quinta-feira, 26 de julho de 2018

Vale tudo no mundo da comunicação, mas com isenção

Empresas precisam normatizar as ações de seus empregados. Para isso, instituem códigos e regras escritas e não escritas. As normas não escritas são as mais graves e as que mais “pegam”, isto é, as que efetivamente têm força. Nem sempre as que são escritas, logo oficiais, são cumpridas o tempo todo, mas, se estão escritas, deveriam ser, ao menos em discurso.

No caso das empresas de jornalismo, as normas visam não exatamente proteger o empregado, mas a reputação da empresa. A única proteção que essas normas possibilitam para o empregado, que alguns cínicos chamam de “colaborador”, é a manutenção do emprego, que alguns insatisfeitos chamam “escravidão (mal) remunerada”. Se o “colaborador” não colaborar, pelo menos no que diz respeito ás normas, fica desprotegido no olho da rua.

A regra é clara como a luz dos out-doors
Newsletter do Comunique-se, um portal de comunicação, está informando que um empresário do setor assinou carta anunciando regras para a atuação dos jornalistas da casa nas redes sociais.

Entre as normas, estão as seguintes determinações:

- O jornalista tem a vida pública relacionada ao veículo para o qual trabalha. Se tal atividade manchar a sua reputação de isenção manchará também a reputação do veículo. Isso não é admissível, uma vez que a isenção é o principal pilar do jornalismo;
A perda de reputação, quando não é evidente, deve ser analisada pela direção de redação e pelo conselho editorial do Grupo;
No WhatsApp, em que há mais controle sobre o acesso ao conteúdo, o jornalista tem o direito de discutir o que bem entender com parentes e amigos de confiança;
A atuação do jornalista nas redes sociais não pode comprometer a percepção de isenção do Grupo;
O jornalista não deve se pôr como parte do debate político e ideológico;
O jornalista deve evitar a percepção de que faz publicidade ao citar ou se associar a nome de hotéis, marcas, empresas, restaurantes, produtos, companhias aéreas etc.;
O Grupo estimula o uso das redes sociais pelos jornalistas como valioso instrumento para se aproximar de seu público, ampliá-lo, reforçar a imagem de credibilidade de que já desfrutam, divulgar os seus conteúdos, encontrar notícias, fazer fontes;
Os jornalistas do Grupo devem sempre priorizar os seus veículos na divulgação de notícias;
O jornalista do Grupo, sem exceção, não pode, por óbvio, criticar colegas de suas redações ou de redações de competidores nas redes sociais.

Na carta, o empresário afirma que as redes sociais têm um “lado sombrio” e ““Podem ser usadas para manipular grupos, disseminar boatos e mentiras com fins antidemocráticos e permitir que a intimidade das pessoas seja clandestinamente conhecida”, segundo o Comunique-se. No entanto, apesar do alerta crítico, o poderoso empresário do "quarto poder" escreve que o seu grupo é um entusiasta do potencial positivo das redes, sempre segundo informações do site de comunicação citado.


A compra e venda se torna cada vez mais a regra do jogo nos veículos
que se dizem isentos, imparciais, objetivos e democráticos. Quando
o valor do dinheiro suplanta os valores éticos, o que vale é o preço.
   
Isenção no dos outros é refresco
O mais interessante é o ícone “isenção”, historicamente exaltado por algumas empresas de comunicação e enfaticamente referido pelo bambambam em questão. Para ele, ninguém deve questionar a isenção do jornalista, principalmente a do jornalista do grupo que dirige.

Engraçado: isenção é exatamente aquilo que - na opinião popular e mesmo na opinião de boa parte dos profissionais de comunicação – os veículos do jornalismo chamado de "grande mídia" não têm, mas querem, a todo custo, nos convencer de que têm. Isso significa que, na prática, essas empresas não enganam a ninguém. Se há os que acreditam nisso, é por conveniência.

Nesses termos, somos tentados a afirmar que, para a empresa em questão, e provavelmente para muitas outras do mesmo ramo, aparentar isenção é uma arma na conquista de mercado, mas praticá-la é uma exceção que, provavelmente, faria com que se perdesse no mesmo mercado, já que os anunciantes poderiam não gostar de perceber que seus interesses e seus produtos são tratados com isenção pelo veículo que sustentam com suas verbas de publicidade.

Melhor crer na isenção, na bondade humana e em Papai Noel, por que não? 
Claro que estamos somente tentados a afirmar isso, mas quem sabe não estamos enganados? Tudo indica que não, mas não custa acreditar na bondade humana, na isenção jornalística, em histórias da carochinha e, por fim, em Papai Noel.

