quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Jovens de ontem e de hoje: mais semelhanças que diferenças

Mudaram os padrões subjetivos da juventude e embora muitos creiam que os jovens de ontem foram mais rebeldes, cabe pensar que aquela rebeldia foi mais simbólica do que real - no mais, todos foram ou são jovens e isso significa que têm mais identidades do que disparidades

Jovens sempre se caracterizaram por pelo menos duas qualidades: são vigorosos e impetuosos. No entanto, ao lado do vigor e do ímpeto, há outro aspecto que os caracteriza e que, porém, não é uma qualidade: a inexperiência. Nelson Rodrigues sabia disso e escreveu que todo jovem tem os mesmos defeitos de um adulto, mais um: a inexperiência. O fato de ser inexperiente faz com que a pessoa jovem cometa besteiras suficientes para caracterizá-la até mesmo como tola em boa parte de seus pensamentos e atos. A mim parece que a capacidade de fazer besteiras costuma exceder os limites quando falamos de gente jovem em qualquer tempo. Isso faz parte do show, com certeza. 

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Ele botou o seu bloco na rua

Sergio Sampaio foi um dos mais criativos compositores da música brasileira, porém, hoje, poucos sabem de sua existência e, pior, quase ninguém conhece sua admirável obra

Todos os dias é costume lá em casa ouvir música. Hoje, disse para minhas meninas que iria refazer o repertório do pen drive no qual estão as cento e muitas músicas que tocam diariamente e recebi ovações das duas, principalmente da minha amada esposa, que sentenciou: “Muda tudo, mas deixa o Sérgio Sampaio!”. Sábio pronunciamento.

Pouca gente conhece Sérgio Moraes Sampaio, ou simplesmente Sérgio Sampaio, que nasceu em 13 de abril de 1947 na cidade de Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo, a mesma cidade na qual nasceu aquele que é chamado de “Rei” e que todo mundo conhece: Roberto Carlos. No caso, o fato de todos conhecerem o tal “Rei” e quase ninguém saber quem foi o “maldito” Sergio Sampaio fala de uma característica essencial da cultura popular brasileira: enquanto o “Rei” me parece um representante do romantismo monocórdio e não demonstra qualidades musicais que justifiquem sua fama, Sampaio sempre trouxe consigo a marca da genialidade, assim como outros, também desconhecidos, como, por exemplo, Walter Franco. Mas, afinal, na cultura popular, o entretenimento é tudo e a arte não vale nada. 

Se há perdão para bancos, então não há crise

Se o governo está perdoando os bancos, então como pode falar em sacrifícios para os trabalhadores para vencer uma tal de uma crise que só existe longe dos gabinetes? Somente interpretando o andamento das coisas como de autoria de autênticos psicopatas é que se pode talvez entender como funciona o jogo político que presenciamos no Brasil

A Central Única dos Trabalhadores, a CUT, informa em sua página na internet, em manchete: “Em três meses, governo perdoa quase R$ 30 bilhões dos bancos”. Sendo isso verdade, confirma-se a tese de que não há essa porra de crise merda nenhuma para o governo. Trata-se, simplesmente, do caso da pimenta no olho do outro ser refresco. Coisa de filhos(as) da puta mesmo.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Agressões à língua estão se tornando mais comuns e partem de onde menos se espera

Em reunião com autoridades, observei um sem número de agressões indisfarçadas à língua, verdadeiras atrocidades que podem denotar desprezo total e completo pelo bem-comum contido na correta expressão linguística

A língua é o instrumento fundamental de comunicação dos que a utilizam, sempre. Comunicar, em tese, é um ato que remete ao que é comum entre um grupo de pessoas, um fator de identidade e de organização mental dessas pessoas. A subjetividade, a racionalidade e a sociabilidade se fundamentam na comunicação e há certas regras de composição interna dos elementos da língua que existem para facilitá-la, evitando mensagens dúbias ou com duplicidade que perturba a entendimento comum de uma mensagem. O mau uso da língua cria o que chamamos “ruído”, o que significa dizer que o emissor de uma mensagem produziu, voluntária ou involuntariamente, algum elemento estranho à comunicação e que a perturba.

