domingo, 10 de dezembro de 2017

Oito anos na Câmara Federal fizeram o palhaço chorar

Quando um palhaço se diz envergonhado de algo, pode ter certeza que a coisa é bem séria. E o excelente palhaço Tiririca, que se elegeu deputado federal por dois mandatos, confessou sentir muita vergonha de frequentar o Congresso Nacional, que, pelo que se deduz de suas palavras, não pode ser comparado sequer com um circo. "O que eu vi nos sete anos aqui, eu saio totalmente com vergonha", disse ao discursar pela última vez na casa legislativa.

Interessante é notar que durante esses oito anos em que esteve na Câmara Federal, Tiririca foi tratado por uma parcela da população brasileira como um completo e irretocável imbecil, um exemplo do baixo nível da política brasileira. No entanto, observemos quem são os que envergonham o Brasil, notadamente no Congresso, onde, dizem por aí, se gritar pega ladrão muita gente corre. Olhe-se bem para alguns dos "representantes do povo” que lá ocupam gabinetes e frequentam as comissões e o plenário da casa. Depois que se fizer isso, aí é possível conversar sobre quem é mau exemplo e quem é imbecil nessa história.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Nunca o idiota foi tão autêntico quando nestes nossos dias

De certa maneira, nunca o termo “idiota”, que refere o sujeito que não está inserido na roda do poder político e o imbecil, esteve tão em moda e corretamente posto. O(A) idiota não tem os privilégios do politico, mas, de forma clara, é quem os sustenta. Coisa típica de um(a) idiota, é claro. 

Ética e política não se combinam. Isso há muito, muito tempo. Aliás, melhor dizer que a moral e a política não têm qualquer relação desde Maquiavel e outros, que acabaram, há 400 anos, com a nossa ilusão de que a pessoa pública, aquela que exerce funções influentes nos destinos de uma comunidade, um bairro, cidade ou país, aja essencialmente orientada por princípios morais ou que se preocupe, para além de seus interesses pessoais, com a reflexão ética.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

O consenso dos solilóquios espelhados


O medíocre se orienta pela média, sendo esta produzida pela adesão
das
solidões à grande massa - esse grande consenso de solilóquios.

Assim, todos somos convidados a participar d
esse mundo especular.
N
ele muitos mergulham e se afogam, morrendo virtualmente em vida.

Pobres dos que lidam com a realidade, necessariamente complexa,
como algo simples e definido especularmente pelo umbigo do poder.

Deles é este paraíso infernal onde a individualidade é de massa e a
única obrigação a ser levada a sério é a de ser muito feliz, sempre
Participar de uma conversa sobre qualquer assunto é, nestes dias estranhos em que vivemos, impossível. O que poderia ser uma troca de ideias logo se torna um debate, de debate evolui para a discussão e o bate-boca é inevitável, com risco de rolar ainda uns empurrões, socos e pontapés. Conforme o caso, não descarte haver tiros ou facadas... 

A coisa começa difícil pelo começo. Para uns, algo ocorrido não sei quando foi bom, muito bom. Já para outros, o mesmo fato foi mau, péssimo. Isso é natural e corriqueiro, acontece todo dia de alguém gostar de alguma coisa e outrem desgostar da mesma coisa. E a simples ideia de alguém se colocar imaginaria e simpaticamente no lugar de outrem é empolgante, porque prenuncia o pensamento, que é fertilizado pelo contraste, não pela semelhança. No entanto, essa empolgação não costuma durar muito.

sábado, 28 de outubro de 2017

O moralista é o mais baixo dos seres rastejantes

Não, claro que não somos moralistas, pois todo o mal costuma estar longe de nós e tudo o que há de bom geralmente está nos nossos bolsos, não raro em cédulas. O moralismo, apesar de sempre distante de nós, é uma doença grave que tem sido esquecida pela Organização Mundial de Saúde em suas campanhas. Tome cuidado, até porque não há vacina contra isso

O moralismo parte claramente de um desejo de impor o seu ponto de vista a outros. O moralista constrói uma imagem ideal daquilo que seja moral, embora muitas vezes não o saiba e sequer imagina o que seja exatamente a moral. O menos moral de todos é o moralista, pois obnubila a compreensão com a imposição de um padrão incorruptível e absolutamente exato, como qualquer operação matemática deve ser. Essencialmente imoral, capaz de tudo para impor aquilo que chama de moral, mas que não passa de uma fantasia composta de seus desejos e medos, o moralista é o pior dos mortais, simplesmente porque engana a si próprio. E o que se pode esperar de alguém que não pode confiar nem em si?

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Acreditar na impessoalidade da lei é um dos passos para o despotismo


Não raro, os mais cruéis agressores acreditam piamente que estão
defendendo a normalidade definida pela obediência ao Império da Lei
Leis e regras são feitas por gente e essa mesma gente costuma se aproveitar dessas leis e regras para oprimir outras pessoas. No entanto, tudo indica que isso é feito com a alma leve, pois a crença no império da lei absolve todas as atrocidades

No último texto que trata do Império da Lei, concluí com a afirmação de que aqueles que creem nesse tal império correm o risco de cair no autoritarismo. Também, no mesmo escrito, citei John Hasnas como um pensador que tem uma compreensão interessante acerca de toda essa história imperial. Uma compreensão, em minha opinião, cética e bastante lúcida em relação a isso.