Por que não, afinal? O mundo como ele é nos aparenta muito feio e cruel, então umas pitadas de fantasia não devem nos abalar.

Tudo isso com total e completa isenção, é claro.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Por motivos burocráticos, Ministério da Saúde descredencia Saúde da Família em milhares de municípios e população é quem sofre as consequências


Ministério da Saúde (MS) descredencia Equipes de Saúde da Família por questões burocráticas e avaliação é a de que 15 milhões de brasileiros podem ficar sem assistência. O motivo do descredenciamento foi o do não cumprimento do prazo estabelecido pela Política Nacional de Atenção Básica para o envio de informações, ou, conforme o Art. 1 da Portaria nº 1.717, de 12 de junho de 2018, pelo “descumprimento do prazo estabelecido na Portaria de Consolidação nº 2/GM/MS, de 28 de setembro de 2017, para cadastramento no Sistema Cadastro Nacional de Estabelecimento de Saúde (SCNES)”.

O fato é que é histórica a dificuldade dos municípios em cumprir as exigências de alimentação dos sistemas do MS, pois falta pessoal capacitado para tal e o MS, que antes atendia às demandas por meio do Datasus, hoje não mais se compromete com isso, em boa parte para economizar. A opinião corrente, inclusive no MS, é que, na prática, é uma punição não para as administrações municipais, mas para a população atendida.

Aproximadamente 60% da população assistida pelo SUS se beneficia desse recurso que foi extinto com o descredenciamento. Nas ruas, quem soube do fato não tem dúvida em afirmar que é mais um ato impopular do governo mais odiado de toda a história brasileira, que chegou ao poder por conta de um golpe político e amarga índices de popularidade baixos como nunca se viu antes.

Correto sob o ponto de vista administrativo ou não, o fato é que, quem pagará esse pato não será a Fiesp (com seu ridículo patinho amarelo das manifestações golpistas), não será o empreendedor afogado em impostos, não será o atual presidente, popular como somente Judas o foi, muito menos os seus ministros "cara-de-pau". Também não serão os manifestoches, que ajudaram a levar o atual governo golpista ao poder, nem Tite, nem Neymar. Quem pagará, com a saúde é a população desassistida, como costuma acontecer, lamentavelmente.

O “alarmante” uso de agrotóxicos no Brasil atinge 70% dos alimentos


Marina Rossi | São Paulo 30 ABR 2015 

Mais da metade das substâncias usadas aqui é proibida em países da UE e nos EUA

Imagine tomar um galão de cinco litros de veneno a cada ano. É o que os brasileiros consomem de agrotóxico anualmente, segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA). "Os dados sobre o consumo dessas substâncias no Brasil são alarmantes", disse Karen Friedrich, da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Desde 2008, o Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking mundial de consumo de agrotóxicos. Enquanto nos últimos dez anos o mercado mundial desse setor cresceu 93%, no Brasil, esse crescimento foi de 190%, de acordo com dados divulgados pela Anvisa. Segundo o Dossiê Abrasco - um alerta sobre o impacto dos agrotóxicos na saúde, publicado nesta terça-feira no Rio de Janeiro, 70% dos alimentos in natura consumidos no país estão contaminados por agrotóxicos. Desses, segundo a Anvisa, 28% contêm substâncias não autorizadas. "Isso sem contar os alimentos processados, que são feitos a partir de grãos geneticamente modificados e cheios dessas substâncias químicas", diz Friederich. De acordo com ela, mais da metade dos agrotóxicos usados no Brasil hoje são banidos em países da União Europeia e nos Estados Unidos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), entre os países em desenvolvimento, os agrotóxicos causam, anualmente, 70.000 intoxicações agudas e crônicas. 

sexta-feira, 29 de junho de 2018

O escrete de loucos

Nélson Rodrigues


Didi, o "Príncipe Etíope de rancho" 

1 – Amigos, a bola foi atirada no fogo como uma Joana d’Arc. Garrincha apanha e dispara. Já em plena corrida, vai driblando o inimigo. São cortes límpidos, exatos, fatais. E, de repente, estaca. Soa o riso da multidão – riso aberto, escancarado, quase ginecológico. Há, em torno do Mané um marulho de tchecos. Novamente, ele começa a cortar um, outro, mais outro. Iluminado de molecagem, Garrincha tem nos pés uma bola encantada, ou melhor, uma bola amestrada. O adversário pára também. O Mané com 40 graus de febre prende ainda o couro.
Aí está: no velho Mundo os sujeitos se parecem como soldadinhos de chumbo. A dessemelhança que possa existir de um tcheco para um belga, ou um suíço, é de feitio do terno ou do nariz. Mas o brasileiro não se parece com ninguém, nem com os sul americanos. Repito: o brasileiro é uma nova experiência humana.

