sábado, 24 de junho de 2017

A multidão e o poder

Não há conflitos, a não ser os de pequena monta e interesse; não há parâmetros para a penetração do poder em todos os níveis da multidão

De um lado, uma multidão. Uma vasta quantidade de gente com destinos comuns, mas com divergências pontuais que podem levar ao conflito aberto, ao confronto assassino. Todos juntos, solitários, bebendo coca-cola, se alimentando de comidas que não alimentam e de informações que não fazem pensar, essas flatulentas mensagens e memes diversos que circulam incessantemente pelas redes que agregam a multidão.

Os ditos “mal ditos”


Será um dos leões a imagem "cuspida e escarrada" do outro? 
Você já ouviu falar que alguém é a cara de outrem “cuspida e escarrada”? Na certa, se ouviu sentiu certo desconforto, até mesmo nojo...

E que aquele menino tem “bicho carpinteiro”? Você ficou imaginando como é esse bicho que ninguém nunca viu. Eu, pessoalmente, cheguei a pensar em cupins, mas a imagem de alguém sendo comido por cupins não é nada real.

O fato é que esses e outros ditos populares não são o que parecem. Tinham originalmente uma formulação que, ao contrário das citadas, tinha algum sentido.

Vamos desvendar, então, a forma original desses ditos tão “mal ditos”.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Tiros, violência desmedida e atos de vandalismo: será a polícia em ação?


Diferentemente do que ocorre em outros países, no Brasil a polícia parece,
sempre, desmedidamente violenta e mesmo desonesta. "Se eles (a polícia)
me pegam, avisem meu pai, se saio desta vivo não morro nunca mais",
trecho do rap de Thaíde, "Homens da Lei", composto já na década de 1980
e que está no primeiríssimo disco de rap do país, "Cultura de Rua", de 1988.
Há muita gente boa na polícia, mas os recentes acontecimentos ocorridos no Centro de São Paulo mostram que ou os maus predominam ou a existência da própria instituição policial militar é, em uma sociedade democrática, totalmente inaceitável

Existem muitas pessoas com excelente índole na Polícia Militar, com certeza. Existe gente boa em todo lugar, em toda instituição, é claro. E o mesmo se aplica a gente má, também é certo. O problema maior, nesse caso, é a própria instituição. Uma polícia militarizada só é justificável em situação de calamidade absoluta ou em casos de dominação colonial. A Polícia Militar, assim, ou é uma tropa de domínio colonial com prazo de validade vencido há tempo ou temos que admitir que estamos vivendo em estado de calamidade pública, com bandidos, assaltantes etc. vagando por aí à procura de vítimas inocentes. Em algumas áreas, a segunda alternativa é válida, mas, curiosamente, são as áreas nas quais nem a polícia vai, o que torna as coisas meio confusas para quem quiser entender a dinâmica do processo.

domingo, 18 de junho de 2017

Novas travessuras da língua

Saiba, aqui, o porquê de você nunca chegar em casa e como a multa só é craseada quando dói no bolso. 

Você é daquelas pessoas que vão à loucura com a Língua Portuguesa? Pois estou com você. Cada vez que me aprofundo, mais me surpreendo. A última é a descoberta de que ninguém chega em nenhum lugar. Sim, o que quero dizer é o seguinte: em algum lugar você não chega, de jeito nenhum. E por quê?

O fato é que a regência verbal da nossa Língua admite apenas as preposições: “de”, “para” ou “a”.

Assim, no caso do verbo “chegar”, temos as possibilidades abaixo:
- você chega de algum lugar;
- você chega a algum lugar.

Como você não chega para algum lugar, desconsideremos isso agora, mas lembre que a regra vale para qualquer verbo que indique movimento, locomoção. Assim, o verbo partir admite o “para” e também o “de” e o “a”.
- você parte para;
- você parte de;
- você parte a (ou à).

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Sobre a política da safadeza, a depressão e os possíveis desejos inconfessos dos eleitores

Há quem diga que política virou sinônimo de safadeza no país e que os eleitores seriam os responsáveis por isso pois fariam o mesmo que os eleitos, caso houvesse oportunidade

O político, hoje, é entendido pela população como aquele sujeito que pensa em seus próprios interesses e, por conta disso, utiliza recursos públicos para satisfazer a si próprio(a) e aos “amigos” e correligionários. Um dos maiores indícios disso é o procedimento do atual Presidente da República, Michel Temer, bem como o da presidente Dilma Rousseff, de quem Temer era vice. Ambos liberaram mais de um bilhão de reais, cada um, para tentar salvar seus mandatos, sendo que Dilma foi cassada no ano passado e Temer está na iminência de sê-lo a qualquer momento.