O império ideológico da lei

Ideologia é uma construção artificial que busca reproduzir tendenciosamente um quadro delimitado da realidade. Uma de suas características é a inversão do sentido das relações reais, que, na ideologia, são ideais e justificam o poder de uns sobre outros. A lógica presente na formalização da crença no tal império legal parece ser um bom exemplo de uma construção ideológica. Neste texto, assim como ocorreu em outros, tomamos como válida a argumentação do professor de direito John Hasnas, que leciona nos EUA

Venho pensando ultimamente sobre a questão da lei e de seu império. Em parte, isso se deve a uma declaração de um juiz sobre a sua esperança de que vivamos no “Império da Lei”. Quando li isso, tive uma sensação estranha, como se estivesse lendo algo falado ou escrito por um lunático, mas esse não é o caso, pois a declaração, conforme dito, foi dada por um juiz com inegável competência e dedicação ao seu ofício.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Quem sabe, sabe; mas quem não sabe é que sabe tudo


"O grande acontecimento do século [XX] foi a
ascensão espantosa e fulminante do idiota",
dizia Nelson Rodrigues, sem ainda conhecer as
proporções que a idiotia ascendente iria tomar
A realidade é complexa, geralmente são muitos fatores que a compõem. Mas há quem tenha a fórmula de tudo e consegue simplificar a realidade até que seja possível encaixá-la no seu espaço mental

Um sujeito me diz que é de responsabilidade de cada um controlar o que se come em relação ao que o corpo precisa. Muito bem, eu digo, é verdade. Mas, como a pessoa, o cada um, vai fazer isso? Com que instrumentos? Cabe a quem disponibilizar esses instrumentos ao “cada um”? Sim, porque, em tese, esse “cada um” é parte de uma coletividade, ou não? E essa coletividade não tem compromissos com cada um que a compõe? Se tem, quais esses compromissos? Entre eles não estão incluídos cuidados com a saúde, com a segurança alimentar?

Bem, se aceitamos que a coletividade tem compromissos com cada um, então a indústria “alimentícia” de junk food não é parte da comunidade, já que, em alguns casos, oferece comida de péssima qualidade e tenta, não raro, ocultar que seus produtos não servem para alimentar ninguém, muito pelo contrário.

Não foi só a indústria que viciou o Brasil em 'junk food'

Este texto é importante como uma ponderação ao exposto em matéria do New York Times (reproduzida neste blog e que rendeu outra matéria, também no blog), sobre o tema Alimentação, mais especificamente, Junk Food, ou seja, não-alimentação. A autora propõe a mudança do foco de compreensão, trazendo-o para o contexto no qual a indústria de Junk Food agiu e age


"O que aconteceria se a remuneração dos CEOs fosse calculada
em termos do impacto socioambiental de suas empresas ao
invés de em termos dos retornos financeiros obtidos?" 
Gisela Solymos | 18/10/2017 

Reportagem de capa do jornal americano "The New York Times" e reproduzida por esta Folha analisou o consumo crescente de alimentos ultraprocessados no Brasil e o impacto para a saúde da população e da economia nacional.

Trata-se de um artigo duro para com a indústria de alimentos, definida pela matéria como a grande causadora da epidemia de obesidade no Brasil. Não que ela não tenha sua parcela de culpa. Mas como uma das fundadoras do Cren (Centro de Recuperação e Educação Nutricional) –organização que aparece em destaque na referida reportagem como exemplo de serviço para tratamento nutricional– entendo que a indústria de alimentos não é a única responsável por esse mal que atinge mais de 2 bilhões de pessoas em todo o mundo.

De fato, fico muito preocupada quando problemas tão complexos são descritos segundo parâmetros simplistas dos filmes de super-heróis onde as personagens são mocinhos ou bandidos!

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Uma base imaginária para que não sucumbamos ao caos


Na bela obra "Sanctuary", de Rodney Matthews, a ponte para 
o santuário estaria sustentada apenas pela força da imaginação
Precisamos acreditar que estamos sobre uma ponte firme que liga nossos conceitos à realidade e que sob ela está o caos, que evitamos ao atravessá-la

A crença que temos nas leis é surpreendente. Cremos, quase ajoelhados ante uma divindade, que há um corpo de leis e regras que é absoluta e completamente objetivo e impessoal. Acreditamos que a Lei está ou fora ou acima da política, que ocupa um lugar que é como o olimpo, acima de todas as pessoas, reinando sobre tudo e todos, neutra, sublime, essencialmente boa e, se não bela, justa. Temos a firme crença de que há um Império da Lei no qual governam os justos, alheios até mesmo aos seus interesses mais pessoais. E, n’outro dia, li que um juiz concedeu uma entrevista dizendo exatamente isso e jurando que o tempo dos barões ladrões estaria no fim. É a crença dele e quem sabe por isso acabou exercendo a função de juiz. 

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

As novas ágoras e os que nelas debatem sem saber o que estão dizendo


Na antiga ágora, os cidadãos se reuniam em assembleia a fim de poder
discutir e deliberar ações para o destino da cidade: isso era a democracia
No passado, havia a ágora em Atenas e nela os cidadãos opinavam sobre tudo ou quase tudo, mas sabendo o que diziam. Já, hoje, todos opinam sobre tudo e muito pouco ou nada sabem acerca do que dizem

A democracia é uma proposta ateniense, do tempo em que as cidades (as polis) tinham poucos habitantes e estes podiam dominar boa parte do conhecimento acerca do que se passa pela polis. Imagine que a democracia surgiu há pouco mais de dois mil e quinhentos anos e, naquele tempo, não havia toda a profusão de saberes formulados que há hoje. Os assuntos eram tratados na assembleia geral democrática, que tinha lugar na ágora, uma grande praça cuja função era concentrar o máximo de cidadãos da cidade para debater e deliberar as questões relativas à comunidade. Todos os cidadãos eram convidados a participar, ou, mais que isso, intimados, pois era de cada um a responsabilidade pelo que acontecia no lugar.