O México destacou oito marcadores para tentar tirar a bola de Garrincha
2 – A partida está no fim. O juiz russo espia o relógio. E o Brasil não precisa vencer um vencido. A Tcheco-Eslováquia está derrotada, de alto a baixo, da cabeça aos sapatos. Mas Garrincha levou até a última gota o seu “olé” solitário e formidável. Para o adversário, pior e mais humilhante do que a derrota, é a batalha desigual de um só contra onze. A derrota deixa de ser sóbria, severa, dura como um claustro. Garrincha ateava gargalhadas por todo o estádio. E, então, os tchecos não perseguiram mais a bola. Na sua desesperadora impotência, estão quietos. Tão imóveis que parecem empalhados.


ONU envia carta ao governo brasileiro alertando contra o Pacote do Veneno


Segundo documento assinado por cinco relatores, o pacote fere o direito do povo brasileiro a um ambiente seguro, limpo, saudável e sustentável, à alimentação, à água segura e à saúde física e mental

Reportagem de Cida de Oliveira, da RBA | 19/06/2018 | No Brasil, todas as instituições já se manifestaram contra o Pacote do Veneno, que só interessa aos fabricantes

São Paulo – O Alto Comissariado de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou ontem (18) documento em que manifesta uma série de preocupações com a aprovação do substitutivo do relator Luiz Nishimori (PR-PR) para o Projeto de Lei (PL) 6.299/02 e outros 29 apensados, o Pacote do Veneno, que revoga a atual Lei dos Agrotóxicos.

Firjan: despenca o índice de desenvolvimento dos municípios brasileiros


Desgraçado. Esse é talvez o adjetivo mais preciso para descrever o momento do Brasil. Se você duvida, saiba que a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) divulgou uma atualização do ranking do índice de desenvolvimento dos municípios brasileiros, que avalia quatro variáveis: emprego, renda, educação e saúde. Pois é, o índice é pior do que o de 2013 e aponta para uma queda radical na qualidade de vida da população, principalmente no que tange ao item “saúde” e, é claro, no item “emprego”.

Segundo o site “Outra Saúde”, o Programa de Humanização no Pré-Natal e Nascimento recomenda sete consultas durante a gestação, mas o país tem quase um milhão de gestantes sem acesso ao pré-natal. Outro dado que preocupante é o dos óbitos de menores de cinco anos por causas evitáveis, como diarreia. Em 2016, mais de 27 mil mortes poderiam ser evitadas, segundo o estudo.

A situação é melhor no sudeste e sul do país, com o Rio Grande do Sul (RS) liderando o índice Saúde: 85% dos municípios do RS tem alto desenvolvimento nesse item. Na outra ponta, o Norte e Nordeste têm, respectivamente, 32,3% e 24,4% das cidades com desenvolvimento regular e baixo. A desigualdade entre as regiões fica patente: São Paulo tem 99,4% dos municípios com alto desenvolvimento, enquanto sete estados (Acre, Roraima, Rondônia, Pará, Amapá, Maranhão e Sergipe) não têm nenhum.

Armadilhas em todo canto


Por conta da falta de dinheiro, causada em parte pela irresponsabilidade na condução dos recursos públicos que caracteriza os governos e em parte pela obsessão por consumo e consequente endividamento, brasileiras e brasileiros estão em palpos de aranha. Alguns correram para o SUS, e descobriram que em muitos casos são melhor atendidos do que pela iniciativa privada, embora em outros casos a realidade não seja assim tão boa. Outros migraram para planos de saúde mais baratos, no afã de gastar menos. E foi aí que se deram bem mal.

Aproveitando a distração da Copa, “Pacote do Veneno” passa em comissão e segue para votação no plenário da Câmara


Contrariando os que dizem que deputado não gosta de trabalhar e que não faria nenhum esforço para isso durante a Copa do Mundo, dezoito deputados compareceram ao batente e aprovaram a liberação geral dos agrotóxicos no país. Outros nove também foram à Câmara, mas para votar contra esse atentado à saúde do brasileiro.

Alimentação é coisa séria, nossa saúde e nosso bem-estar dependem dela, da qualidade dos alimentos que consumimos. No entanto, muitos produtores, notadamente os grandes, os que sustentam o agronegócio, cuidam mais dos próprios ganhos do que da qualidade dos produtos que oferecem. Isso acontece da mesma forma com certos prestadores de serviço do ramo de alimentação, notadamente os que oferecem ‘comida porcaria” (junky food). É o caso das lanchonetes de fast food de padrão estadunidense, principalmente. Trata-se de comida que não nutre, apenas engorda, um caso para intervenção do poder público, que de bem com a fatia irresponsável do empresariado, olha para o outro lado e deixa as coisas como estão.

