sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Acreditar na impessoalidade da lei é um dos passos para o despotismo


Não raro, os mais cruéis agressores acreditam piamente que estão
defendendo a normalidade definida pela obediência ao Império da Lei
Leis e regras são feitas por gente e essa mesma gente costuma se aproveitar dessas leis e regras para oprimir outras pessoas. No entanto, tudo indica que isso é feito com a alma leve, pois a crença no império da lei absolve todas as atrocidades

No último texto que trata do Império da Lei, concluí com a afirmação de que aqueles que creem nesse tal império correm o risco de cair no autoritarismo. Também, no mesmo escrito, citei John Hasnas como um pensador que tem uma compreensão interessante acerca de toda essa história imperial. Uma compreensão, em minha opinião, cética e bastante lúcida em relação a isso.

O império ideológico da lei

Ideologia é uma construção artificial que busca reproduzir tendenciosamente um quadro delimitado da realidade. Uma de suas características é a inversão do sentido das relações reais, que, na ideologia, são ideais e justificam o poder de uns sobre outros. A lógica presente na formalização da crença no tal império legal parece ser um bom exemplo de uma construção ideológica. Neste texto, assim como ocorreu em outros, tomamos como válida a argumentação do professor de direito John Hasnas, que leciona nos EUA

Venho pensando ultimamente sobre a questão da lei e de seu império. Em parte, isso se deve a uma declaração de um juiz sobre a sua esperança de que vivamos no “Império da Lei”. Quando li isso, tive uma sensação estranha, como se estivesse lendo algo falado ou escrito por um lunático, mas esse não é o caso, pois a declaração, conforme dito, foi dada por um juiz com inegável competência e dedicação ao seu ofício.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Quem sabe, sabe; mas quem não sabe é que sabe tudo


"O grande acontecimento do século [XX] foi a
ascensão espantosa e fulminante do idiota",
dizia Nelson Rodrigues, sem ainda conhecer as
proporções que a idiotia ascendente iria tomar
A realidade é complexa, geralmente são muitos fatores que a compõem. Mas há quem tenha a fórmula de tudo e consegue simplificar a realidade até que seja possível encaixá-la no seu espaço mental

Um sujeito me diz que é de responsabilidade de cada um controlar o que se come em relação ao que o corpo precisa. Muito bem, eu digo, é verdade. Mas, como a pessoa, o cada um, vai fazer isso? Com que instrumentos? Cabe a quem disponibilizar esses instrumentos ao “cada um”? Sim, porque, em tese, esse “cada um” é parte de uma coletividade, ou não? E essa coletividade não tem compromissos com cada um que a compõe? Se tem, quais esses compromissos? Entre eles não estão incluídos cuidados com a saúde, com a segurança alimentar?

Bem, se aceitamos que a coletividade tem compromissos com cada um, então a indústria “alimentícia” de junk food não é parte da comunidade, já que, em alguns casos, oferece comida de péssima qualidade e tenta, não raro, ocultar que seus produtos não servem para alimentar ninguém, muito pelo contrário.

Não foi só a indústria que viciou o Brasil em 'junk food'

Este texto é importante como uma ponderação ao exposto em matéria do New York Times (reproduzida neste blog e que rendeu outra matéria, também no blog), sobre o tema Alimentação, mais especificamente, Junk Food, ou seja, não-alimentação. A autora propõe a mudança do foco de compreensão, trazendo-o para o contexto no qual a indústria de Junk Food agiu e age


"O que aconteceria se a remuneração dos CEOs fosse calculada
em termos do impacto socioambiental de suas empresas ao
invés de em termos dos retornos financeiros obtidos?" 
Gisela Solymos | 18/10/2017 

Reportagem de capa do jornal americano "The New York Times" e reproduzida por esta Folha analisou o consumo crescente de alimentos ultraprocessados no Brasil e o impacto para a saúde da população e da economia nacional.

Trata-se de um artigo duro para com a indústria de alimentos, definida pela matéria como a grande causadora da epidemia de obesidade no Brasil. Não que ela não tenha sua parcela de culpa. Mas como uma das fundadoras do Cren (Centro de Recuperação e Educação Nutricional) –organização que aparece em destaque na referida reportagem como exemplo de serviço para tratamento nutricional– entendo que a indústria de alimentos não é a única responsável por esse mal que atinge mais de 2 bilhões de pessoas em todo o mundo.

De fato, fico muito preocupada quando problemas tão complexos são descritos segundo parâmetros simplistas dos filmes de super-heróis onde as personagens são mocinhos ou bandidos!

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Uma base imaginária para que não sucumbamos ao caos


Na bela obra "Sanctuary", de Rodney Matthews, a ponte para 
o santuário estaria sustentada apenas pela força da imaginação
Precisamos acreditar que estamos sobre uma ponte firme que liga nossos conceitos à realidade e que sob ela está o caos, que evitamos ao atravessá-la

A crença que temos nas leis é surpreendente. Cremos, quase ajoelhados ante uma divindade, que há um corpo de leis e regras que é absoluta e completamente objetivo e impessoal. Acreditamos que a Lei está ou fora ou acima da política, que ocupa um lugar que é como o olimpo, acima de todas as pessoas, reinando sobre tudo e todos, neutra, sublime, essencialmente boa e, se não bela, justa. Temos a firme crença de que há um Império da Lei no qual governam os justos, alheios até mesmo aos seus interesses mais pessoais. E, n’outro dia, li que um juiz concedeu uma entrevista dizendo exatamente isso e jurando que o tempo dos barões ladrões estaria no fim. É a crença dele e quem sabe por isso acabou exercendo a função de juiz. 