Usamos a língua para encontrar termos que nos definam e a língua fala em nós e por nós. Isso significa dizer que a língua é um instrumento para que formemos, de forma autoral, uma subjetividade, mas que também nos forma, subjetivamente, enquanto personagens de uma trama. Logo, podemos dizer que somos ativos e passivos diante da língua, que nos expõe um mostruário de termos à nossa disposição para dizermos o que sentimos e pensamos, mas que, ao fazer isso, também nos determina uma forma de fazê-lo, delimitando as possibilidades de expressão e as direcionando para determinado sentido.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Para Temer e amigos fiéis ao Deus Mercado, crise é sempre oportunidade


De Gaulle desfila no Rio de Janeiro, na década de 1960; teria
sido dele a frase que atribui ao Brasil a falta de seriedade, mas
foi de um embaixador brasileiro esse dito, que tem definido,
historicamente, a vocação brasileira de eleger políticos que
só tratam como realmente sérios os seus próprios interesses 
Para faturar sempre, sem intervalo ou descanso, a receita é o vale-tudo e Temer, com seu grupo, sabe muito bem disso; assim, compra quem for preciso e mostra o quanto a política está distante dos anseios da população, que considera o atual presidente uma desgraça para o país

Conta-se que Charles De Gaulle, presidente francês, teria dito, aí pela metade do século XX que o Brasil não seria um país sério. Não é verdade que foi ele quem disse isso, sendo mais precisamente atribuída a real autoria da frase ao diplomata brasileiro Carlos Alves de Souza Filho, embaixador do Brasil na França entre 1956 e 1964 e genro do presidente Artur Bernardes. Não importa, porque o que interessa é que a frase parece adequada e estes nossos dias vêm corroborar o dito.

Veja você que na semana passada o Congresso Nacional brasileiro votou, surpreendentemente, pelo arquivamento da denúncia do procurador geral da República contra o presidente da República Michel Temer. Isso impede que o Supremo Tribunal Federal o investigue e processe, mas apenas no caso da referida denúncia, fundada em denúncia dos empresários donos da empresa JBL, que apontava para a participação de Temer no cala-boca de Cunha, o homem que sabe demais.

domingo, 6 de agosto de 2017

Crise de quem, cara pálida?

Tem coisas que a gente fala, mas não pensa no que fala. O termo “crise” diz tudo e não diz nada, mas parece que, se resignificado no contexto da conjuntura contemporânea, pode nos fazer entender o mecanismo do sistema

Crise? Que crise? Há décadas ouço essa palavra constantemente. Ouço e leio, aqui e ali, de forma notável na mídia, a grande imprensa basicamente. É incrível, aliás, como a grande mídia, a imprensa bem capitalizada e que está em todo canto, servindo objetivamente a poucos, está em nossa vida. A própria “crise” sendo usada indiscriminadamente, por todos, para explicar praticamente quase tudo, tem origem midiática. Foram os telejornais, com seus comentaristas econômicos etc. que tiraram da cartola esse conceito amplo e impreciso de “crise”.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Com boa educação e gentileza tudo fica melhor

Há coisas que são fundamentais na vida e uma delas é saber proporcionar às outras pessoas bons momentos baseados simplesmente no bom tratamento, mas... sem fingimentos!

Para que serve a boa educação? É, você há de convir, uma boa pergunta. Principalmente porque você com certeza já passou por alguma situação na qual a educação de seu interlocutor era meramente formal. Outras vezes, certamente, você foi bem tratado por alguém que realmente parecia se importar com o seu bem-estar. É algo totalmente diferente.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Jamais tantos foram dominados e controlados por tão poucos


O capitalismo financeiro é essencialmente improdutivo e gera necessariamente tristeza, insatisfação, desordem, doenças e mortes; mas o pior é saber que tudo isso não acontece por acidente e que pouca gente está feliz com a infelicidade da maioria

Fala-se hoje em Capitalismo Improdutivo. Ora, isso é o capitalismo financeiro, que não produz nada de útil, ou quase nada, para nós, humanos. É o capitalismo das ideias e finanças puras. Ideias puras como o liberalismo e o socialismo, proposições etéreas que jamais serão possíveis em nosso mundo real (vide textos "Belas ideias nem sempre trazem boas intenções" e "Liberalismo ♥ Socialismo: um caso secreto?"), mas que servem bem para distrair os incautos que defendem que o mundo real deve deixar de existir para dar lugar a uma fantasia de mundo ideal. 

