de apenas uma parte da população carioca. Uma parte pequena, diga-se.

Essa “pacificação” não pacifica. Como no Iraque, deverá gerar problemas tão ou mais graves do que os que havia anteriormente. Tanto o governo do Rio, quanto a prefeitura da cidade não se mobilizam para equilibrar a disparidade social e a falta de solidariedade que geram o problema. Na verdade, nem podem fazê-lo, pois a sociedade capitalista não é regida pelo texto da “Democracia na América”, de Tocqueville, mas sim pela “Fábula das Abelhas”, de Mandeville. O grave não está no fato de não poderem fazer muito. O pior é que garantem que podem e que já estão fazendo. Porém, o máximo que podem conseguir é assumir definitivamente que o único poder estatal que alcança as comunidades pobres é a polícia militar. E a polícia não pacifica. Dizer o contrário é risível.

No entanto, os jornais estampam manchetes falando em pacificação armada. Nem mesmo os tolos conseguem acreditar piamente nisso. Voltando ao inteligente rap de MV Bill, só podemos compreender que “a guerra me parece inevitável, para quem vive em situação desfavorável”. O que há, em vez de pacificação, é o acirramento dessa guerra. Uma guerra que, tudo indica, está longe de ter fim. Pior: acaba sendo alimentada pelo poder público, que adotou claramente o discurso militar. Se a guerra tiver fim, o que vai ser de todo o aparato policial montado nas últimas décadas? Sem chance, diria o personagem do livro “Carandiru”, de Dráuzio Varella. Sem chance.
Luiz Geremias

O charme do crime midiatizado: desconstruindo uma "guerra a Beira-Mar"

Para entender o porquê da mídia gostar tanto de noticiar crimes, só lendo o trabalho "O charme do crime midiatizado: desconstruindo uma 'guerra a Beira-Mar'"? Dissertação de mestrado indicada para publicação e definida pela banca como o melhor texto já escrito sobre o tema.

Abaixo, o link:
http://www.bocc.ubi.pt/pag/geremias-luiz-charme-crime-midiatizado.pdf

Lendo esse texto você vai saber:- diferenciar guerra à beira-mar de guerra a Beira-Mar;- por que a classe média é composta de cadáveres animados;- quem são os bandidos mais perigosos (não são os dos morros cariocas, posso adiantar);- uma breve história do Comando Vermelho;- por que Fernandinho Beira-Mar ganhou tanto espaço na mídia;- que o traficante acima citado é a imagem da classe média: têm em comum o fato de terem "perdido".

domingo, 3 de janeiro de 2010

O outro lado

A dita "grande" imprensa tem seu lado. Todo acontecimento tem, porém, vários lados. Isso quer dizer que tudo o que acontece pode ser visto de diversos ângulos e captar essa diversidade possibilita propor que se reflita sobre a complexidade da realidade. E significa também, retomando a primeira frase deste texto, dizer que a imprensa escolhe um dos ângulos e o divulga, deixando os demais de lado, muitas vezes os ignorando.

Ora, todo mundo faz isso, você pode dizer. Pode e deve dizer. No entanto, a imprensa, por seu papel na sociedade dita democrática, teria como função primordial, divulgar a complexidade à qual me referi acima. Isso seria importante para a formação daquele que chamamos genericamente de cidadão. Ao não fazer isso, ao, via de regra, escolher apenas um lado, forma não o cidadão, mas o escravo.

Escravo, segundo Houaiss, é “aquele que, privado da liberdade, está submetido à vontade absoluta de um senhor, a quem pertence como propriedade”. O termo “cidadão”, para ser bem compreendido, deve ser referido à antiga Grécia, mais especificamente à cidade de Atenas, na qual surgiu o modelo de governo chamado democracia. Cidadão, nesse contexto, é o indivíduo que desfruta do direito de participar da vida política da cidade. Na Grécia, como nas sociedades modernas, os escravos não têm essa prerrogativa.

Aqueles que se dedicaram a pensar a relação do indivíduo com o poder democrático, como Jürgen Habermas e Gabriel Tarde, davam especial atenção à participação do cidadão na vida política e tinham clara noção de que a imprensa tem um papel fundamental na viabilização dessa participação. O cidadão, para participar efetivamente dos destinos de sua cidade, ou de sua nação, tomando um termo da modernidade, deve ter pleno acesso às informações daquilo que acontece na sociedade, com o mínimo de tendenciosidade possível, o que significa afirmar que deve ter acesso à complexidade contida na realidade.

Se a realidade tem vários ângulos, o cidadão precisa ter clara noção disso e, num exercício de abstração inerente ao pensamento, se pôr no lugar dos vários agentes que compõem um acontecimento ao percebê-lo e descrevê-lo. Assim, pode também ser agente: saber do que acontece, pensar sobre isso, decidir o que fazer e, finalmente, agir.

Se isso não acontece, não falamos de cidadania, mas de escravidão, pois, preso a apenas uma versão da realidade, acaba não sabendo exatamente o que acontece, tendo a sua capacidade de pensar extremamente limitada e, como conseqüência, não decidirá o que fazer, alguém estará fazendo isso por ele. Suas ações serão determinadas por sua ignorância, o que nos faz pensar não em sua potência, mas no oposto: em impotência, impotência política.

O objetivo deste espaço é abrir para o “outro lado” da notícia, produzindo a sensação do contraditório, da versão – ou versões – que não tem oportunidade de aparecer nas narrativas jornalísticas. Em outros termos, o não dito, o ângulo de percepção que não está incluído na matéria.

Como não se vive apenas de matérias jornalísticas, há espaço também para percepções diversas de fenômenos socioculturais. Boa parte dos textos que aqui estão postos já foram publicados em outros locais, como o Observatório da Imprensa, o Overmundo e o blog Macavenco, cuja senha foi perdida.
Luiz Geremias