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

As novas ágoras e os que nelas debatem sem saber o que estão dizendo


Na antiga ágora, os cidadãos se reuniam em assembleia a fim de poder
discutir e deliberar ações para o destino da cidade: isso era a democracia
No passado, havia a ágora em Atenas e nela os cidadãos opinavam sobre tudo ou quase tudo, mas sabendo o que diziam. Já, hoje, todos opinam sobre tudo e muito pouco ou nada sabem acerca do que dizem

A democracia é uma proposta ateniense, do tempo em que as cidades (as polis) tinham poucos habitantes e estes podiam dominar boa parte do conhecimento acerca do que se passa pela polis. Imagine que a democracia surgiu há pouco mais de dois mil e quinhentos anos e, naquele tempo, não havia toda a profusão de saberes formulados que há hoje. Os assuntos eram tratados na assembleia geral democrática, que tinha lugar na ágora, uma grande praça cuja função era concentrar o máximo de cidadãos da cidade para debater e deliberar as questões relativas à comunidade. Todos os cidadãos eram convidados a participar, ou, mais que isso, intimados, pois era de cada um a responsabilidade pelo que acontecia no lugar.

Pense antes de falar a verdade que só você vê

A crença na Verdade com V maiúsculo traz segurança a muita gente, mas é motivo de conflitos graves e de carnificinas, como as promovidas por grupos centrados em umbigos religiosos e étnicos, e para evitar isso, a única estratégia é pensar antes de anunciar a grande verdade diante da qual todos ajoelharão

Gente que pensa diferente e que aborda os mesmos assuntos conseguem argumentos lógicos para suas conclusões opostas. Argumentos são fáceis de conseguir, afinal. Estão “à venda” em livros, códigos e nas conversas mais diversificadas. Você quer falar sobre algo, pode procurar o que outros falam e “chupar” uma réplica da essência do raciocínio e a capturar a sua forma, ou seja, a retórica envolvida. Em um mundo de aparências, quem melhor se veste é melhor visto.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

O império parcial e subjetivo da lei

Regras e leis não nascem em árvores ou descem do firmamento com feitio de ditames divinos, são inventadas por pessoas e servem a pessoas, inevitavelmente

Uma das coisas mais aflitivas e angustiantes da vida é a instabilidade. Se você pensar bem, tudo na nossa vida tem uma instabilidade irritante, ou quase tudo. Somos feitos de carne, ossos e sangue e não somos robôs programados para fazer sempre o mesmo, o certo, o preciso, o adequado. Somos gente e gente perde o rumo, faz besteira, não pede desculpas, esquece de dar bom dia e tudo o mais. Além disso, também deixamos cair coisas, riscamos a camisa com a caneta, depois de adultos, e as paredes com giz de cera, quando crianças.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Assim é, se lhe parece e lhe for conveniente

Quando for encher a boca para falar uma verdade, pense bem antes de dizer besteiras. As verdades estão fora de moda e isso não é à toa, mas porque descobrimos, já algum tempo, que elas têm local e data de validade, dependendo mais do consenso e da retórica do que da ciência. Alguns se aproveitam disso para iludir os demais, tanto utilizando as imagens detalhadas do real que constroem pictoriamente, quanto criando fantasias, fatos e ideias para melhor colorir o desenho que apresentam como reprodução fiel daquilo que chamam malandramente de “Verdade”, com V maiúsculo. Então, abra o olho e fique bem esperto(a).

Algo aconteceu e você quer provar uma tese em relação a esse acontecimento, por algum motivo. O que faz? Estuda e analisa o fato, busca a legislação, lê filosofia, retórica e tudo o mais, conforme o caso. No fim das contas, você encontra um sólido argumento para comprovar sua tese. Ou seja, de certo modo, você encontrou a fórmula que explica um acontecimento e que, se tudo der certo, poderá evitar que coisas semelhantes aconteçam, ou mesmo a incentivar, conforme a situação e o desejo.

Ótimo, mas o que você precisa saber é que está construindo um sofisma, necessariamente. Ocorre que o mundo das ideias não é como o mundo real. Neste, há muitas vezes fatores em demasia influindo nas condições que propiciam um acontecimento ou, pior ainda, há fatores ocultos que têm influência inegável e, no entanto, estão fora do alcance de sua visão. Desse modo, o que você faz quando vai provar e comprovar uma tese é recortar alguns elementos da realidade e construir, com base neles e em ideias que vêm importadas de outras situações, um edifício de ideias que é necessariamente artificial e que não tem relação direta com a realidade, bem ao contrário do que você supõe quando chega à conclusão de sua análise e à formulação de seu argumento. 

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica alerta para novas estratégias de vendas de alimentos no Brasil

29 SET  2017 - Terra

O presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), Caetano Marchesini, fez um alerta nesta terça-feira (26), sobre a necessidade de políticas públicas sólidas para frear as estratégias de vendas da indústria alimentícia e que estão trazendo consequências irreversíveis para o avanço da obesidade no Brasil.

Na última semana (16), o Jornal americano New York Times publicou reportagem especial sobre a nova política de vendas das multinacionais do gênero alimentício para o Brasil e outros países em desenvolvimento. A oferta domiciliar de produtos processados como bebidas açucaradas, macarrões instantâneos, bolachas e outros, a baixo custo, para as regiões mais carentes do Brasil, está influenciando na mudança de hábitos alimentares tradicionais da população.