De imensa gravidade é outro caso, o do uso de veneno em grandes quantidades em grandes plantações. E parlamentares tão irresponsáveis quanto os empresários que oferecem comida porcaria acabam de aprovar, em comissão da Câmara dos Deputados, o “Pacote do Veneno”, o PL 6299/02, que torna mais brandas as regras para jogar veneno na nossa comida. Isso, contrariando os pareceres de quem entende do assunto e de quem vai sofrer com o envenenamento, como a Anvisa, a Fiocruz, o Inca, o Ministério Público Federal, duzentas entidades da sociedade civil e 90% dos cidadãos e cidadãs que acessaram o site da Câmara e, em proporção de 90%, reprovaram o pacote.

A favor do “Pacote do Veneno” somente os deputados sustentados pelo agronegócio, os empresários irresponsáveis do setor, as grandes corporações do veneno (multinacionais como Syngenta, Basf e Bayer) e um ou outro lacaio pago para defender esse absurdo indefensável. Revoltante é saber que os países sede dessas empresas lidam com esses produtos de forma bastante severa. Já, no Brasil, parece que vale tudo.  

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Argumentos tóxicos para defender o agrotóxico

Com relação a um texto que defende, com ideias prontas e pouco claras, o uso de agrotóxicos, assinado por um jornalista e publicado em um jornal de uma capital, cabe considerar que há ali o tipo de argumento absolutamente frágil e que não pode nem deve ser considerado válido. Justamente por isso, foi de meu interesse observá-lo e me debruçar sobre ele.

O autor é um jornalista, repito, não um cientista, nunca um especialista no assunto tratado. Neste caso, aparenta ser um curioso que resolveu se envolver em uma área que provavelmente não domina, mas que, por algum interesse, sabe-se lá qual, parece se sentir bem à vontade. O interessante é que fala em “desmistificar” a produção de alimentos orgânicos, critica a Anvisa e fala em ideologias pró-orgânicos etc. E afirma que seu interesse é combater a desinformação.

Isso pode acontecer, um jornalista se envolver com um tema e resolver informar a população. No entanto, como profissional de jornalismo, quando faz isso deve procurar fornecer informações sobre os dois lados, ponderá-los, mostrar ao público as diferentes formas de interpretar o fato do qual está tratando. Se um jornalista não faz isso, deixa no ar um pesado aroma de compromisso com apenas um lado do fato, o que, sem dúvida, quer dizer que está ideologicamente comprometido (isso quando não está financeiramente interessado), que é imparcial e nada objetivo, nada isento para abordar o tema tratado. Assim, no caso ora tratado, sua crítica à Anvisa (que ele diz contaminada por ideologia antiagrotóxico e pró-produtos orgânicos) é inócua porque tendenciosa, parcial e nada objetiva.

Só o que queremos entender pode ser entendido


O gato sobe ou desce a escada? Tanto faz...

Na verdade, tudo o que se diz só pode ser realmente decodificado com a ajuda de um espelho. Talvez isso aconteça com o que se sente, mas sob esse ângulo a coisa fica mais complexa, de modo que é melhor nos atermos na fala, no discurso mesmo.

As palavras têm o poder de revelar e ocultar, no mesmo movimento ou no mesmo som, para sermos bem exatos. É certo que o tom de voz com o qual são ditas ajuda muito para saber o que está claro e o que permanece na escuridão, mas, mesmo assim, não dá para ter cem por cento de certeza do sentido do que é enunciado, seja lá qual for o enunciador. E é então que precisamos do espelho.

Há uma máxima esotérica que diz: o que está em cima é análogo ao que está embaixo. Com ela, o iniciado começa a perceber que há uma inequívoca semelhança entre o mundo espiritual e o mundo da matéria. Essa semelhança, porém, se tomarmos em conta o que se costuma compreender acerca desses dois mundos, bem pode ser definida como uma imagem especular. O mundo do espírito tem uma forma de organização e o mundo terreno tem outra, análoga, mas especular àquela. Isso certamente ocorre pelas características de cada plano: em um não há a ilusória rigidez da matéria e no outro é ela que domina e determina, ainda que ilusoriamente, tudo (isso para quem toma em conta que a matéria é maia/ilusão - no hinduísmo, maia é a ilusão que dificulta ou mesmo impede a apreensão cognitiva da natureza eterna e divina da alma, fazendo com que a confundamos com o pobre e frágil eu empírico e transitório).