As finanças puras são resultado das ideias puras. De tanto você viver em uma realidade irreal, mas logicamente bem elaborada, você passa a acreditar em coisas abstratas, admitir que ideias puras e ordenadas são bem-vindas em um mundo impuro e desordenado. No meio do caos, ou sob a ameaça dele, tudo o que puder ser idealizado traz um alívio ilusório, mas reconfortante e imediato. O dinheiro, graças à sua característica de quantificação perene e obsessiva, é bom, ótimo, para tranquilizar quem vive em constante desassossego. Daí que o dinheiro passa a governar, ou, mais precisamente, as finanças passam a governar. Finanças são valores puros, o dinheiro puro, sem produtividade material, sem cédulas ou moedas, etéreo e por isso onipotente e onipresente, gigantesco e assustador como se tivesse origem diretamente em Deus.

Veja, abaixo, um exemplo do que digo.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Quanto maior a crise econômica, mais lucram os bancos. Por que será?


A monstruosidade do sistema bancário ilustrada em cartum
A equação Recessão = Lucratividade Astronômica é a base dos negócios bancários desde sempre e a sociedade paga a conta enquanto economistas tentam esconder que quem ganha no capitalismo financeiro ganha mais nas crises econômicas

A associação entre lucro dos bancos e crise econômica é direta. Agora mesmo, o Itaú Unibanco vem superando todas as expectativas com um lucro de quase R$ 6,2 bilhões no segundo trimestre deste ano. Vive-se, no país, o que o próprio presidente chamou de “maior recessão de todos os tempos”, com certo exagero, é claro. Mas, inequivocamente, trata-se de uma séria retração econômica que mostra bem sua realidade perceptível nas ruas das cidades. Comércio fechando, pessoas dormindo sob as marquises e gente com cara de quem está devendo mais do que pode pagar. No entanto, como já é costumeiro, os bancos lucram bastante, parecendo mesmo que é nesses momentos de desgraça para muitos que obtêm maior sucesso.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

A Dona Juventina do cortiço e os fofoqueiros das redes sociais

Heródoto Barbeiro | 18 de julho de 2017 | O texto compara os fofoqueiros das redes sociais com uma certa dona que cuida da vida das pessoas no cortiço onde mora

Compadre falar mal da comadre é tão antigo como a Sé de Braga. Ninguém passava incólume pela janela do velho casarão da antiga Travessa do Hospício, na baixada do Parque Dom Pedro, no centro velho de São Paulo. Dona Juventina – velha e maquiada, batom carmim, miçangas douradas nos punhos e no pescoço – não saia do seu posto. Sabia tudo o que acontecia nas velhas casas da rua e também do antigo cortiço habitado sobre tudo por negros em frente à sua decadente e descorada casa. Ela sabia tudo de todos e divulgava amplamente. Era dessa forma que as malícias, brigas, pequenos furtos, e análise do caráter de um e outro eram divulgados no meio da comunidade.

As notas escolares, bilhetes de admoestação, reprovação na escola, namoricos entre estudantes eram espalhados com eficiência para velha senhora. Os escândalos maiores como traições ganhavam grande destaque e não se passava pela janela da Juventina sem que ela contasse o caso e fizesse perguntas para aperfeiçoar suas histórias. Ninguém duvidava se tudo aquilo era verdade ou não. A priori era verdade uma vez que a fonte era a velha feiticeira que viveu até a década de 1970. Parecia uma internet sem streaming.