No entanto, se você os acusar, eles poderão argumentar que toda essa grana já estava com destinação prevista, pois estamos falando de emendas parlamentares. O curioso é que esse montante deveria ser liberado paulatinamente, como é praxe. No entanto, na hora do aperto, as autoridades supremas resolvem liberar tudo para sensibilizar os parlamentares em relação às suas boas intenções em relação a eles, não ao país.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Cariocas colhem o que plantaram durante um século


O cúmulo do cinismo acontece quando a instituição que deve 
combater o tráfico de drogas é quem trafica drogas – e, segundo 
fontes, essa foi a situação do Rio em um passado muito recente
A tragédia da violência no Rio é uma desgraça que foi lapidada pacientemente pelos governantes cariocas no último século, quando a polícia foi a única instituição pública a frequentar as comunidades/favelas

A fuga de moradores da zona norte carioca (ver matéria aqui) mostra a falência de todas as políticas públicas projetadas e implementadas no Rio de Janeiro. Curiosamente, essas políticas foram erguidas sobre a base da discriminação de parte da população, a mais pobre, por representantes das classes mais ricas, uma pequeníssima parcela da população, que é, na prática, a imagem icônica especular da grande massa populacional conhecida genericamente como a “classe média”, que apoia as políticas discriminatórias.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Promover o sensacionalismo barato está longe de ser a função social do jornalismo

Sabemos que os empresários compram presidentes, governadores, prefeitos, ministros, deputados e senadores e também sabemos que os bastidores da política fedem, mas nem por isso se deve divulgar acusações sem provas nem condenar sem julgamento como faz a imprensa sensacionalista

Que todo mundo sabe que rola muito dinheiro no mundo dos políticos, isso é verdade. Que a caixa 2 é prática comum e é mesmo difícil para um candidato, por melhor caráter que tenha, não cair nessa vala comum, é mais verdade ainda. Que, infelizmente, a maioria dos parlamentares é parlamentar porque tem o rabo preso com algum empresário, que recebe mesada e gordos auxílios para sua campanha e sua vida pós-campanha. Essa relação incestuosa é conhecida por praticamente todo mundo. Só não é falada pelos empresários e seus financiados quando estão em público e é preciso manter as aparências.

Enfim, todos, ou quase todos, sabe que a vida dos políticos e dos empresários que os bancam não é o que eles próprios dizem, muito menos o que a imprensa costuma dizer nos noticiários diários. As investigações da operação policial e jurídica chamada de “Lava Jato” são, nesse sentido, valiosas, pois expuseram a lama dos bastidores do poder. No entanto, determinadas delações parecem estar indo além do plausível e podem estar entrando no campo das fantasias ou, como alguém já disse, da acusação armada de acordo com interesses políticos e/ou econômicos (pois que uma coisa anda costumeiramente de mão dada com a outra).

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Do trivial variado

Letra morta
“Ele foi localizado em uma ilha próxima a cidade onde o crime aconteceu”, eis uma frase escrita com um erro ortográfico. Você sabe qual é? Tudo parece certinho, mas falta um acento, uma crase. Sim, você sabe onde.

Erros de ortografia estão cada vez mais comuns entre nós, mortais brasileiros. A língua culta, que era, no passado, uma referência importante na vida de tantos, hoje parece relegada ao status de letra morta. Inclusive entre pessoas que deveriam saber, no mínimo, escrever com correção, sem erros tolos como esse. A frase é de um (ou uma) jornalista e foi publicada em um jornal desses que é distribuído nas ruas, o Metro, não sei se na edição impressa ou na digital. Pouco importa.

Eu não iria para “a” Rio de Janeiro ou moraria “no” Tijuca
Há algum tempo, um jornalista se mostrava ultrajado com pessoas que utilizam o termo “risco de vida”, corrigindo o incauto, na hora, para “risco de morte”. E outro se mostrou perplexo quando eu disse que achava ruim falar, como se faz em Curitiba, algo como “Moro no Água Verde”. Ele me disse que estava CERTO (os curitibanos adoram fazer referências ao CERTO) porque era “o bairro” Água Verde. “Ora, certo”, eu disse, “então no próximo fim de semana vou para ‘a’ Rio de Janeiro, já que se trata de uma ‘cidade’”. Que me desculpe quem defende essa forma esdrúxula de se referir a uma localidade chamada “bairro”, mas me parece um tanto ridículo e feio para a audição.

Morei “em” Copacabana, “no” Catete, “na” Tijuca, “nas” Laranjeiras (ou “em” Laranjeiras, como preferem alguns) e “no” Flamengo, isso no Rio. Não conseguiria, de maneira alguma, morar “no” Copacabana, ou “no” Laranjeiras, muito menos “no” Tijuca. Assim como jamais sequer iria até “o” Água Verde. Mas, cada qual vai, mora e fala como quer e pode, é certo.

Alimentos que não alimentam e informações que não fazem pensar
Os hábitos alimentares são algo que a saúde pública precisa observar com mais atenção do que faz hoje. Isso, se quiser promover realmente a saúde. O que se come por aí de lixo, alimentos que não alimentam nadinha, é algo surpreendente. Alguém que faça refeições diariamente em um fast food está comendo coisas que não lhe alimentam e, pior, apenas lhe incham, pois não se pode dizer que seja minimamente nutritiva a comida servida nessas lanchonetes com nomes Mac isso ou Big aquilo vendem. Então, por que vendem? Então, por que o Estado permite que vendam? 

Talvez pelo mesmo motivo que leva os empresários de comunicação a publicar informações que não encorajam a pensar, que não alimentam o espírito. E pela mesma razão que leva o Estado a permitir que isso aconteça. 

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Essa gente detestável que vai para o inferno de cabeça para baixo


Se você põe no pano verde a tua alma tentando negociar a salvação
do teu espírito, pode esperar que no inferno você rapidamente irá chegar
As aparências enganam e todo mundo sabe disso. Não se sabe, no entanto, que enganam até um ponto, até uma hora, não mais que isso. Depois, a farsa acaba e tudo fica transparente. Somos de vidro para Deus, teria dito Machado de Assis, segundo um sujeito que encontrei hoje pela manhã. Não sei se Machado realmente escreveu ou falou coisa assim, mas, de certo modo, é o que Swedenborg diz no seu “O Céu e o Inferno”. E faz muito sentido, além do mais.

Se você faz o que é bom e certo para conseguir a salvação, então provavelmente não a merecerá. Se age assim, está fazendo de suas boas intenções meros atos comerciais e, não se iluda com as conversas do marketing e da teoria da administração pós-moderna que transformam tudo numa negociação. Tem coisas inegociáveis e o caráter é algo assim, diriam os antigos. Mais inegociável, no entanto, é o espírito, que seria o sopro divino que trazemos em nós, segundo me consta. E o espírito é provavelmente o que fala pela linguagem consciente e, principalmente, pela linguagem inconsciente, aquela a qual Lacan se referia nos meados do século passado.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Lula e o juiz brincam de Street Fighter, mas é você que leva porrada


Eles manipulam o joystick e você leva as porradas
10 de maio de 2017: enquanto Lula e Moro simulam estar em um game de luta, é você que está no ringue levando todos os socos e pontapés

Quanto mais eu vivo, mais me surpreendo. Todo o tumulto em torno do depoimento de Lula para a Justiça Federal em Curitiba é de chamar a atenção. Em primeiro lugar, trata-se de uma grande produção, quase cinematográfica, épica, do tipo Bem Hur, Quo Vadis, Intolerância ou algo próximo. A imprensa deita e rola no clima sensacionalista e, no campo jurídico e político, tanto uma parte quanto a outra fazem questão de acentuar o clima de duelo de titãs. E o mais surpreendente: o juiz, o tal Moro, o heroico guerreiro que tem no curriculum o brilho do desmantelamento de uma quadrilha que movimentou bilhões, de repente age como se não fora um juiz, um magistrado, mas parte no processo, uma espécie de promotor público ou, pior, um candidato a alguma coisa ou o cabo eleitoral de quem parece combater.